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Clássicos | Faixa Branca
Histórico familiar
Junho 2012

Histórico familiar

Eles entraram na garagem desde zero-quilômetro e conquistaram o coração de filhos, netos e até bisnetos

Por Moraes Eggers | fotos: Fabiano Cerchiari
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TAMANHO DA LETRA  

Todo pai tem orgulho ao perceber que o filho escolhe seguir seus passos. Se o caminho é ser apaixonado por um carro, a satisfação se multiplica, principalmente quando ele é considerado membro da família e faz parte dela desde zero-quilômetro. Herança pura. E para reviver tantas recordações, nesse caso, é mesmo apropriado ter um bom porta-malas ou um espaçoso bagageiro para guardá-las.

João, Fábio, Lucca e André representam três gerações de apaixonados por carros. Quando o pai de Fábio, João, comprou uma Kombi zero-quilômetro, em 1960, mal sabia que estava começando uma história de amor que dura até hoje. Fábio de Cillo Pagotto, 48 anos, lembra que aos 8 ele já ligava a Kombi e brincava nela. Aos 10 já dirigia de verdade. Era uma Kombi-Turismo, com motor de 1 192 cm3 e 36 cv, refrigerado a ar - o célebre 1200.

"Viajamos muito nela. Com 20 anos, ela estava detonada. Em 1980, meu pai pensou em vender, mas não deixei. Eu nem tinha 18 anos, mas comecei a arrumá-la. Fiz motor, funilaria, tudo. Terminei só em 1991. Ela continua conservada, do mesmo jeito. Meus filhos a adoram", diz Fábio.

João comprou outros dois carros que também foram adotados, primeiro por Fábio e depois por seus filhos. Lucca, hoje com 11 anos, escolheu o Dodge Dart azul quando tinha 6 anos. "Ele falava: ‘Pai, vamos sair com o meu carro’." André, 8 anos, para não ficar atrás do irmão, escolheu o Dodge Le Baron quando tinha 3 anos: "Esse é o meu Dodge". Quem conta é o pai, satisfeito por ter garantido vida longa a mais dois modelos entre os entes queridos.

Quando Fábio tinha 12 anos, João comprou o Dodge Dart 79. "Fiquei tão encantado com aquele carrão que dormi dentro dele na primeira noite. Eu me lembro de minha mãe levando um cobertor e de me aconchegar no banco traseiro até dormir. Nas viagens, adorava ver o carro ultrapassando as Brasilia, Variant e outros carros da época. Afinal, eram 200 cv no motorV8.Também é inesquecível o fato de ter ido com ele buscar meu primeiro filho na maternidade", recorda.

Em 1980, chegou o Dodge Le Baron. Modelo de luxo, topo de linha, automático. "Lembro que fomos ao restaurante. Eu tinha 16 anos e já não deixava o manobrista estacionar", diz Fábio, que volta no tempo ao entrar em um deles. "Coloco algumas músicas que me fazem relembrar tudo o que já vivi. Sinto o cheirinho de cada um. Os Dodge têm seu cheiro característico, que vem dos bancos de couro. Eles são verdadeiras células que funcionam para aprisionar os bons tempos. Por isso, minhas iniciais estão em todas as placas. Faço questão", afirma.

Outro pai, Mário de Aguiar Leitão, é até hoje um apaixonado por carros, e o filho, também chamado Mário, 44 anos, cresceu convivendo com isso. "Em 1977, ele comprou uma Brasilia, a primeira com dupla carburação e 1600 cm3, de presente para minha mãe, Maria Emília. Eu tinha 10 anos, mas não esqueço o dia em que ela chegou. Ele tinha um Passat TS 1976, superbacana, mas que era bege, motivo de reclamações minhas. Ao vê-lo estacionando a Brasilia bege na garagem, reclamei de novo, mas logo me acostumei", lembra.

"Meu pai me ensinou a dirigir nela e me emprestava para dar umas voltas. Para que eu parasse de andar de moto, ele me disse que eu ganharia um carro. Era exatamente a Brasilia. Claro que aceitei, apesar da condição imposta por ele de levar minhas irmãs para a escola", diz Mário. "Um dia fui até o Guarujá, apesar de proibido pelos meus pais.Tive a sorte de nunca ter batido. É claro que a personalizei ao máximo.Troquei os pneus e coloquei rodas com aro maior, instalei buzina de Mercedes, volante do Passat TS, farol de milha, toca-fitas TKR", conta.

Ele até cogitou vender a Brasilia certa vez, mas o pai, apegado afetivamente, não deixou. "Nós tínhamos guardado todas as peças originais e fomos recolocando. Aí, quem não queria mais vender era eu", afirma Mário, que dirige até a limpeza dela. "Entrego os panos que meu funcionário usa só para isso e fico supervisionando para evitar riscos."

Hoje ela está 100% original, tem o manual, a chave original e a reserva e até a nota fiscal de compra. O motor tem 166000 km. Quando chove, Mário não sai com ela de jeito nenhum.Também só deixa o pai dirigir, além dele, é claro. "Somos apaixonados, uma minoria que tem um carro desde zero-quilômetro que é de uma única família. Mesmo que um dia eu precise muito de dinheiro, não a venderei. Meus pais me deram a Brasilia com todo amor e carinho e isso é inesquecível", diz Mário. A Brasilia continua uma realidade. E insubstituível.

De bisavô para bisneto

Alfredo Francisco Santiago era um imigrante português que desembarcou no porto de Santos para ganhar a vida no Brasil. Trabalhando, economizou até que conseguiu realizar seu sonho: comprou uma padaria em São Vicente (SP). Em 1957, ficou sabendo de um leilão de produtos apreendidos pela Receita Federal na alfândega do porto e foi participar com a intenção de comprar um carro. Mas não qualquer um. Ele sabia que um dos veículos que seriam vendidos no bater do martelo era um Pontiac Star Chief, mode- lo 1955, zero-quilômetro. Saiu de lá rodando nele.

O empresário Nelson Santiago, 48 anos, neto de Alfredo, herdou o carro dos pais. "Em 1964, meu avô e meu pai foram me buscar na maternidade nele", afirma. O avô dirigiu o carro até morrer, em 1969. "Meus pais o usaram até ficar inviável. E eu sempre de olho. Aos 13 anos, pedi para eles me darem o Pontiac, que tinha ficado guardado na garagem. Eles prometeram que ele seria meu, mas só o ganhei oficialmente quando fiz 20 anos", diz.

Em 1987, Nelson recondicionou o motor. Dez anos depois, em 2001, restaurou tudo. "Até o desmontei para remontá-lo com peças originais. O motor, o câmbio, tudo é original. Hoje saio nos fins de semana e só vou a lugares onde sei que existem vagas boas e seguras, porque nunca o entrego na mão de manobristas. Eles não têm carinho com o carro."

Apesar de ter um valor razoável, é inútil fazer ofertas. "Coloquei placa preta, com as iniciais do nome do meu pai e o ano de fabricação do carro: FPS 1955, de Fernando Paiva e Souza", diz. O filho Adriano, bisneto de Alfredo, tem 10 anos e já disse que quer assumir o Pontiac. "Fiquei muito feliz e já considero o carro dele, mas vou esperar para passar quando ele aprender a dar o devido valor, assim como meus pais fizeram comigo", afirma Nelson.

Fusca cupido

Artur Frederico Fernandes, 64 anos, eAlaíde, 62, namoravam quando ele comprou o Fusca 1500, em 1973. No começo, ela tinha até ciúme do carro vermelho e reclamava da atenção que ele dispensava para o automóvel. "Era como se fosse a outra", diz brincando Alaíde, que hoje entende tamanha dedicação. O rádio Blaupunkt, que funciona apenas em ondas médias e curtas, foi presente dela. "Escolhi ser levada por ele para a igreja quando nos casamos, em 1974. Tivemos três filhos: Ricardo,Vítor e Denise.Todos aprenderam a dirigir nele, mas o Vítor logo se apaixonou por carros e pelo Fusca. Desenhava modelos e acompanhava o pai para lavar e encerar o carro. Sempre que podia, estava dentro dele brincando", diz Alaíde.

Vítor conheceu Maria Amélia na praia de Itanhaém (SP), em 1996, quando já andava no Fusca. A amizade foi crescendo e se transformando até que, em 2001, marcaram um encontro. "Claro que fui buscá-la no Fusca para irmos a um bar. Lembro que, contrariado, entreguei o carro na mão de um manobrista. Escolhi um lugar para sentarmos onde eu podia ficar de olho no carro, estacionado do outro lado da rua", afirma Vítor.

Mais uma vez ele foi escalado para levar a noiva até a cerimônia no dia do casamento, em 2010. "Os convidados ficaram maravilhados ao saber que ele era da família desde zero-quilômetro", diz Vítor. Os irmãos já sabem que o carro vai ficar de herança para ele: "Quero ficar com ele para sempre".

Enquanto isso não acontece, o pai continua no comando. "Adoro a tração traseira, o câmbio. Pode-se sentir o carro, o barulho inconfundível do motor. Eu e a Alaíde viajamos só para curtir o carro. Nunca quebrou, não dá dor de cabeça. Só alegria", afirma Artur. "Depois que chove, sei que ele não resiste e passa um pano nos cromados e nas calotas para não ficarem manchados", diz a resignada Alaíde.

Filho com motor

O economista José Augusto Savasini, 69 anos, está habituado a falar de números. Mas seus olhos brilham quando eles estão ligados ao seu carro preferido. O motor está com 157000 km e nunca precisou ser feito, revela ele com orgulho. "O Honda Legend foi indicação de um amigo e estava ansioso como quem espera um filho. Em 1993, em uma concessionária de São Paulo que importou o carro, paguei com satisfação os 60000 dólares. Quando olhei o carro, foi amor à primeira vista. Nem andei nele antes. Lembro ainda o que disse para o gerente: ‘Esse é meu, ninguém tasca!’", diz José Augusto, que só o empresta em caso de emergência. "É com ele que vou trabalhar. Já tive outros modelos e não encontrei um que fosse melhor. E não abro mão dele para viajar.A estabilidade é impressionante.A única dificuldade é usar o toca-fitas. Não que ele não funcione. Eu é que não encontro mais fitas cassete para tocar", diz, satisfeito. "Tenho dois filhos e outros carros. Mas eles já sabem que considero esse como se fosse um filho, e que vai ficar na família pelo menos até eu morrer."

O pediatra Carlos Henrique Siloto, 67 anos, é pai de quatro filhas, mora em São Pedro (SP) e não consegue viver sem seu Chevette Hatch 1980, que dirige diariamente até o trabalho nos centros de saúde de Águas de São Pedro, a 7 km, e Charqueada, a 15 km. "O pessoal já sabe que sou eu chegando quando avistam o carro", conta. Sua história de amor começou quando ele deixava um de seus plantões médicos a bordo de seu Opala 1979: "Estava cansado por ter trabalhado muito e bati a traseira em um poste quando estava saindo do centro de saúde. Fiquei tão desgostoso que, no dia seguinte, fui a uma concessionária para trocá-lo.Vi o Chevette Hatch e me apaixonei na hora."

Com exceção das rodas, o Chevette está todo original. Carlos teve o cuidado de procurar um tapeceiro para encomendar capas para os bancos, que ele dificilmente tira, para conservar o tecido original. Fez o motor só quando completou 100 000 km, e hoje ele já está com 220000. "Ele vai ficar de herança para minhas filhas. Aliás, três dirigem e só empresto o carro para elas. Ainda assim, confesso, com uma dorzinha no coração", diz.





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