Os veículos blindados foram utilizados pela primeira vez
em larga escala durante a Primeira Guerra Mundial. Com o
tempo, a tecnologia deixou de ser exclusividade dos campos
de batalha e passou a fazer parte do cotidiano dos grandes
centros urbanos de países com altos índices de violência
em especial, na África e na América Latina , seja para
proteger carros-fortes, seja para dar segurança a usuários
de automóveis mais endinheirados. Mais recente ainda é o
emprego dessa tecnologia em caminhões. No Brasil, esse mercado
ainda é incipiente, tanto que a maior encomenda já feita
a uma empresa nacional foi de um cliente estrangeiro, o
governo da Nigéria. As poucas blindadoras brasileiras que
atuam nesse segmento se dizem preparadas para ampliar o
atendimento basta haver demanda. O problema é o custo:
o serviço sai de 60 000 a 200 000 reais. O preço varia de
acordo com a área protegida (se apenas a cabine ou a cabine
e o baú), o modelo e o tamanho do caminhão.
A falta de segurança nas rodovias brasileiras, no entanto,
faz da blindagem de caminhões um mercado promissor no país.
Segundo a Associação Nacional de Transporte de Cargas e
Logística (NTC), são registradas mais de 11 000 ocorrências
de roubo de carga por ano no Brasil 80% delas na região
Sudeste. Em 2006, último ano com dados consolidados, elas
causaram um prejuízo de 710 milhões de reais.
A TecnoBlindagem, uma empresa de Cotia, na região metropolitana
de São Paulo, afirma ter sido a pioneira nacional em blindagem
de cabine de caminhão, cinco anos atrás. “Até então ninguém
havia feito isso”, diz o gerente, Demetrius Washington.
Os donos da TecnoBlindagem têm também uma empresa de recuperação
de caminhões e foi por meio dela que recebeu a primeira
encomenda, de uma transportadora. Como nunca havia blindado
um caminhão antes, a TecnoBlindagem resolveu fazer um experimento
com a cabine de um veículo próprio, usado para transporte
de carros. Deu certo e a blindadora pôde, então, aceitar
encomenda: a proteção de outras cinco cabines de caminhão.
O nome do cliente é mantido em sigilo, por compromisso contratual.
Washington informa apenas que era uma transportadora que
trabalhava com variados tipos de carga de alto valor agregado,
como produtos farmacêuticos e eletroeletrônicos.
O principal objetivo da blindagem era proteger o motorista
e garantir que ele pudesse atravessar, sem parar, eventuais
bloqueios montados por assaltantes. Concluída com sucesso
a primeira encomenda, a blindadora entrou em contato com
grandes transportadoras para oferecer o novo serviço, mas
não obteve retorno. “A maior preocupação dos empresários
é que haja um impacto muito grande no preço do frete”, diz
Washington. “De toda forma, estamos prontos para atender
a novas encomendas.”
BLINDAGEM COMPLETA Quando o assunto parecia ter
esfriado, outra blindadora decidiu entrar nesse mercado,
oferecendo a proteção não apenas na cabine, mas também no
baú. Depois de blindar seis cabines de caminhão de duas
distribuidoras brasileiras, a Auto Life, de Cajamar, também
na região metropolitana de São Paulo, realizou a blindagem
completa de um caminhão para a transportadora de valores
TransVip, que atua nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.
Em seguida, fechou um contrato com o governo da Nigéria
para blindar, também inteiros, outros dez caminhões Mercedes-Benz
1620, destinados ao transporte de ouro e diamante no país
africano. A motivação da TransVip foi a necessidade de utilizar
um veículo com capacidade de carga maior que a dos tradicionais
carros-fortes para transportar moedas. “Ficamos satisfeitos
com o resultado, pois alcançamos nosso objetivo: transportar
um volume maior de carga, respeitando a legislação e protegendo
o motorista”, afirma Elton Vieira, superintendente da transportadora.
Por enquanto, esse é o único caminhão blindado da TransVip,
que conta com um total de 80 carros-fortes.
ALTA RESISTÊNCIA Os caminhões do governo nigeriano
foram blindados na categoria 3, um nível acima na escala
de segurança em relação o que costuma ser feito no Brasil,
tanto em carros de passeio quanto em carros-fortes e, agora,
em caminhões. A blindagem de categoria 3 suporta ataques
de fuzis AR-15, AK-47 e FAL algumas dessas armas são de
uso exclusivo do Exército, mas acabam nas mãos de bandidos
também.
As blindagens de caminhão feitas para clientes brasileiros
estão na categoria 3A e podem deter no máximo projéteis
de 44 Magnum e 9 mm Luger. De acordo com Marcelo Souza,
gerente comercial da Auto Life, essa diferença se justifica
porque os assaltos aqui são feitos em geral com armas de
mão, enquanto na Nigéria prevalece o armamento pesado. No
Brasil, a blindagem da categoria 3 precisa de autorização
especial da Divisão de Produtos Controlados do Ministério
do Exército.
Os caminhões blindados da Auto Life foram apresentados
durante o 16º Salão Internacional do Transporte (Fenatran),
realizado em São Paulo em outubro do ano passado. Cada blindagem
custou ao governo nigeriano 45 000 dólares. O Mercedes-Benz
1620, modelo vendido no Brasil, foi escolhido pelo cliente
pelo fato de o fabricante manter uma ampla rede de assistência
técnica na Nigéria.
Segundo Souza, a blindagem pode ser usada como argumento
para a redução do valor do seguro da carga, além de possibilitar
a dispensa da escolta. Por outro lado, segundo o coordenador
técnico da NTC, Neuto Gonçalves dos Reis, a blindagem pesa
tanto no custo fixo (depreciação, licenciamento e o seguro
do próprio caminhão, entre outros) quanto no custo variável
(combustível, manutenção etc.) por quilômetro percorrido.
A blindagem também pode aumentar o peso do caminhão em
1,5 a 3 toneladas, além de reduzir o espaço disponível para
carga em até 30%. Washington, da TecnoBlindagem, reconhece
que o investimento só se paga com o uso do caminhão, já
que é pouco provável que o proprietário do veículo recupere
esse valor numa futura revenda. Ou seja, se ele gastar 80
000 reais para blindar um caminhão, dificilmente vai conseguir
acrescentar esse valor na hora de revender o veículo. “Uma
blindagem pode se desvalorizar até 100% em dois anos, mas
a proteção perdura por tempo indeterminado”, diz Washington.
Além da blindagem, é recomendável que o motorista receba
treinamento em direção defensiva e evasiva.
MUITA MATEMÁTICA Tudo isso pode levar a uma difícil
conta de custo/benefício para as transportadoras interessadas.
Cada caso deve ser estudado detalhadamente, diz Reis, da
NTC. Além das empresas especializadas em valores, transportadoras
de cargas muito visadas são também um público-alvo importante
para as blindadoras de caminhão. Em 2007, segundo pesquisa
publicada pelo Sindicato das Empresas de Transporte de Carga
de São Paulo e Região (Setcesp), os campeões em roubo e
furto no estado foram eletroeletrônicos (18,8%), carga fracionada
(14%), produtos farmacêuticos (10,6%) e alimentícios (10%).
O segmento da blindagem de caminhões paga ou melhor,
cobra caro por ser incipiente, como é comum acontecer
em novos nichos de mercado. O preço da proteção, afirmam
as blindadoras, tende a cair com o aumento da demanda. “Infelizmente,
no momento, a vida do motorista tem ficado em segundo plano”,
diz Washington, da TecnoBlindagem. De acordo com um levantamento
da NTC, 204 motoristas e ajudantes foram mortos em assaltos
a caminhão no Brasil entre os anos de1998 e 2006.
NA PONTA DO LÁPIS
Quanto a blindagem aumenta o custo*
Custos fixos
por mês |
Sem blindagem (R$) |
Com blindagem (R$) |
Diferença
(%) |
| Remuneração
do capital |
2
152,41 |
3
026,97 |
40,6 |
| Salário do motorista |
3
097,13 |
3
097,13 |
0 |
| Reposição
veículo/blindagem |
1
341,61 |
1
991,84 |
48,5 |
| Reposição
da carroceria |
156,06 |
156,06 |
0 |
| Licenciamento |
231,81 |
332,33 |
43,4 |
| Seguro |
1
843,53 |
2
593,19 |
40,7 |
| Crédito de PIS/Cofins |
-309,06 |
-438,55 |
41,9 |
| Subtotal |
8
513,49 |
10
768,98 |
26,5 |