a escassez de motoristas para o transporte rodoviário
de cargas tem tirado o sono de muitos empresários.
Estima-se que entre 10% e 15% da frota nacional
esteja ociosa por falta de caminhoneiros e veículo
parado é sinônimo de prejuízo. “Não se trata apenas
de mão-de-obra qualificada. Não tem gente, principalmente
no Sul e no Sudeste”, afirma Antonio Caetano Pinto, presidente do
Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas do ABC (Setrans)
e do Grupo Grande ABC, de São Bernardo do Campo (SP). Como
a demanda por profissionais do volante é alta, as transportadoras
precisam aprimorar suas políticas de recursos humanos para evitar
que seus melhores motoristas sejam levados pela concorrência.
Benefícios como planos de saúde e seguros de vida são básicos e
não garantem a preferência. É necessário complementar o salário,
promover o crescimento profissional, valorizar a vida e personalizar
relações. “Além de diminuir a rotatividade, essas práticas aumentam
o comprometimento do motorista e trazem melhores resultados”,
diz Gilberto Antônio Fração, diretor de recursos humanos
da Expresso Mercúrio, de Porto Alegre.
Prevendo o déficit de gente competente, a Expresso Mercúrio
criou há dez anos o Programa Dirigir, plano de formação e qualificação
de mão-de-obra para o volante. Os participantes são pinçados
internamente a partir de critérios que valorizam dedicação e esforço
e integram turmas de, no máximo, 15 alunos. Passam por módulos de
técnicas de direção, relações humanas, saúde, geografia, matemática,
informática e outros temas relativos ao trânsito e são acompanhados
por monitores durante quatro meses. Apesar de serem afastados
de suas funções para se dedicar exclusivamente às aulas, os eleitos
da Mercúrio continuam recebendo salário, benefícios e a média
das comissões pagas aos colegas. A iniciativa já qualificou mais de
350 motoristas profissionais. Destes, mais de 90% permanecem no
quadro de funcionários. “O risco de ver alguém formado por nós ir
embora existe. O setor conhece nosso trabalho”, afirma Fração.
Promover qualificação traz resultados tão positivos que quem se
desfez das salas de aula por se cansar de perder gente para a concorrência
voltou atrás. “Tivemos uma escola por dez anos. Há cinco acabamos com o projeto porque viações de ônibus
urbanos levavam nosso pessoal”, diz Caetano Pinto,
da Grande ABC. Segundo ele, empresas de transporte
de passageiros chegam a oferecer duas vezes
mais o salário pago por transportadoras. A carência
de motoristas aptos a operar com uma frota moderna
e comprometidos com o negócio, no entanto, deverá
ressuscitar o curso ainda neste semestre. “Ou
assumimos o risco, ou ficará difícil colocar todos os
nossos caminhões para rodar”, diz o executivo. Ele
estima que 12% de seus veículos estejam parados
por falta de condutor.
MAIS DINHEIRO NO BOLSO Outra arma
poderosa para reter os melhores talentos é a promessa
de mais dinheiro no bolso no fim do mês. “Procuramos
pagar 10% acima da média do mercado”, diz Fração,
da Mercúrio, que inclui comissões no contracheque.
A transportadora determina, por exemplo, uma média
de economia de óleo diesel. “Se o motorista economizar
combustível acima do estipulado, recebe 50% do valor
correspondente. Com isso, seu salário pode ter um
acréscimo de até 25%”, diz o diretor de RH. Além disso,
se durante o mês não forem registrados atrasos ou incidentes
na entrega, batidas no caminhão nem multas,
o motorista ganha mais 10% da comissão anterior.
Na Grande ABC, a medida que apresenta melhores
resultados para a retenção de motoristas é o incentivo
à compra de veículos usados. O funcionário
com cinco anos de casa e nenhuma ocorrência grave
em seu nome tem direito a escolher um caminhão da
frota da empresa. Segundo Caetano Pinto, o veículo
é vendido em condições facilitadas, e o motorista fica
com a opção de prestar serviço terceirizado. “Tem
gente que já comprou oito caminhões e ainda trabalha
conosco. Foi a maneira que encontramos para segurar
os melhores caminhoneiros”, diz o empresário.
Em várias transportadoras, a jornada de trabalho
excessiva é a queixa mais comum entre os motoristas.
Fração revela ter buscado inspiração no plano de viagem
adotado por empresas de ônibus para reformular
o sistema da Mercúrio, há 15 anos. “Até então, o motorista
pegava a estrada e passava até duas semanas longe
de casa”, diz o executivo. Hoje ele sabe quando voltará,
tem linhas, rotas, horários definidos. “Quem passa mais
tempo fora fica três dias, não mais do que isso. Geralmente
é só uma noite, o que é bom para eles, para as
famílias e para a empresa.” O caminhoneiro cumpre
seu percurso até um ponto de apoio, desce e entrega
o volante a um colega, que complementa a viagem.
O funcionário descansa e aguarda a escala para voltar
para casa. “Nossos funcionários não trabalham mais do
que oito, nove horas por dia”, afirma Fração. Nos pontos
de apoio da empresa, há alojamentos com ar-condicionado,
refeitórios, sala com jogos e, em alguns lugares,
até salas de ginástica, com esteiras e bicicletas. “Investimos
nisso porque dá retorno”, diz Fração.
Além de disputar profissionais com outras transportadoras,
as empresas do setor enfrentam a cobiça
de viações e redes de móveis e eletrodomésticos com
frota própria, todas preparadas para dar o bote no
pessoal treinado. As empresas de ônibus reconhecem a necessidade de manter baixo o índice de rotatividade
de motoristas treinados, por lidar com uma
“carga” preciosa: a vida humana. Na Viação Itapemirim,
um dos pontos fortes é o programa anual de aperfeiçoamento,
que atinge 100% dos motoristas. “Eles
passam por uma completa reciclagem e são atualizados
sobre legislação, normas e outros assuntos pertinentes
ao seu trabalho”, diz Samuel Nunes Stafanato, coordenador
de RH. Orientação nutricional, academias de
ginástica em pontos de apoio a cada 300 quilômetros,
higiene do sono e alojamentos confortáveis ajudam a
garantir a satisfação e a fidelidade de seus 2 000 motoristas.
Evitar o entra-e-sai de pessoal diminui despesas
com novas admissões e treinamentos. “Sem falar no
benefício imensurável que é contar com funcionário
com mais tempo de casa, sabendo todos os processos
internos”, diz Stafanato.
Na Viação Águia Branca, a rotatividade de motoristas
não ultrapassa 1%, apesar do assédio da concorrência.
O baixo índice é atribuído ao bom relacionamento
interno. “Nossos motoristas são vistos, sobretudo, como
seres humanos”, diz Mauro Melo, diretor regional da
empresa capixaba. Para ele, os trunfos da Águia Branca
são os programas de capacitação e iniciativas como a
oferta de passagens gratuitas para funcionário e acompanhante
nos períodos de férias, prêmios por produtividade,
clube social e recreativo, excelentes dormitórios
e refeitórios, cooperativa de crédito e programas
de medicina do trabalho, do sono e de valorização da
vida. “São benefícios que fazem com que nossos motoristas
prefiram trabalhar conosco”, afirma Melo.
DISPUTA ACIRRADA
Nos Estados Unidos, escassez de profissionais
A carência de motoristas não é exclusividade do
Brasil. Nos Estados Unidos, o déficit de profissionais
no setor de transporte rodoviário de carga gira em
torno de 20 000 trabalhadores, número que parece
maior por causa do alto índice de rotatividade
acima de 120% ao ano. A previsão é que,
até 2014, faltem 111 000 profissionais. Assim,
garantir a preferência do trabalhador virou
prioridade. “Numa empresa em Chicago, vi
cabines gigantes. Os veículos tinham cozinha
completa, beliches, televisão e todo conforto,
como se fossem casas. É uma coisa que a
legislação de lá permite”, diz Gilberto Fração,
da Expresso Mercúrio. Os empresários
americanos investem cada vez mais nos modelos
que os motoristas preferem. Caso contrário,
correm o risco de perder a mão-de-obra para
concorrentes. No Brasil, ainda não chegamos
a tanto. “Por aqui, o que não pode faltar é
o ar-condicionado”, diz Fração.
Para superar a escassez de motoristas,
as transportadoras americanas estão tentando
atrair mais mulheres para a atividade.
Atualmente, elas representam 5% dos
motoristas de caminhões naquele país, sendo
11,7% afrodescendentes e 9,7% hispânicas.