Nos últimos anos, um conceito de negócios passou a fazer
parte do cotidiano de um crescente número de empresas de
todos os setores: sustentabilidade. O que é isso? Ele pode
ser definido como a capacidade de uma empresa desenvolver
sua atividade de forma a atender às necessidades da geração
atual, sem comprometer a vida das gerações futuras. Em outras
palavras, significa buscar o lucro duradouro meta de qualquer
empresa por meio de práticas econômico-financeiras, ambientais
e sociais responsáveis, integradas à administração do próprio
negócio. Segundo os especialistas, ser uma empresa sustentável
vai se tornar, cada vez mais, sinônimo de sobrevivência.
Por quê? Imagine duas transportadoras. Uma delas paga os
impostos conforme estabelece a lei, respeita todos os direitos
trabalhistas de seus funcionários e cuida para que seus
veículos reduzam a emissão de poluentes. A outra transportadora
sonega impostos, não registra seus empregados em carteira
e não tem a menor preocupação com o impacto de sua atividade
no meio ambiente. Com os consumidores cada vez mais conscientes
de seus direitos, a tendência é que a segunda empresa perca
clientes para a concorrente que adota boa práticas de responsabilidade
corporativa. Não somente isso: os fornecedores, bancos e
outros parceiros comerciais também vão evitar fazer negócios
com uma empresa que não seja bem-vista no mercado.
Em entrevista recente ao Guia de Sustentabilidade
2007, publicado pela revista Exame, o economista americano
Michael Porter, professor da Harvard Business
School e considerado uma autoridade mundial em estratégia
competitiva, destacou que um grupo cada vez
maior de companhias em todo o mundo está buscando
incorporar seus projetos de responsabilidade corporativa
à gestão do negócio. “Normalmente, as companhias têm
uma estratégia econômica e uma estratégia de responsabilidade
social, e o que elas devem ter é uma estratégia
só”, disse Porter. O guia da Exame apresentou os casos
de 20 empresas consideradas modelos em práticas de
sustentabilidade no Brasil. Nenhuma delas pertence ao
setor de transportes e logística. Um levantamento informal feito por QUATRO RODAS FROTA S/A mostra
que mais de 60% dos profissionais de recursos humanos,
marketing, comunicação e projetos desse setor não
estão familiarizados com o conceito de sustentabilidade.
Foram ouvidos representantes de 11 empresas. A maioria
conseguiu citar apenas ações pontuais de responsabilidade
social ou ambientais desenvolvidas pela empresa.
Integração e planejamento das ações sustentáveis ainda
são iniciativas raras no setor.
EXPERIÊNCIA PIONEIRA Diante dessa
realidade, o lançamento do programa Próximo Passo,
desenvolvido pela Iveco e que engloba diversas iniciativas
de curto e longo prazo ligadas à preservação do meio
ambiente, ao desenvolvimento sustentável da marca e a
ações socioambientais para comunidades mineiras, pode
ser considerado um marco da aplicação do conceito
de sustentabilidade no setor de transportes no Brasil.
A primeira ação do programa envolveu o plantio de
9 000 mudas de espécies nativas no bairro Cidade de
Deus, na periferia do município de Sete Lagoas (MG).
O próximo passo é desenvolver ações de engajamento
e capacitação dos moradores do bairro, localizado próximo
ao complexo industrial da montadora. O objetivo é
criar iniciativas geradoras de renda para a comunidade.
“Pretendemos ensinar aos moradores trabalhar com a
madeira residual na realização de artesanato de qualidade,
com o auxílio de técnicos e designers envolvidos no
programa, bem como implantar um viveiro de mudas”,
diz Marco Piquini, diretor de comunicação e responsável
pela área de responsabilidade social da Iveco.
Para dar mais consistência ao seu programa, a montadora
criou um comitê de sustentabilidade, que se
reúne uma vez por mês para discutir as ações a serem
desenvolvidas. Um dos focos são projetos para melhorar
o uso dos recursos no processo de fabricação. O caminhão
leve Daily, por exemplo, já é 92% reciclável. Além
disso, 10% da água utilizada nos processos industriais
é reciclada e utilizada na irrigação dos jardins da fábrica.
Os demais 90% são tratados e devolvidos à natureza
com índice de pureza acima do exigido pela legislação
ambiental. O tratamento inclui efluentes sanitários e
até os materiais descartados na cozinha. Hoje, 90% das
quase 500 toneladas de resíduos sólidos (madeira, plástico,
papel, papelão, metal e alumínio) gerados mensalmente
na fábrica são recicláveis. Além de adotar boas
práticas, a Iveco segue os mesmos princípios na hora de
selecionar seus fornecedores. “O principal critério é que
nossos parceiros também pratiquem ações de sustentabilidade
ou que demonstrem interesse em desenvolver
iniciativas de cunho social e ambiental”, diz Piquini.
ALINHAMENTO DE PRÁTICAS Outras
montadoras brasileiras trilham o mesmo caminho. Na
Ford Caminhões, a matriz americana delineou três
áreas-chave em sua política de sustentabilidade: a integração
das questões referentes ao tema em todas as suas
operações no mundo, a inovação tecnológica e o estabelecimento
de diálogos externos e parcerias. De acordo
com a Ford, os resultados dessa política já podem ser
observados na prática. No desenvolvimento de produtos,
por exemplo, existe o comprometimento com a redução
da emissão de poluentes, diante da preocupação
com o aquecimento global. Desde 2000, a Ford obteve
mundialmente uma redução de 27% na energia utilizada
e mais de 25% no uso de água. Na fábrica de São Bernardo
do Campo (SP) houve uma reprogramação dos
parâmetros dos robôs de pintura com o objetivo de minimizar
as emissões atmosféricas e a geração de resíduos.
Os fornecedores também devem estar alinhados com as
práticas de sustentabilidade e meio ambiente da Ford.
Já a Volks Caminhões criou, em 2007, um comitê
de imagem, cuja função é avaliar e propor ações nas
áreas de sustentabilidade e responsabilidade social.
“O comitê conta com a participação de todas as áreas da
empresa. Durante as reuniões mensais, trata não apenas
de propostas recebidas pela empresa, mas também
direciona as ações a serem desenvolvidas”, diz Marco
Saltini, diretor de Assuntos Governamentais da Volks
Caminhões. A matriz alemã definiu critérios de ações
que devem ser seguidos por todo o grupo. A escolha de
fornecedores também está alinhada com a estratégia
global. “Além de verificar a capacitação técnica de cada
um deles, buscamos as empresas mais competitivas e
com solidez financeira”, afirma Luiz Eduardo Alvarez,
gerente executivo de compras. Na área do meio ambiente,
a fábrica da Volks em Resende (RJ) atende às
normas ISO 14000 e ISO TS para tratamento ou destinação
final de 100% dos seus efluentes. Na comunidade
está para ser reiniciado o Programa Ambiental, no
qual alunos de ensino fundamental de Resende e de
cidades vizinhas conhecem os sistemas de prevenção e
tratamento da fábrica. A contratação de portadores de
deficiência foi iniciada há pouco tempo, com a admissão
de deficientes auditivos no módulo de pintura.
PRIMEIROS PASSOS O grupo Itapemirim
ainda não criou um comitê de sustentabilidade, mas
seus executivos afirmam que isso é uma questão de
tempo. “Estamos formando grupos de discussão para
integrar nossas ações sociais, ambientais e econômicas”,
afirma Samuel Stafanato, coordenador de recursos
humanos. O projeto começou com a identificação
de colaboradores com perfil de liderança em áreas estratégicas,
como os departamentos de manutenção,
financeiro, projetos e recursos humanos da matriz da
empresa, em Guarulhos (SP). O grupo vai se reunir
periodicamente para traçar planos.
Enquanto as metas não se transformam em realidade,
a Itapemirim investe em ações pontuais. “Buscamos
desenvolver projetos alinhados aos nossos negócios”, diz
Erica Facca, gerente de projetos da Itapemirim. No âmbito
social, o grupo possui, há dois anos, uma biblioteca
móvel com o objetivo de facilitar o contato de comunidades
de várias partes do Brasil com os livros. O ônibus
adaptado fica em cada cidade por um mês e já percorreu
56 000 quilômetros, em 17 estados, beneficiando
200 000 pessoas. Outro destaque da Itapemirim é a preservação
do meio ambiente. Além do acompanhamento
periódico dos índices de emissão de poluentes da frota
e de campanhas para economizar papel, material, luz
e água, a empresa realiza há três anos uma campanha
educativa para combater o tráfico de animais silvestres.
As iniciativas da Iveco, da Ford, da Volks e da Itapemirim
ainda são incipientes, mas são bons sinais
de que, em um futuro não muito distante, a sustentabilidade
não será mais um conceito estranho para as
empresas do setor de transporte. “Mais do que fiscalização
e multas, criar e consolidar uma cultura voltada
para a sustentabilidade é a chave do sucesso e
rentabilidade de qualquer negócio”, afirma o consultor
Carlos Delpupo, diretor do Instituto Totum, especializado
em sustentabilidade empresarial.
PASSO A PASSO
Um roteiro para se tornar sustentável
1. Consolide o conceito de sustentabilidade
(isso cabe à direção da empresa).
2. Identifique oportunidades de agregação de
valores e mitigação de riscos em relação à
estrutura da empresa e à concorrência, aos clientes
e aos fornecedores.
3. Defina uma linha de atuação, contratando um
profissional, atribuindo a função a algum núcleo
existente ou formando um comitê com membros
de áreas estratégicas.
4. Divulgue os conceitos para o público
interno e externo.
5. Integre as ações sociais e ambientais
já realizadas dentro da realidade de
negócio da empresa. Atue, de maneira integrada
e planejada, dentro da área de trabalho em
que a empresa se destaca.
6. Identifique e implemente os procedimentos
dentro do modelo de gestão da empresa.
7. Organize a estrutura da empresa para obtenção
de certificações como as de segurança de
trabalho (ISO) e socioambientais (SA 8000).