Um prato requintado, acompanhado de um toque de criatividade,
tem tudo para agradar à maioria das pessoas, mas, no Brasil,
o que prevalece no dia-a-dia é o bom e velho arroz com feijão.
Quando o assunto é caminhões e ônibus, a situação é parecida.
A preferência do brasileiro tem sido sempre pelo mais simples,
pois o consumidor aqui tende a ver primeiro os custos e,
só depois, os benefícios. O interior de um caminhão, por
exemplo, deve oferecer o mínimo de conforto, sim, mas a
prioridade é que seja prático e lavável. “Em nosso centro
de desenvolvimento, buscamos sempre o produto mais adequado
ao que o mercado brasileiro procura, que é uma padronagem
em tons alegres, porém com discrição e sobriedade, além
do principal, que é a praticidade”, diz Renato Mastrobuono,
diretor de desenvolvimento de produtos da Iveco. “Não adianta
oferecer produtos sofisticados. Em se tratando de caminhão,
o brasileiro prefere a praticidade a qualquer outro fator”,
afirma o executivo.
Um dado que revela bem a cultura brasileira em
relação aos caminhões é a idade média da frota em
circulação, atualmente de 18 a 20 anos ou seja, usase
o veículo até não poder mais. Pelos dados da indústria,
o mercado não está à procura de novidades nem
prioriza recursos que melhorem a vida a bordo ou que
facilitem a vida do motorista. Um bom exemplo disso
é a transmissão. Nos Estados Unidos e em vários
países da Europa, o câmbio automático faz parte do
leque rotineiro de opções e representa uma boa fatia
do mercado, tanto para caminhões quanto para ônibus.
Já no Brasil, as vendas desse tipo de transmissão
ainda são insignificantes. A explicação para isso está
no custo envolvido, que, num primeiro momento no
ato da compra , é visto aqui como gasto, e não como
investimento. Apenas os ônibus, em sua maioria para
o uso urbano, é que aceitam mais esse equipamento
em razão do conforto proporcionado aos passageiros.
Para Uilson Campana, gerente de vendas da
Ford Caminhões, o câmbio automático tem um
custo elevado em um primeiro momento, mas se
paga com o tempo. “Se você oferecesse esse equipamento
sem nenhum custo a mais, todo mundo no
Brasil ia querer. Então, não se trata de uma cultura
enraizada, mas sim do custo envolvido”, diz Campana.
“O brasileiro é imediatista, quer ver a relação
custo/benefício no curto prazo. Se tivesse uma visão
diferente, olharia para o mais rentável e consideraria
o automático como uma excelente opção.”
Como o brasileiro parece não se entusiasmar com
o câmbio automático, as montadoras apostam no
câmbio automatizado, que tem um custo menor do
que o automático e proporciona mais economia em
relação à versão mecânica. O câmbio automatizado
eletronicamente é um câmbio de engates manuais,
mas com gerenciamento eletrônico, o que contribui
para a economia de combustível. “O câmbio automatizado
vai ser a grande vedete nos próximos anos. Ele
já emplacou nos Estados Unidos, onde representa
mais de 40 % do mercado, e na Europa, onde detém
mais de 80%”, diz Mastrobuono.
Para Eustáquio Sirolli, gerente de marketing de
caminhão da DaimlerChrysler, o câmbio automático
ainda não se tornou uma preferência nacional no
Brasil por causa do custo do reparo. Segundo ele,
a preferência do brasileiro é sempre pelo mais simples,
para gastar menos. “O que difere um pouco é
nos modelos mais pesados, em que o cliente vai percorrer
distâncias maiores e, assim, precisar de mais
conforto na cabine”, diz Sirolli.
Embora o comprador brasileiro, em geral, não se
mostre disposto a pagar mais por sofisticação, isso não
significa que estejamos tecnologicamente atrasados em
relação aos outros países. Para Mauro Simões, gerente
executivo da engenharia avançada da Volkswagen Caminhões,
a tecnologia utilizada na fabricação de ônibus e
caminhões no Brasil é equivalente à utilizada por outros
fabricantes na Europa. “Porém, o consumidor europeu
se dispõe a pagar para ter novas tecnologias, como o
ABS e o airbag, além de modernos recursos que a eletrônica
embarcada permite atualmente”, diz Simões.
SAEM OS BICUDINHOS Se por um lado
o consumidor brasileiro prefere declaradamente o
mais simples, por outro a indústria não pode parar no
tempo. Uma das preocupações das montadoras é pesquisar
materiais mais resistentes e, ao mesmo tempo,
mais leves, com o objetivo de aumentar a capacidade
de carga. Essa busca provocou nos últimos anos uma
grande mudança no design de caminhão preferido
do brasileiro. As cabines aqui sempre tiveram o perfil
“bicudinho”, com o motor estendido à frente do caminhão.
Essa cabine foi a preferência nacional durante
vários anos, em boa parte porque os motoristas
julgavam que, em caso de acidente frontal, o “bico”
ajudaria a amortecer o impacto sobre o condutor. No
entanto, a cabine projetada para frente foi perdendo
espaço nos últimos anos para os veículos com cabines
mais curtas, conhecidos como “cara chata”, que permitem
ao transportador utilizar um implemento mais
longo, com o conseqüente aumento da capacidade de
carga. Várias montadoras, como a Scania e a Volvo,
aposentaram suas versões com cabine avançada. “Essa
mudança se deu em razão do custo. Ninguém mais
procurou a cabine desse tipo, pois tanto as empresas
quanto os autônomos precisam carregar o maior volume
possível em uma única viagem”, diz Sirolli.
Outra mudança ocorrida no mercado brasileiro
nos últimos anos é que houve um sensível fortalecimento
dos caminhões semipesados e pesados, em
contraste com o cenário dos anos 80, quando predominavam
caminhões leves e médios, atualmente
uma necessidade urbana apenas. As cabines dos
modelos mais pesados são obrigatoriamente do tipo
leito ou estendida, uma vez que o veículo se destina
a viagens de média e longa distâncias. “Esse já é um
gosto do mercado brasileiro. Talvez a necessidade fez
assim, mas o certo é que, nessa classe de caminhões,
são essas as cabines preferidas”, diz Sirolli.
ITENS DE CONFORTO Apesar de sempre
procurar tirar o caminhão ou ônibus da revenda pelo
menor custo possível, o que exige abrir mão de diversos
itens de comodidade e conforto, alguns pequenos
detalhes costumam agradar ao comprador brasileiro,
como o quebra-sol lateral, o console do teto para cabines
altas e a cortina nas versões leito e estendidas.
Ao pensar na comodidade do motorista e, ao mesmo
tempo, no menor custo dessas regalias, as montadoras
contribuíram para que o refrigerador elétrico
de bordo e também o umidificador de cabine, mais
conhecido por climatizador mais barato do que o
ar-condicionado , virassem preferências nacionais.
“O conforto é, sem dúvida, uma preocupação das
montadoras, por isso incorporamos esses itens aos
modelos de série na Iveco”, diz Mastrobuono.
Outro item que predomina no mercado brasileiro
são as rodas de aço, mas apenas pelo fato de custar
menos. Com a busca por caminhões mais leves, elas
devem ser substituídas pelas versões de alumínio,
cuja vantagem é a redução de até 30 quilos por roda,
o que pode ser revertido no aumento do volume de
carga. Na suspensão, o velho feixe de mola ainda é o
preferido do brasileiro. Alguns cavalos-mecânicos já
possuem versões sofisticadas, com bolsas pneumáticas
e amortecedores de dupla ação, além da barra
Panhard, que proporciona maior conforto.
Pelo visto, é preciso oferecer o moderno, mas sem
tirar o velho de circulação, até que o consumidor se
dê conta na ponta do lápis que algumas novidades
se revertem em beneficio. Com o motor eletrônico
foi assim. Se fosse para o consumidor optar, ele
iria preferir continuar com a versão mecânica, já que
a novidade sempre surge com um custo extra. “Mas
quando o transportador se deu conta de que o motor
eletrônico traria economia de combustível, os olhares
foram se alterando”, diz Campana.
Para o futuro, as montadoras apostam na aceitação
de algumas novidades tecnológicas pelo mercado
brasileiro. “Deveremos ver o surgimento em massa
do freio a disco e também do turbo brake, um dispositivo
que proporciona maior capacidade de
frenagem e segurança operacional em comparação
com o freio convencional”, diz Sirolli. “Esses itens
custam mais, porém o motorista tem noção da diferença
que esses equipamentos fazem na prática.”
Um dos maiores desafios da indústria nos próximos
anos vai ser desenvolver novas plataformas de carga
e oferecer caminhões mais leves, para reduzir o peso
da composição e, assim, permitir o transporte de
mais carga. “Nesse setor, qualquer número é relevante.
Se conseguir obter uma economia de 2%, você
já fica mais competitivo”, diz Sirolli.