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Campeão sem carisma

16.11.09 - Por Lemyr Martins

Parece acaciano, mas na Fórmula 1 é tão importante ter carisma como ser campeão. Stiling Moss jamais foi campeão, mas é mais festejado do que Mike Hawthorn, seu contemporâneo e campeão de 1958. Damon Hill venceu 22 corridas, foi campeão em 1996, mas não figura na galeria britânica com o mesmo carinho de Nigel Mansell. Já Jacques Villeneuve é dono do título de 1997, mas é Gilles, seu pai, mesmo sem título, quem foi elevado à galeria dos gênios da F-1.

Faço essa introdução porque o campeão de 2009, Jenson Button, está na encruzilhada entre o título e o carisma. Não há como desmerecer seu título, afinal ele marcou 95 pontos, venceu seis das 17 corridas do ano e soube administrar a vantagem na jornada ao título.

Porém, sua façanha já é contestada. Um dos raciocínios é de que ele só foi bravo no início do ano, quando tinha o melhor carro, e depois minguou. Argumentam também que após a sexta vitória, na Turquia, ele não foi além de um 2º lugar na Itália e 3º em Abu Dhabi.

Até Tamara, filha do poderoso Bernie Ecclestone, detonou Button, catalogando-o como um campeão medíocre, que só chegou ao título porque teve um carro muito superior.  E não são poucos os que, nos bastidores, apontam Sebastian Vettel como o melhor piloto de 2009.

Será?

O interessante é que, embora tenha homenageado o seu campeão, Ross Brawn não sai em sua defesa. Essa atitude só se justificava no aparente jogo da barganha da renovação de Button, antes da escuderia ser vendida à Mercedes-Benz. Afinal, Ross sabia que havia mais pilotos interessados no seu carro do que equipes no talento de Jenson. Seria então falta do carisma do piloto?

Mas como esquecer de sua pilotagem no GP da Austrália, quando comandou a dobradinha do neófito time da Brawn e, em apenas um mês, se elevou a favorito ao título? Uma previsão que foi se confirmando de corrida a corrida, com vitórias em todos os tipos de pista. Na Malásia ganhou sob um temporal, enquanto que no Bahrein o inglês fez tudo parecer fácil, conquistando a terceira vitória do ano.

Button chegou ao GP da Espanha com uma vantagem cômoda sobre os adversários das equipes concorrentes e 12 pontos à frente de Barrichello, o segundo na classificação . Entrou na fase européia com o pé direito, acelerando para a quarta vitória do ano.

Nesta corrida, Rubinho chiou com a mudança da tática no meio da prova, mas quando parecia que ia iniciar uma briga doméstica na Brawn, veio o GP de Mônaco e Button passou à condição de fenômeno ao vencer a quinta das seis corridas do ano, apenas setenta dias depois dias depois de pilotar o Brawn GP001 pela primeira vez.

Para vencer na Turquia, Jenson Button precisou de três segundos de sorte e usou o talento no restante da corrida. Ele beneficiou-se de um erro do pole position Sebastian Vettel na segunda curva e tocou para a vitória. Nesta corrida, passou a impressão de formar uma simbiose com seu carro, como se fosse feito sob medida para ele.

Já festejado como virtual campeão - mas ainda sem o carisma dos ídolos -, Button declarou-se apaixonado pelo ofício e confessava ser um chato obsessivo. “É isso que a minha namorada reclama, porque vivo intensamente as conquistas, mas acordo na segunda-feira já pensando na próxima corrida”, declarou. Mal sabia ele que o triunfo na Turquia fechava sua cota de glórias, repetida apenas com duas subidas ao pódio.

Talvez esteja em tempo de Jenson Alexander Lyons Button voltar à Terra e passar  de chato obsessivo a pragmático, na busca do carisma que vai além do título de campeão.  Sem dúvida, uma receita enigmática, que ele terá que decifrar enfrentando Lewis Hamilton na trincheira da McLaren e outros candidatos a lendas.

Comentários

Masahiro Ide - 21.11.09 @ 18:59

Realmente Jenson Button se encontra na encruzilhada do carisma e do talento. Para se ter uma ideia, em 1986 a equipe Mclaren tinha Alain prost e Keke Rosberg, no qual Alain Prost se sagrou campeao com Keke Rosberg ficando apenas em sexto colocado. No ano seguinte em 1987, na mesma Mclaren, Alain Prost foi campeao novamente com Stefan Johansson em sexto. Em 1988 a Mclaren contratou Ayrton Senna, certamente para ser o segundo piloto da equipe que ja tinha o bicampeao Alain Prost, mas o talento, a garra e a determinacao fizeram com que o que deveria ser o segundo piloto fosse campeao mundial naquele ano com apenas 3 pontos de vantagen. Nestas alturas, acho que Jenson Button conseguiu uma oportunidade para mostrar a sua capacidade diante do (desafio), como ele proprio diz, neste palco que o bicampeao Fernado Alonso nao conseguiu. Se o talento de Button for somente o que ele mostrou na Brawn dificilmente sera campeao pela segunda vez. Grato

Thiago - 18.11.09 @ 16:59

Caro Lemyr, acompanho suas colunas, e concordo em 95% do tempo com vc (mesmo porquê, quem sou eu para discordar de Lemyr Martins? rsrs) Perguntem ao Button se ele se importa em melhorar sua imagem ou conquistar mais títulos? O próprio Schumacher deu este conselho ao Massa: "Não se importe com que os outros dizem sobre você. Apenas faça seu trabalho da melhor forma possível." Acho que carisma só importa para a mídia e para os fãs. Para o piloto, pouco importa ser "queridinho" ou não, se sua capacidade lhe trás vitórias constantemente - que certamente lhe garantirão os títulos. Os contratos são assinados com base na entrega de resultados (poles, vitórias e campeonatos), e não carisma. Desde que o piloto cumpra, minimamente, seus compromissos com os patrocinadores, ótimo! Fica registrada a minha humilde opinião. Abrc

Luiz Sergio - 17.11.09 @ 09:39

Pelo o que eu acompanhei, Hamilton não queria o Kimi, o Kubica e Nico Rosberg e até tentou forçar a permanência do seu companheiro de equipe que como dizem não fede nem cheira, mais não foi contra a contratação do Button, parecia que ele preferia Button mesmo campeão do que os outro três. Uma grande equipe, deve se preocupar em ter uma piloto com grande potencial (Hamiltom) e o outro piloto com grande capacidade, para num eventual problema esse piloto tenha capacidade de ser também campeão (Button). Lemyr, talvez essa analise desse uma boa crônica, pois quem acompanha sem fanatismo e analisando friamente, parecia que na equipe Brawn o piloto brasileiro parecia que que estava sendo boicotado, com panes colocadas e táticas erradas, pois Button tinha um contrato por um ano e o Rubinho era um contrato provisório. Hamilton é mais rápido, sabe regular melhor o carro, é mais constante, tem mais raça é bem mais completo como piloto e já está na equipe muito tempo; Button, tem quase todas essas qualidades mais em um nível um pouco inferior(foi um campeão sem sal).
Quem Escreve

Lemyr Martins

Jornalista especializado em automobilismo, já cobriu mais de 280 Grandes Prêmios in loco.
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