Para qualquer empresa, em qualquer
negócio, é de vital importância enxergar
novas oportunidades em mercados
preferencialmente ainda pouco explorados.
Será cada vez mais raro deparar
com “nichos de lucratividade”. Por
isso, um mercado em desenvolvimento
poderá ser visto como uma verdadeira mina de ouro.
No setor de prestação de serviços em logística e transportes,
isso é ainda mais verdadeiro e decisivo, dado o acirramento
da competição entre as empresas, o processo de
“comoditização” por que passa o mercado, a falta de regulamentação
da atividade desempenhada por transportadoras
e operadores logísticos e o nível de rentabilidade do setor,
reconhecidamente baixo em todo o mundo, seja na América
Latina, seja nos Estados Unidos ou na Europa Ocidental.
Vale lembrar que ainda viveremos momentos mais difíceis
que os atuais, mesmo em um cenário positivo de crescimento
como este que estamos vivenciando. O mercado
ainda passa por um processo de amadurecimento e acomodação,
e ainda há muito por vir. Por isso, as empresas
deverão se apoiar em estratégias seguras e realistas. Podese
dizer que existem três formas diferentes de expandir os
negócios: por meio do crescimento orgânico, de fusões e
aquisições ou da inovação. Qual delas é a melhor opção?
O crescimento orgânico ocorre em ritmo lento, pois
está diretamente relacionado à evolução do PIB, produzindo
apenas resultados incrementais, ao redor de 5%
ao ano no Brasil. Esse caminho é recomendado apenas
em mercados efetivamente amadurecidos. Não é o caso
do Brasil, onde o faturamento oriundo da prestação
de serviços em logística e transporte deverá duplicar em
um horizonte de cinco anos.
As fusões e aquisições de empresas concorrentes ou
complementares passaram a ocorrer com maior freqüência
no Brasil nos últimos anos, mais ainda são pouco representativas
em um universo de 23 500 empresas com mais de cinco
veículos (segundo dados da ANTT, a Agência Nacional
de Transportes Terrestres). Pode ser uma forma de expansão
extremamente positiva, se conduzida da maneira adequada.
Dois exemplos recentes ilustram a adoção dessa estratégia
no Brasil: a aquisição da Transportadora DM pela Gafor Logística
e a compra da Lubiani pela Julio Simões. No plano
internacional, a compra da EGL pela Ceva Logística é outro
excelente exemplo. O sucesso dessa estratégia dependerá
da correta valorização da empresa adquirida (não pagar mais
do que ela efetivamente vale) e de conduzir a transição das
empresas de uma forma transparente e positiva tanto para
os colaboradores quanto para os clientes.
O caminho da inovação
A inovação é a estratégia
mais bem-sucedida de crescimento, devido aos riscos
envolvidos, e pode ocorrer de duas formas: nos serviços
oferecidos ou na atuação em novos mercados.
Novos serviços normalmente envolverão o desenvolvimento
de competências adicionais e a utilização de novas
tecnologias. É uma estratégia facilmente copiada pelos concorrentes.
Um exemplo interessante é o da empresa gaúcha
Pigatto, que aprimorou o conceito de logística “superexpressa”,
ampliando a visão de atendimento emergencial. Outro
exemplo é a Total Express, que reforçou a questão da logística
reversa, até então resumida como devolução de materiais
ou retorno de embalagens. E o que dizer sobre a forma como
a Celote abordou o tema da logística no setor têxtil? Tal
diferenciação permitiu a essas empresas se posicionar de
forma destacada no mercado, ainda que por um tempo limitado,
e possivelmente proporcionou-lhes uma rentabilidade
melhor com os serviços prestados.
A “descoberta” de novos mercados pode ser muito mais
interessante, pois, dependendo da sua complexidade, poderão
existir barreiras que dificilmente serão superadas
pelas empresas concorrentes no curto ou médio prazo. Um
bom exemplo de mercado ainda a ser descoberto é o da logística
de resíduos ambientais e a gestão de aterros sanitários.
Muitos resumem isso à simples coleta de lixo; outros
enxergam uma excelente oportunidade para desenvolver
e implantar uma solução integrada de administração de
passivos ambientais, aproveitando a “onda verde”, a pressão
decorrente da legislação e os recentes desdobramentos
provocados pelo efeito estufa.
Outro exemplo interessante é o da logística para restaurantes
industriais, já realizada por empresas como Grupo
Luft (antiga divisão FBD) e Servilog (atual Expresso
Limeira). Trata-se de uma operação tão complexa como
a realizada no segmento automotivo, dada a exaustiva aplicação
do conceito de just-in-time (JIT) no atendimento de
produtos perecíveis (laticínios, carnes, frutas, legumes,
verduras etc.), já que pouquíssimos restaurantes dispõem
de infra-estrutura mínima adequada para a estocagem de
produtos resfriados e congelados.
Vale destacar também a logística para o atendimento
de presídios (mais de 400 000 presos no Brasil), escolas,
faculdades (quase 5 milhões de estudantes em cerca de
2 200 faculdades), shopping centers (mais de 600 no país,
movimentando mais de 60 bilhões de reais por ano), cinemas,
parques de diversões, hotéis etc.
Oportunidades não faltam
O setor de serviços,
cada vez mais representativo no PIB brasileiro, embora
tenha uma logística complexa na grande maioria dos casos,
dispõe de poucas soluções técnicas realmente adequadas.
Por isso, não faltam oportunidades nesse mercado.
Os empresários e executivos do setor de prestação de serviços
em logística e transportes precisam enxergar além dos
tradicionais segmentos industriais, já exaustivamente explorados,
como o automotivo, químico, farmacêutico, alimentício,
alta tecnologia, papel e celulose e minérios, entre outros.
É importante também enxergar além dos tradicionais
serviços de transporte e armazéns, permitindo que a logística
estenda os seus “tentáculos” em direção a serviços de maior
valor agregado, relacionados à gestão de pedidos, administração
de estoques e logística reversa. Em pouco tempo a sua
empresa estará inserida num outro contexto, infinitamente
mais amplo, que corresponde ao supply chain ou a cadeia de
abastecimento, que envolve fornecedores primários e secundários,
o seu cliente, e os clientes do seu cliente.
Nesse mercado, caminhamos para um novo cenário, cada
vez menos atrelado a ativos operacionais e mais dependente de
pessoas. Nunca deixaremos de lidar com ativos, mas cada vez
mais dependeremos do capital humano. E nesse novo ambiente,
mais qualitativo, nenhuma estratégia terá efeito positivo
se não estiver apoiada na capacidade técnica das pessoas.
A sobrevivência, o crescimento e a perpetuação das empresas
de transportes e logística dependerão de seus talentos. Quem
não se conscientizar disso morrerá abraçado aos esqueletos
de seus caminhões, reboques e semi-reboques!
Marco Antonio Oliveira Neves é diretor da TigerLog Consultoria,
Hunting e Treinamento em Logística