BR-282, em Santa Catarina. No último mês de outubro,
um caminhão bateu de frente com um ônibus de turismo na
altura do km 630, entre as cidades de Chapecó e Descanso.
Enquanto as equipes de resgate atendiam os feridos, um
caminhão desgovernado, carregado de açúcar, atropelou dezenas de pessoas e bateu em nove veículos de socorro.
O motorista do caminhão, que tinha menos de
um ano de habilitação, afirmou que os freios do veículo
falharam fato confirmado posteriormente pela
perícia. O saldo da tragédia: 27 mortos e mais de 80
feridos. Esse foi apenas o acidente recente mais grave
entre vários outros envolvendo caminhões e que não
teriam alcançado tal proporção se fosse adotada uma
medida tão simples quanto essencial no negócio de
transportes: investir na manutenção preventiva. Mas
nem todas as transportadoras dão a devida importância
a esse aspecto. “Existem muitas empresas que têm
uma visão de curto prazo quanto ao investimento em
manutenção de seus equipamentos”, afirma Lucien
Silva Santos, gerente comercial e de marketing da
Randon Veículos. “A pressão dos clientes em relação
ao prazo de entrega, a competição acirrada pelo valor
do frete e a necessidade de o equipamento estar sempre
rodando para aumentar o faturamento são algumas
causas que levam as empresas a não priorizarem
a manutenção de seus equipamentos enquanto eles
estiverem funcionando.”
Apesar da importância da manutenção dos veículos,
não há como negar um fato: transportadoras
não são oficinas. Durante décadas, muitas empresas
do setor realizaram grandes gastos com estruturas e
pessoal para garantir a manutenção dos equipamentos.
Esse panorama vem mudando rapidamente.
Nos últimos anos, empresas dos mais variados portes
aderiram à terceirização do serviço de manutenção,
com o objetivo de baratear os custos sem prejudicar
os veículos. Mas a estratégia de confiar cegamente em oficinas sem vínculo direto com a transportadora
nem sempre funciona bem. Agora, algumas empresas
estão refinando suas estratégias e encontrando
formas de otimizar o serviço de manutenção, sem
perder em qualidade nem em agilidade.
Pioneira na terceirização, a Transportadora Americana
(TA), que tem o nome do município onde está
instalada a sua sede, no interior de São Paulo, não
faz mais diretamente a manutenção de seus veículos
há 15 anos. Antes, a empresa tinha de manter uma
oficina, montada com o suporte técnico da Mercedes-
Benz, que a usava como referência para outros
clientes. Essa estrutura ocupava um espaço de aproximadamente
2 000 metros quadrados e empregava
cerca de 30 pessoas. Hoje, a TA conta apenas com
um pequeno departamento responsável pelo gerenciamento e controle da manutenção da frota. “Nossa
opção pela terceirização se deveu a questões de economia
e, principalmente, para podermos concentrar
o nosso foco no negócio de transporte”, diz Claudio
Seregatti, gerente de manutenção da TA.
O executivo afirma que uma transportadora com
oficina própria fica “condenada” a manter mecânicos,
ferramentas e estoque de peças para cada modelo de
caminhão, mesmo quando todos são da mesma marca.
Segundo Seregatti, a cada novo modelo lançado no
mercado que se integrava à frota, era preciso treinar os
mecânicos para trabalhar especificamente com o novo
veículo. Essa dependência limitava até mesmo a inclusão
à frota de modelos novos de caminhões, às vezes até
bem mais eficientes, para evitar o custo de treinamento
adicional e de estoque de peças hoje a TA tem 361
veículos e 200 semi-reboques, que rodam 1 milhão de
quilômetros por mês. “Ficávamos receosos de adquirir
novos modelos”, diz Seregatti. “Hoje compramos o que
é melhor para o nosso negócio de transporte, porque
quem vai ter de se preocupar com a manutenção é a
empresa que presta esse serviço para nós.”
MONITORAMENTO Assim como a TA, outras
grandes empresas do setor resolveram terceirizar
a manutenção da frota e criar um departamento para
monitorar a qualidade e a agilidade do serviço. É o
caso da Gafor Logística, de São Paulo. “Desde 2001
terceirizamos toda a manutenção dos equipamentos
de transporte”, diz Paulo Roberto Barbosa, gerente
de supply chain do grupo. “Ao fazer isso, passamos
a trabalhar com especialistas, treinados para desenvolver
esse tipo de atividade. Mas todos os planos de
manutenção são acompanhados de perto pelos nossos
técnicos”, afirma Barbosa. A empresa mantém
30 funcionários dedicados a supervisionar o serviço.
As oficinas terceirizadas estão distribuídas pelos
países onde a Gafor atua: Brasil, Argentina e Chile.
São 2 600 equipamentos de transporte, que levam
o mais variado tipo de carga (de madeira a produtos
químicos) e rodam 10 milhões de quilômetros por
mês. Atualmente, a manutenção representa 6% dos
custos totais da empresa.
Outra companhia que criou um departamento
para gerenciar a manutenção feita por terceiros é a São Expedito, de Goiânia. A transportadora possui
70 cavalos-mecânicos e 105 implementos rodoviários,
que rodam, no total, pouco mais de 1 milhão
de quilômetros por mês nos estados de Goiás,
São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro e Bahia. A manutenção
de cavalo, carreta e pneus é terceirizada, mas fica
sob a supervisão de três mecânicos, três auxiliares operacionais
e do coordenador de manutenção da empresa,
responsável pela avaliação do serviço e pelo planejamento
das revisões preventivas. Os mecânicos cuidam
dos reparos simples e emergenciais. “Uma grande vantagem
do serviço terceirizado é que exigimos garantia
pelo trabalho. Hoje, a manutenção equivale a 4,5%
do nosso custo”, diz José Costa Pereira Filho, diretor
operacional e de logística da São Expedito.
ESTOQUE PRÓPRIO Se terceirizar a manutenção
é a tendência entre grandes empresas
e mesmo entre órgãos públicos (leia reportagem
na página 36), monitorar a qualidade do serviço
é fundamental. Em geral, os acordos com as oficinas
externas não incluem o custo de peças elas
são compradas à parte. “Temos um contrato fechado
com uma oficina, mas sem compromisso com
as peças. Prefiro eu mesmo negociar o preço, de
acordo com a quantidade necessária”, afirma Jota
Gouvêia de Matos, supervisor de manutenção da
transportadora Bom Jesus, de Rondonópolis, Mato
Grosso. “Acontece que, nos feriados e fins de
semana, eu não tinha como comprar as peças para
fazer reparos. Por isso, hoje mantemos um pequeno
estoque, só com material de emergência.”
Gouvêia lembra que a região onde seus 107 veículos
rodam é um fator complicador no trabalho de
manutenção. “Cada veículo nosso percorre de 10
000 a 13 000 quilômetros por mês, e na maior parte
das vezes em estradas esburacadas ou mesmo de
terra. Sempre temos seis ou sete carretas paradas na
manutenção”, diz Gouvêia. É uma situação bem diferente
da transportadora Mosca Logística, sediada
em Campinas e que opera somente no estado de São
Paulo, onde roda 140 000 quilômetros por mês, basicamente
em estradas pedagiadas, em bom estado de
conservação. Por isso mesmo, o desgaste da frota fica
dentro da normalidade, sem grandes sustos.
Embora terceirize a parte mais pesada da manutenção,
a Mosca Logística também possui uma
oficina própria e um estoque de peças de pequeno
valor na sua matriz, em Campinas. Uma equipe de
oito pessoas cuida de pequenos reparos, como troca
de pneus, lâmpadas e retentores. O custo total da
manutenção, interna, externa e corretiva, equivale a
3,5% da operação de transporte. O diretor de compras
e manutenção da empresa, Hermínio Mosca
Junior, estima que a oficina tenha ociosidade de 18%
do tempo mensal da operação. A falta de trabalho ali
ocorre no início e no final de cada mês, quando os
caminhões estão a plena carga e não podem ficar retidos.
“A manutenção concentra-se no meio do mês,
entre os dias 10 e 20”, diz o diretor.
A Mosca gasta anualmente mais de meio milhão
de reais com a manutenção da sua frota de 90
unidades próprias, sendo 40 motrizes e 50 semireboques.
Segundo Mosca Junior, a empresa intensificou
a manutenção preventiva a partir de 1998,
quando passou a empregar um software de transporte
com um módulo para manutenção de frota.
“Tocamos um negócio em cima de equipamentos
que precisam estar sempre em ordem e prontos
para atender à demanda do cliente”, diz ele.
PREVENÇÃO Um ponto que todos sabem,
mas que vale a pena ressaltar, é que a manutenção
preventiva é sempre melhor do que a corretiva.
“A manutenção corretiva é como uma caixinha de
surpresas. Nunca se sabe o que vai ser preciso fazer e quanto tempo isso vai demorar”, diz Mosca Junior.
Já a manutenção preventiva ajuda a diminuir
o índice de paradas não programadas, a manter os
veículos rodando por muito mais tempo ao longo
do mês e a prolongar a vida útil e o valor de revenda
da frota de caminhões pesados. A TA, por exemplo,
estima que a manutenção preventiva reduza
em mais de 50% as paradas não previstas de seus
veículos. O problema, no caso de quem não terceiriza
o trabalho, é que ter uma equipe de manutenção
permanente sai caro. Para o superintendente
técnico da Associação Nacional do Transporte de
Cargas e Logística (NTC), Neuto Gonçalves dos
Reis, a manutenção preventiva, quando feita internamente,
tende a ser onerosa, pois a transportadora
precisa assumir os custos fixos com esse serviço
técnico. “Primeiro, a relação pessoa por veículo é
de um para três, por se tratar de caminhões pesados
e complexos. Segundo, a empresa tem de arcar com
salários e encargos sociais de toda a equipe, além de
precisar manter em estoque o equivalente a 1% do
valor do veículo completo”, diz Reis. Se os veículos
rodarem pouco, vão contribuir para pesar muito
mais no custo por quilômetro rodado. “Se a oficina
interna ficar ociosa, os custos que a transportadora
tiver com a manutenção própria permanecem os
mesmos”, diz Reis.
De acordo com Santos, da Randon Veículos, as
regiões mais críticas quanto à aplicação da manutenção
preventiva nos equipamentos são o Norte
e o Nordeste do país. E os autônomos pecam mais
nesse quesito. “A competitividade acirrada e o baixo valor dos fretes acabam pressionando mais ainda os
autônomos, em função de sua pequena estrutura,
reduzindo a rentabilidade do seu negócio. Muitas
vezes eles deixam de realizar a manutenção preventiva
almejando reduzir suas despesas no curto
prazo em função do seu fluxo de caixa e do seu
endividamento.” Ainda assim, segundo Santos, as
peças que os autônomos economizam não são, em
geral, as diretamente ligadas à segurança do equipamento
o freio e a suspensão, por exemplo, costumam
ser mantidos com a qualidade mínima para
rodar com segurança. Por isso, os acidentes mais
graves, como o citado no início desta reportagem,
felizmente, não são casos rotineiros.
Santos também afirma que, entre as próprias empresas,
as que atendem alguns setores específicos
precisam redobrar os cuidados com a manutenção.
É o caso do transporte de combustíveis e produtos
químicos, além das companhias que trabalham com
as montadoras de veículos. “As empresas de transporte
que atuam nesses segmentos mais exigentes
possuem maior controle da manutenção, maior estrutura
de apoio particular ou terceirizada, seguem
as orientações dos fabricantes dos veículos e implementos
e investem em treinamento de motoristas
e mecânicos”, diz Santos.
TREINAMENTO O treinamento de motoristas
é considerado parte essencial desse processo.
A TA, por exemplo, fornece um curso de condução
econômica de veículo, que aborda itens básicos como
checagem da pressão dos pneus, óleo, refrigeração,
utilização de freio-motor para poupar o conjunto
de freios, troca de marcha no tempo certo, entre
outros aspectos. “O motorista tem de ser nosso parceiro
nesse processo”, diz Jota Gouvêia, da transportadora
Bom Jesus. “Além de poder aumentar a vida
útil do veículo com técnicas simples de direção defensiva,
ele acompanha o caminhão no dia-a-dia,
sabe muito bem quais são as necessidades dele. Fazemos
um grande esforço para convencê-lo de que
não adianta omitir um pequeno problema para não
encostar o carro. É melhor prevenir e ficar um dia
parado do que parar no meio do caminho.”
REDE DE SEGURANÇA
Manutenção diretamente com a montadora
Com freqüência, empresas que atuam em regiões
fora dos grandes centros enfrentam o problema
de ter de procurar uma oficina mecânica muito longe
da matriz. Em geral, o serviço acaba ficando mais
caro e menos confiável. Nos últimos anos, várias
montadoras, como Mercedes-Benz, Iveco e
Volkswagen, passaram a oferecer uma
alternativa mais segura os contratos fechados
de manutenção. Funciona da seguinte forma:
as transportadoras pagam uma mensalidade,
calculada de acordo com o tamanho da frota,
o tipo de carga e a quilometragem percorrida por
mês, e a montadora garante atendimento imediato
em qualquer concessionária da rede, em todos
os pontos de atendimento do país. Além disso,
o contrato ainda dá direito a todos os serviços de
manutenção preventiva. “Rodamos em Goiás, São Paulo,
Paraná, Rio de Janeiro e Bahia. Já na compra do veículo,
fechamos um contrato de manutenção por dois anos
que nos assegura um bom atendimento em qualquer
estado”, afirma José Costa Filho, diretor operacional
e de logística da Transportes São Expedito, de Goiânia.
QUANTO PESA A MANUTENÇÃO
Custo mensal nos veículos de carga*
| VEÍCULO/APLICAÇÃO |
SCANIA
R 124
4x2 + SR (três eixos)
Rodoviário |
MERCEDES-BENZ
1620
(trucado)
Rodoviário |
MERCEDES-BENZ
710
(dois eixos)
Urbano |
CUSTO FIXO
(depreciação, remuneração
do capital, seguros, IPVA, licenciamento, salários e encargos de motorista e ajudante) |
R$
14 177 |
R$
8 519 |
R$
7 642 |
CUSTO VARIÁVEL
(combustível, pneus, peças, lavagem,
manutenção etc.) |
R$
10 253 |
R$
6 979 |
R$
4 861 |
| MANUTENÇÃO
TERCEIRIZADA |
R$
1 642 |
R$
1 514 |
R$
1 291 |
| PARTICIPAÇÃO
DA MANUTENÇÃO NO CUSTO MENSAL |
6,7% |
9,8% |
10,3% |
* Veículos novos ou usados de até 90 meses que rodam 10 000 quilômetros por mês | Fonte: NT C&Logística
MODELO DIFERENTE
Empresas de ônibus mantêm oficina própria
Enquanto as empresas de transporte de carga
migram para a terceirização do serviço de
manutenção, a tendência entre as que transportam
passageiros é de manter oficinas próprias.
A Cometa, por exemplo, emprega 313 funcionários
somente no departamento de manutenção cerca
de 10% do seu quadro de pessoal. Com exceção de
alguns serviços especializados, todo o trabalho
preventivo e corretivo é feito nas instalações
da empresa são 750 veículos, que atuam em
75 cidades nos estados de São Paulo, Minas Gerais,
Rio de Janeiro e Paraná e, somados, rodam cerca
de 6 milhões de quilômetros por mês. Sem contar
os gastos com pessoal, óleo lubrificante e óleo
diesel, a manutenção é responsável, em média,
por 7% dos custos totais da empresa.
O motivo para esse acompanhamento bem
de perto é a necessidade de recolocar o veículo
nas estradas com grande agilidade. Além de
fazer a revisão preventiva dos ônibus a cada
10 000 quilômetros, com calibragem dos pneus
e aperto de peças, a Cometa monitora os veículos
a cada viagem ao final de todos os trechos,
o motorista deve apresentar um relatório
sobre o desempenho do ônibus. Ao completar
90 000 quilômetros rodados, o veículo passa por uma
revisão completa, com lubrificação e troca de peças.