Até que as cobranças os separem
O casamento entre pilotos e equipes de F-1 é eterno enquanto aparecerem os resultados
Por Luciano Burti
Poucos relacionamentos são tão tensos quanto aqueles entre pilotos de F-1 e suas equipes. Quanto tudo corre bem, o clima é de permanente lua-de-mel. Mas, quando começa a cobrança, não raro o casamento acaba de forma pouco amistosa.
O caso mais recente é a demissão do campeão de 1997, Jacques Villeneuve. O canadense já não agradava a equipe Sauber desde o ano passado, quando foi constantemente superado por Felipe Massa. Ao fim da temporada, a equipe foi comprada pela BMW e Villeneuve ficou no time. Sua permanência foi mais uma questão de conveniência. Com contrato já assinado para 2006, sua dispensa custaria muito caro. Ainda assim, depois de um fraco desempenho ao longo desta temporada, a paciência da equipe alemã atingiu a faixa vermelha. Em casa, no GP da Alemanha, os principais chefes e convidados da montadora assistiram ao ex-campeão do mundo abandonar a prova após cometer um erro e bater contra a barreira de pneus. No dia seguinte, Villeneuve recebeu a informação de que não correria no GP da Hungria. Para disfarçar o desentendimento, inventaram que ele estava com fortes dores de cabeça em conseqüência do acidente. Foi substituído pelo piloto de testes, o polonês Robert Kubica, que com seu ótimo desempenho apressou o divórcio da montadora alemã com Villeneuve.
Outra separação recente foi entre Montoya e McLaren. O colombiano entrou na F-1, pela Williams, em 2001, como promessa de futuro campeão. No fim de 2004 assinou com a McLaren um contrato de duas temporadas, mas, devido ao desempenho abaixo do esperado, a paixão entre ele e a equipe foi enfraquecendo. Quando Montoya soube que a equipe inglesa não tinha interesse em mantê-lo em 2007, ele correu atrás de um novo parceiro nos Estados Unidos, onde sua reputação é forte graças à conquista do título de Fórmula Cart em 1999 e das 500 Milhas de Indianápolis em 2000. Ligou para seu ''ex'', Chip Ganassi, e assinou um contrato para correr na Nascar no ano que vem. Mesmo assim, deveria cumprir o acordo com a McLaren até o fim desta temporada, mas Ron Dennis, sentindo-se traído pelo colombiano por anunciar a separação antes do combinado, colocou o piloto para fora de casa já no GP da Alemanha.
Essas brigas fazem parte da F-1. Eu mesmo tive essa experiência, quando assinei o contrato com a Jaguar no fim de 2000. Minha negociação havia sido com o americano Neil Ressler, executivo da Ford e chefe da equipe na ocasião. Infelizmente, dois meses após o acordo, ele decidiu se aposentar e voltar para casa. A Ford, sob pressão por estar em cima da hora, contratou Bobby Rahal para assumir o comando da equipe, mas, assim que o ex-piloto de F-Indy chegou à sede da equipe, decidiu demitir várias pessoas. O motivo nunca foi explicado, mas parecia só uma maneira de mostrar força e de dar satisfação à Ford de que algo estava sendo feito para levar a Jaguar ao topo do pódio. Demitiu Tomas Scheckter (piloto de testes), John Russell (projetista), Rob Armstrong (administrador) e muitos outros. Quando percebi a intenção do novo patrão, negociei uma transferência para a Prost, antes que entrasse na lista de divorciados. Porém, Rahal mexeu, mudou, gastou muito dinheiro e a Jaguar continuou andando lá atrás. Por fim, ele mesmo foi demitido.
A galeria dos separados não é pequena. E os grandes vencedores dessas disputas ''matrimoniais'' provavelmente nunca puseram os pés numa pista ou as mãos no volante: são os advogados, que conduzem com garra os casos de seus clientes, pilotos ou equipes.