ALTERAR O TAMANHO DA LETRA
Não se deixe enganar pelas aparências. Essa não é uma cena de época, ainda que o Rolls-Royce da foto pareça haver saído de um filme antigo e o piloto lembre um corredor do começo do século. O carro em questão é um senhor septuagenário com físico de atleta embora em seu país de origem, a Inglaterra, carros sejam tratados sempre no feminino: she. Tudo bem. Problemas de identidade não assustam o Rolls-Royce New Phantom 1927. Mais do que trocar de gênero ao ser trazido da Grã-Bretanha para o Brasil, ele mudou de pele. Literalmente.
Este Rolls-Royce de design arrojado para os padrões da época -- os pára-lamas lembram o movimento de ondas na arrebatação e as suas linhas, as de um barco de corrida --, e inspirado no que havia de mais avançado tecnologicamente nas primeras décadas do século passado, a engenharia naval, já foi uma limusine. Quando o chassi de número LF40 saiu da fábrica em Derby para ser encarroçado na França pelo projetista Jean-Henri Labourdette, lembrava uma locomotiva. Trens eram outra referência de avanço tecnológico e Labourdette, o estilista do momento em design de veículos.
O New Phantom nasceu como uma limusine superluxuosa de 7 metros de comprimento, totalmente construída com madeiras nobres e revestida com detalhes de cascos de tartarugas. Pertenceu a um dos homens mais ricos do Brasil no começo do século, o magnata Lineu de Paula Machado, concessionário das docas do porto de Santos e criador de cavalos puros-sangues árabes no interior de São Paulo.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o Rolls-Royce quase virou pó. Sua carroceria foi praticamente devorada por cupins. Começava, então, um exílio de 53 anos em galpões empoeirados para o chassi LF40, sobre o qual a limusine foi montada. Tempo que este Rolls-Royce 1927 demorou para ganhar uma nova chance de existir, trocando o luxo de antes pela adrenalina e o espírito de aventura.
Outubro de 1998. Estamos em uma oficina de restauração de carros antigos no bairro da Lapa em São Paulo, a R&E. Ali, quatro homens e uma enfermeira aguardam o momento de testar os sinais vitais do velho motor de seis cilindros e 7500 cc do Rolls-Royce. A moça está ali para atender o segundo dono do carro o octogenário banqueiro paulista Angelo Martinelli Bonomi, que comprou a carcaça do Rolls-Royce da família Paula Machado e cuja saúde estava debilitada. Ao lado de Bonomi estão o advogado carioca Mário Cézar de Andrade, um entusiasta de carros esportivos antigos, o administrador de empresas paulistano Eduardo Lambiasi e o bacharel em Letras norte-americano Richard Flynn esses dois últimos os mecânicos responsáveis pelo ousado projeto de reconstrução do Rolls-Royce New Phantom 1927. A decisão de ligar ou não o motor estacionado havia muitos anos envolveu um quinto personagem: Mr. John Cockayne, membro da Rolls-Royce Bentley Specialists Association que, rompendo a barreira dos 80 anos em plena atividade, é o maior especialista vivo em modelos New Phantom. Temia-se que partes do motor não resistissem à partida e ficassem irremediavelmente comprometidas. Por telefone, Cockayne foi taxativo: "Fire her. She will start". Assim foi feito. E o motor do Rolls-Royce voltou a funcionar. Em menos de 20 segundos estabilizou a marcha-lenta , como se não tivesse ficado adormecido durante anos a fio. "Desligamos em seguida por precaução", diz Richard Flynn. "Muitos componentes precisavam ser lubrificados por causa do entupimento das galerias de óleo pela borra que se forma no cárter com a falta de funcionamento."
Angelo Bonomi mal conteve a emoção ao constatar que o carro, àquela altura apenas um chassi pelado e totalmente pintado com zarcão para evitar ferrugem, poderia ser salvo. Mas ele próprio, que decidira incendiar a carroceria da velha limusine, irremediavelmente infestada por cupins, já não se sentia em condições de levar o projeto adiante. Não sozinho. Por isso associou-se ao advogado Mário Cézar na missão. E para tanto trataram britanicamente de todas as formalidades, como exige um Rolls de fina estirpe. Em vez de um simples documento de compra e venda, banqueiro e advogado firmaram um compromisso de sucessão. Andrade se incumbiria de finalizar o projeto, levasse o tempo que levasse. E Bonomi teria o direito de desfilar com o Rolls-Royce New Phantom ao menos uma vez por mês, depois de pronto, enquanto vivesse.
Junho de 2001. De volta à oficina da Lapa. Mais de 6000 horas de trabalho de reconstrução, o dinheiro de uma casa de alto padrão investido na empreitada e quase 33 meses depois, o Rolls-Royce New Phantom 1927 está pronto. Angelo Bonomi não acompanha o término da nova etapa. Dois meses depois de o trabalho ser começado, um derrame o colocou em coma. Tivesse sido finalizado dois meses antes, o Phantom teria tempo de participar da tradicional prova de esportivos antigos La Costanera no final de junho, no Uruguai, organizada pelo pessoal da Mille Miglia italiana. O Rolls-Royce chegou a ser inscrito, mas não haverá tempo de ele e seu novo dono, Mário Cézar de Andrade, se tornarem íntimos na pista. A data da estréia oficial em competições foi transferida para novembro de 2001, nas Mil Milhas da Argentina.
Conta-se que o motor do Phantom foi desenvolvido pelo engenheiro Claude Johnson para fazer frente à força dos Bentley, à época concorrente da Rolls. Diz o humor inglês que Johnson seria o hífen que liga os nomes de Charles Rolls ao de Henry Royce. O engenheiro levara o protótipo com uma carroceria boat-tail, uma barqueta, para um teste secreto no interior da França. Ao colocar o carro na estrada, foi surpreendido pelo dono da fábrica concorrente em pessoa experimentando um protótipo de sua marca. Walter Owen Bentley e Claude Johnson decidiram então fazer um pega com os dois modelos. Não tivesse o chapéu de Johnson caído e Bentley, num rasgo de elegância, parado para pegá-lo do chão, os dois teriam caído no Canal da Mancha. A partir desse dia a Rolls-Royce parou de informar a potência de seus motores nos manuais de proprietário. Os livretos apenas indicam a expressão enough, suficiente, para definir o desempenho de seus motores. O manual do New Phantom 1927, com capa de couro e em estado surpreendentemente de novo 74 anos depois, é um dos últimos a informar a potência: 40-50 HP, menos de 50 cavalos. A explicação para seu excelente torque são os pistões de diâmetro maior e curso curto. Graças a isso, o carrão tem força para encarar os rivais mais jovens sem fazer feio.
Mas antes mesmo disso o velho chassi LF40 já contabilizava experiência em uma pista de corridas no seu currículo. No final de 2000, ainda sem pintura na carroceria e tendo como piloto o restaurador Richard Flynn, ele desfilou na pista de Interlagos numa prova de pequenos MG. "Saí como carro-madrinha, puxando o pelotão na primeira volta, mas devo ter ficado parecido com um cão são-bernardo em meio a uma disputa de chihuahuas", diz Flynn.
"Demorou para os outros terem coragem de me ultrapassar." E não apenas por causa dos 7 metros da máquina. O Phantom andou mais do que se esperava, com muito torque nas saídas de curvas e subidas, além de freios com resposta imediata e sem apresentarem sinal de fadiga. Mas o mecânico-piloto sofreu para aprender o macete de redução das marchas. Como o câmbio não tem sincronização, é preciso dar uma dupla debreagem, tirando o pé do acelerador até o giro do motor cair no ponto de mudança para engatar a marcha desejada. A dificuldade foi maior ao fazer o S do Senna. Mas máquina e piloto se saíram bem. Um lugar emblemático para o Rolls-Royce New Phantom 1927 demonstrar que não vestira apenas uma nova pele: incorporara, definitivamente, o espírito dos grandes corredores.
Clique e ouça o som do motor do Rolls-Royce em funcionamento, em quatro momentos diferentes:
1 - Acelerado, com a válvula fechada
2 - Em marcha lenta, com a válvula fechada
3 - Em marcha lenta, com a válvula aberta
4 - Acelerado, com a válvula aberta
