Mulher ao volante
Teriam os homens mais facilidade para dirigir que o sexo feminino?
Por Bob Sharp
Depois que a francesa Mariette Hélène Delange, a "Hellé-Nice", correu no Brasil em 1936, no Rio e em São Paulo, sua compatriota Michèle Mouton andou brilhando com seu Audi Quattro nos ralis mundo afora (e até numa etapa do Mundial aqui, em 1981), e a americana Danica Patrick tem assombrado a todos na Fórmula Indy (IRL), qualquer discussão sobre quem dirige melhor, o homem ou a mulher, ficou para trás. A pá de cal sobre o assunto é jogada quando se analisam as atuações em pista da gaúcha Cristina Rosito e, ultimamente, da paulista Fernanda Parra, entre outras mulheres que correm de automóvel e se destacam.
Não vêm ao caso estatísticas nem o fato de estudiosos do assunto afirmarem que a mulher é mais cuidadosa, por isso bate menos, que seguro para carro dirigido por mulher custa menos etc. Quando o motorista resolve aprontar, tanto pode ser ele como ela. Há pouco li estudo de uma seguradora, realizado no ano passado, que diz, entre outros dados, que as mulheres se envolvem menos em acidentes de trânsito, assim como as de 24 anos batem 21% menos do que homens de mesma idade, e com danos 14% menores. Tudo isso, no entanto , de pouco serve quando se procura analisar a questão do ponto de vista da habilidade de dirigir em si.
Dirigir bem tem mais a ver com a consciência de que é preciso aprender, receber treinamento (que leva à habilidade), ter cuidado e respeito à máquina e às regras de trânsito. O que nos primeiros 20 ou 30 anos do automóvel poderia justificar maior aptidão masculina, por questão da necessidade de maior força física para dirigir, há muito desapareceu por completo. Os carros atuais não requerem esforço que uma mulher não possa despender.
Hoje temos mulheres comandando jatos comerciais - piloto e co-piloto - e recentemente uma jovem, a cadete da Força Aérea Brasileira Fernanda Görtz, realizou seu primeiro vôo solo, fato inédito na história da corporação. Houve mulheres aviadoras brilhantes, como a brasileira Anésia Pinheiro Machado (1904-1999) e a americana Amelia Erhart (1897-1937), ambas verdadeiros expoentes no mundo da aviação.
Nós, homens, precisamos entender que as mulheres possuem as mesmas condições físicas e psicológicas para dirigir que as nossas - e que podem errar como nós erramos. Parar em fila dupla para buscar o filho na escola, por exemplo, é uma infração que qualquer um pode cometer. Porém, é mais comum ver a mulher envolvida nessa situação, por geralmente ser ela quem busca os filhos. Ou ficar olhando vitrines, o carro lento perturbando o trânsito, algo geralmente classificado como "coisa de mulher" por puro preconceito; os homens fazem o mesmo, pois também são sujeitos a dispersão.
Outro dia recebi um desses e-mails que dão a volta ao mundo em minutos mostrando dez fotos de "artes" ao volante. Todas protagonizadas por mulheres, como se fosse coisa delas somente. Nada mais absurdo e injusto. Há uma história bem antiga, do final dos anos 50, em que uma motorista reclamava que seu Fusca falhava e consumia muito combustível. Após várias idas à concessionária e nada sendo encontrado de errado, o chefe da oficina pediu para darem uma volta de teste juntos. Foi quando ele viu, atônito, a mulher puxar o botão do afogador para pendurar a bolsa... Essa história rodou o mundo, cada país, cada cidade, atribuindo-se lá ter acontecido...
O "portão das velhas" - Guardo na memória uma experiência que vivi lá pelos 11 ou 12 anos de idade. A família carioca - pai, mãe, irmão mais velho e eu - ia habitualmente a Teresópolis nos fins de semana. Papai sempre foi de andar muito rápido, mas dirigia muito bem. Não se arriscava e nunca punha a família em perigo - foi meu melhor professor nisso. Numa dessas viagens, ele tocava o nosso Oldsmobile 88 1950, quando um Lincoln cupê 1947 ou 1948 nos alcançou. Chegou e passou de uma vez, mas no momento em que o Lincoln estava emparelhado com nosso carro deu para vermos, surpresos, que os ocupantes do cupê eram duas senhoras de cabelos brancos, aparentando ter bem mais de 60 anos. E o Lincoln desapareceu morro acima.
Adiante, já descendo a serra, vimos, numa curva em U, o Lincoln embicado num majestoso portão, que a acompanhante abria, de uma propriedade cuja casa não se via da estrada. A partir daquele dia o local ficou conhecido para nós como o "portão das velhas" e ao passar por ele, em cada viagem, o fato não tinha como deixar de ser lembrado. Mas o mais importante foi a lição que cedo ficou registrada para sempre na minha mente, de que dirigir bem e rápido não é nossa exclusividade.
O que mais vale é não termos preconceito, muito menos contra a mulher-motorista, porque ele é completamente infundado. Há uma tendência de sermos tolerantes com os erros de homens, mas não com os de mulheres, e isso precisa acabar. Quanto antes, melhor.