
Nenhum carro teve mais impacto na indústria e na cultura mundial que o Ford Modelo T, lançado há 100 anos. Ao popularizar o automóvel a partir de 1914 com a linha de montagem, seu criador Henry Ford incentivou a pavimentação de estradas, o congestionamento das cidades e o modo de produzir carros a partir de então.
Entretanto, por maior que tenha sido o impacto do Ford T, seu projeto era tecnicamente simplório. A concorrência, em especial a Chevrolet, oferecia produtos mais modernos e bem-acabados. A Ford precisava se mexer. A resposta veio em 1928, com o Modelo A.
Ainda que liderasse o mercado americano, as vendas do Ford T vinham caindo. Em 1926, foram 250 000 carros a menos e os estoques estavam cada vez maiores. As vendas da Chevrolet aumentavam exponencialmente, dando início à famosa rixa entre as duas. Se em 1924 a Ford tinha dois terços do mercado, em 1926 caiu para um terço. A dura decisão foi tomada: em 1927, após 15 007 033 unidades, a Ford aposentava o Tin Lizzie (empregada de lata) - apelido americano do nosso Ford "Bigode" - e anunciava o Modelo A.
A dependência da Ford em relação ao T era tal que o substituto não estava pronto. Por seis meses as revendas ficaram sem carros novos, mantendo-se com usados, peças e serviços - às vezes até fechando as portas. Não foi nada fácil convencer o velho Henry de que era preciso se atualizar. Coube ao filho Edsel enfrentar as objeções do pai, como o fim da transmissão planetária operada por pedal - para mudar as marchas no T, usava- se um difícil sistema de pedais, enquanto o Modelo A seguia o mercado, com alavanca no assoalho. Diziase que Edsel era o verdadeiro apaixonado por carros e que Henry só gostava mesmo do T, que julgava perfeito. Após 250 milhões de dólares, um assombro para a época, o Modelo A foi apresentado em dezembro.
A seqüência alfabética para nomes dos carros foi reiniciada para marcar um novo começo da empresa. Havia filas para ver o A - cerca de 10 milhões de pessoas foram visitar as revendas Ford. Se sua tecnologia não era revolucionária, ao menos estava a milhas de distância do T. Usava motor de quatro cilindros de 40 cv, freio nas quatro rodas (o T só freava atrás) e amortecedor hidráulico, além de um inovador pára-brisa laminado. Com o pedal do acelerador, que aposentava a alavanca sob a direção do T, ele ia a 100 km/h, em vez dos antigos 72 km/h. O consumo se mantinha em 8,5 km/l e os preços eram equivalentes.
O desenho era inspirado nos luxuosos Lincoln, o que trouxe toques de sofisticação jamais vistos num T, que era mais alto, curto e estreito. No início, tinha seis opções carroceria, variando entre 385 e 570 dólares. Em 1929, a Ford recuperou a liderança de mercado, mas em 1931 o Modelo A saía de linha, devido às baixas vendas causadas pela queda da Bolsa em 1929.
Em seus quatro anos, o Ford A cumpriu a tarefa de substituir o carro que mudou a América - e o mundo. Com quase 5 milhões de veículos, ele provou a Henry a tese do filho Edsel: que o cliente não era tão apegado ao T quanto ele e que a Ford podia ser moderna e ao mesmo tempo acessível para se manter líder.
PRIMEIRO A?
A letra A também já havia identificado o primeiro Ford, lançado em 1903. O Modelo A original custava 850 dólares e tinha um 1.6 de dois cilindros com 8 cv. Com seus 562 kg, chegava a 48 km/h. Um anúncio da época dizia que ele era "tão simples que um garoto de 15 anos pode guiá-lo".





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