O encontro entre Felipe Massa e Fernando Alonso, promovido pela Ferrari em Valência, na semana passada e transmitido para o mundo, me lembrou a cena que presenciei na sala de conferência de Monza, entre Ayrton Senna e Alain Prost após a definição do grid no GP da Itália de 1989. Como era publico que eles viviam se digladiando dentro e fora da McLaren, um repórter italiano aproveitou a oportunidade para jogar uma armadilha sobre os dois gênios. Depois de garantirem que não havia nada de anormal na relação entre eles, o jornalista aproveitou para desafiá-los a um aperto de mão.
Eles concordaram e deram-se as mãos rindo amarelo, um virado para o oriente e outro para o poente. Foram aplaudidos e a conferência de imprensa foi encerrada com a presumida celebração de amizade entre os dois campeões.
Na saída, provoquei Ayrton:
- Então, fez-se a paz? Ele ironizou:
- É ... até a primeira curva.
Pois nada será diferente com Massa e Alonso em 2010.Vão rir em público, mas vão ranger os dentes longe das câmeras, alimentando a briga feroz e técnica na disputa do título. O que não será nenhuma novidade, porque suas biografias já contam com discussões pesadas e acusações ácidas no passado recente.
E é o próprio Massa quem admite que a amizade é um sentimento escasso nas pistas e aconselha a quem quiser um amigo na F-1 pegar um atalho e comprar um cachorro. Realmente, na F-1 a afeição é eventual e os duelos permanentes. Os inimigos de hoje podem ser amigos amanhã, e vice-versa, dependendo das circunstâncias e dos interesses.
Quem imaginaria que Alonso elogiaria Hamilton após o título do inglês e receberia a recíproca de Lewis assim que se tornou piloto da Ferrari, esquecendo-se, ambos, da venenosa troca de farpas quando dividiam o boxe da McLaren?
Também parecia improvável haver amabilidades entre Ron Dennis e Jean Todt, principalmente após o escândalo da espionagem da McLaren sobre a Ferrari.Um rumoroso affair no qual Todt pregou o banimento de Dennis do automobilismo. Porém, bastou Todt eleger-se presidente da FIA para os ex-desafetos confraternizarem efusivamente em Abu Dhabi, no encerramento da temporada.
A troca de lados na F-1 também é pródiga em transformar adversários em amigos fraternos. Quem poderia imaginar Ross Brawn abraçado a Norbert Haug, diretor esportivo da Mercedes-Benz, especialmente após o alemão ter pedido a exclusão dos carros da Brawn à FIA por causa do duplo difusor do carro inglês? Pois o abraço aconteceu, assim que a Mercedes-Benz comprou a escuderia inglesa.
Também foi esquecida a crítica feita por Frank Williams a Rubens Barrichello, quando o brasileiro esbravejou contra a Brawn no GP da Alemanha por causa de uma troca de mangueiras no pit stop, que custaram preciosos segundos e a vitória ao brasileiro. Mesmo chefiando outra equipe, Frank criticou Barrichello e censurou o piloto, catalogando as suas declarações como inadmissíveis para quem têm anos de F-1.
No entanto, Rubinho - que declarou uma paixão antiga pela Williams - será o principal responsável pelo desenvolvimento da Williams de 2010.
Na verdade a F-1 parece ter a vocação de apresentar pessoas para conflitos futuros. Ninguém poderia prever que Nelson Piquet e Flavio Briatore, aliados na Benetton nas vitórias de 1990 e 1991, se tornariam inimigos com o propósito de destruir um ao outro, após o escândalo que envolveu Nelsinho em Cingapura.
Agora é a McLaren que acendeu um novo estopim com a contratação de Jenson Button para parceiro de Lewis Hamilton. Dois campeões, dois ingleses, dois egos enormes dentro do mesmo barco. Por enquanto tudo são gentilezas, mas vamos esperar o apagar das luzes vermelhas. Afinal, há uma máxima definitiva na F-1: a de que o companheiro de trincheira é o primeiro inimigo a matar. E foi nos boxes da McLaren que Ayrton Senna deixou dito que “os Grandes Prêmios existem para competir e não para fazer amigos”.
Fabiano - 01.12.09 @ 14:17
Ou seja, ninguém se salva, mesmo... Por essas e várias outras, eu prefiro me preocupar com o que acontece dentro da pista, mesmo!cleverson - 30.11.09 @ 14:31
Na ferrari a disputa vai ser mais ferrenha pois todos sabem do temperamento de Alonso e o Massa não vai levar desaforo para casa, já na Mclaren a tendência é favorecer Hamilton devido aos longos anos de parceria o que não vai ser aceito por Button que também é campeão do mundo e ainda por cima mais experiente.Luiz Sergio - 28.11.09 @ 19:05
Não creio que na Mclaren a disputa seja tão acirrada entre seus dois pilotos, pois a características de pilotagem deles são diferentes, na Ferrari é que realmente deve sair faisca. Se a Renault sair do circo, a dupla de pilotos da Mercedes GP, com Nico Rosberg e Kubica, vai ser muito forte e com uma previsão de disputa também radical.