ponto de vista
O inimigo “invisível”
Concentrar as atividades aumenta os custos do transportador em até 40%

Além dos tradicionais problemas relacionados a competição predatória, falta de regulamentação do setor, roubo de cargas, más condições das estradas, excessiva carga tributária, inexistência de uma política de renovação de frota e dificuldades no acesso a linhas de financiamento, as transportadoras ainda enfrentam um grande desafio “oculto” e “silencioso”: o efeito da sazonalidade das vendas. Em alguns setores, como os de alimentos, cosméticos, higiene e limpeza e eletroeletrônicos, essa característica pode fazer com que mais de 60% do transporte de cargas se concentre na última semana do mês.

Não importa se isso decorre de fatores culturais ou econômicos. O fato é que a concentração das atividades no final do mês aumenta os custos operacionais em 30% a 40% para as transportadoras, que, por sua vez, não têm como repassar essa diferença para os clientes. Já penalizadas pelo descaso das autoridades públicas, as transportadoras ainda precisam superar as agruras e os efeitos resultantes de uma má gestão das vendas.

Esse problema é ainda mais crítico para empresas que atuam no transporte de cargas fracionadas, que, freqüentemente, enfrentam enormes dificuldades para compatibilizar cargas com diferentes necessidades. Muitas vezes impossibilitadas de atender aos volumes excedentes com frota própria, as transportadoras são forçadas a buscar alternativas no mercado de autônomos, que, por sua vez, aproveitam o momento propício e aumentam as tarifas de frete em até 30%. Mesmo a um custo bastante superior, não existe a garantia da execução dos serviços na qualidade comprometida com os clientes, levando a transportadora a sofrer penalidades financeiras decorrentes de atrasos nas entregas.

Além disso, a realização de uma operação muito acima da capacidade instalada gera maior nível de avarias nas cargas e perdas ou inversões de mercadorias, causando grandes transtornos aos clientes e também aos clientes destes. No final, a transportadora será mais uma vez responsabilizada financeiramente pelos problemas causados.

Em alguns casos, os clientes ainda exigem em contrato que suas transportadoras disponibilizem um percentual mínimo de frota própria para atender aos “picos” do final de mês, levando alguns “inocentes” empresários do setor de transportes a investir em frota adicional. Outros cobram que os terceiros subcontratados pelas transportadoras apresentem veículos em determinadas condições, na maioria das vezes totalmente fora da realidade do mercado brasileiro e incompatíveis com os preços praticados.

Muito provavelmente, a falta de bom senso deverá continuar prevalecendo sobre a inteligência e a lógica. Mesmo sabendo que todos perdem com esse recorrente “vício” do mercado, o cenário deverá mudar muito pouco nos próximos anos. Falamos de integração da cadeia logística, visibilidade, informação on-line, real time, atuação colaborativa etc. Mas, na prática, pouco fazemos para resolver um problema que, a princípio, seria de fácil resolução. Até quando as transportadoras suportarão essa situação degradante?

Se por um lado os embarcadores se “armam” de cláusulas contratuais ou exigências diversas, as transportadoras pouco têm a fazer. O ideal seria que elas tivessem tarifas diferenciadas para os “picos” do final de mês; quem sabe, cobrando de 20% a 50% mais do que os preços normais. Mais do que justo, seria a contrapartida natural para compensar os riscos a que estão expostas, os sobrecustos e os investimentos necessários na ampliação da capacidade de transporte.

Se isso é possível... Bem, já é uma outra história!

Marco Antonio Oliveira Neves é diretor da TigerLog Consultoria, Hunting e Treinamento em Logística

   
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