SEU COMPARATIVO
CLASSIFICADOS
A


GUIAS ONLINE
RUAS »
RODOVIÁRIO »
Clássicos | Faixa Branca
O campeão vive
Junho 2006

O campeão vive

Na Argentina, entre réplicas de 175 000 dólares, empresa reproduz o Bugatti T35, o maior vencedor de corridas da história

Por Luiz Guerrero / fotos: Marco de Bari
Lista de matérias por data:

ALTERAR O TAMANHO DA LETRA  

Você teria uma réplica na garagem? Antes de torcer o nariz diante de tal hipótese, leia esta reportagem. Ela mostra uma empresa, a Pur Sang, da cidade argentina de Paraná, ao norte de Buenos Aires, especializada em reproduzir carros de competição dos anos 20 e 30. De tão perfeitas, as peças aqui fabricadas pela equipe do ex-engenheiro agrônomo Jorge Anadón ganham destaque em salões internacionais, são elogiadas por revistas de prestígio e disputadas por colecionadores de todo o mundo. Da Pur Sang já saíram um incrível Cadillac Coupé 16 cilindros, um Mercedes-Benz 1926 com transmissão por corrente e um Alfa Romeo 158 com motor aeronáutico Aermacchi V12 de 25 litros. A paixão de Anadón, no entanto, são os Bugatti, especialmente o Tipo 35, que começou a reproduzir há 12 anos a partir de um modelo original. A Pur Sang - francês para "puro-sangue", como Ettore Bugatti referia-se a seus carros - já produziu cerca de 100 réplicas, um quarto da produção do modelo original. A Bugatti fabricou cerca de 400 variações do T35 entre 1924 e 1930, incluindo a versão urbana, com pára-lamas, faróis e lanternas. Atribuem-se ao modelo 1850 vitórias em competições, o maior número registrado por um carro. Anadón nos recebe na sede da empresa, uma chácara chamada Villa Lola que foi sede do governo da província no começo do século passado. E só faz uma exigência: que não se pergunte sobre preço. Aceito a condição. Mas, apenas para dar uma noção do valor dessa escultura de alumínio, em junho de 2000 a revista americana Road & Track comparou o preço da réplica, que custa 175000 dólares, com o do Bugatti T35 original, 400000 dólares. E concluiu que os carros da Pur Sang são um excelente negócio. "Existem menos de 100 modelos T35 em todo o mundo. Desses, contam-se nos dedos de uma mão quais mantêm a originalidade de fábrica. Por isso, não considero meus carros de menor valor", afirma Anadón. "São veículos originais feitos para não ficar na garagem." É a mesma conclusão de colecionadores de todo o mundo, especialmente da Europa e dos Estados Unidos, que desembarcam nesta cidade de 240000 habitantes às margens do rio Paraná em busca dos Bugatti argentinos.

Os carros de Anadón são feitos a mão por um grupo de 20 profissionais. A maioria das peças é fabricada no galpão principal de Villa Lola, mas fundição, pneus, pistões e parte elétrica, entre outros, vêm de fornecedores locais. O ritmo de produção é lento, um T35 a cada 30 dias. E o resultado, um primor. Quem conheceu o carro original, como o ex-piloto Phil Hill, que avaliou a réplica para a Road & Track, diz que até o ruído do motor é idêntico - uma sinfonia em notas graves realçada pelo ritmo compassado das válvulas e pelo zunido do compressor.

Para despertar o oito cilindros em linha do T35 B (versão de 130 cavalos com compressor mecânico), é preciso bombear a gasolina com uma alavanca à direita do painel e então girar a chave - uma das raras concessões de Anadón foi trocar o sistema de magneto do carro original pela ignição eletrônica. A partida pode ser dada pela manivela ou, melhor, por um botão. Ruben Urspruns, único funcionário autorizado a dirigir os carros da Pur Sang, acompanha esta avaliação, acomodado à minha esquerda no estreito banco de couro. Eu também procuro a melhor acomodação: o delgado volante de quatro raios é enorme e os pés ficam espremidos entre o túnel do cardã e a parede de alumínio, quase sem espaço para acionar os pedais.

Como em um monoposto de competição, o espaço é racionado. A alavanca de câmbio fica do lado de fora da carroceria, posição mais cômoda para as mudanças, já que as guias de engate e o cabo de transmissão ocupam boa área na altura do cotovelo. Junto dela, outra alavanca maior aciona os freios das rodas traseiras - um engenhoso recurso para fazer a traseira escorregar sobre o eixo em curvas fechadas, como em carros de rali. São quatro marchas longas e sem sincronização com engrenagens de dentes retos: as mudanças exigem, mais que força, determinação. A direção é igualmente pesada, mas não há folgas e os movimentos são precisos: com pouco mais de meio curso, as rodas dianteiras atingem o batente. Os freios a tambor acionados por cabos de aço não pregam susto, desde que não se exija muito do conjunto.

A adaptação aos comandos e às reações do carro é rápida. É o que me dá confiança para pressionar o acelerador, na verdade uma roldana suspensa. Não há velocímetro, só um belo conjunto de conta-giros, relógio analógico e dois mostradores menores, do nível de combustível e da pressão do óleo, instalados no painel de alumínio escovado. Em terceira marcha, o ponteiro entra na escala das 4000 rpm alterando o ronco do motor. Devia estar a menos de 100 km/h, mas a sensação de velocidade era bem maior. A suspensão firme, com eixos rígidos apoiados por feixes de molas, as rodas de 19 polegadas expostas e o vento contribuem para reforçar a sensação. Em contrapartida, não há vibrações em excesso: o T35 B da Pur Sang é sólido. Foi feito para se transformar em um clássico.

FINA ESTAMPA

A reprodução é fiel. E, como o original, o motor do Bugatti T35 B construído pela Pur Sang é uma peça de fino artesanato. A arquitetura é simples, mas as soluções contidas nesta obra de aço, alumínio, cobre e latão eram tão avançadas para a época que são adotadas ainda hoje.

A começar pela montagem em módulos (cárter, sobrecárter, compartimento dos cilindros e bloco), introduzida por Ettore Bugatti. Em 1912, os motores de quatro cilindros criados por Bugatti já traziam o recurso das quatro válvulas por cilindro, para conseguir maior eficiência nas pistas.

Conta-se que, ao juntar dois blocos do quatro cilindros para formar o oito em linha do T35, Bugatti testou o sistema de 32 válvulas, mas concluiu que podia livrar alguns gramas de peso ao adotar três válvulas por cilindro - uma de admissão e duas de escape. O conjunto, incluindo o compressor, pesa estimados 165 quilos. Um moderno motor de F-1 pesa cerca de 100 quilos. "Funciona como um Rolex", diz Juan Carlos Elias (foto), ex-preparador de motores de competição. Com a ajuda dos filhos Gustavo, 26 anos, e Adriano, 16, Juan é o responsável pela montagem e afinação dos motores da Pur Sang. Os ajustes são feitos com ferramentas manuais, como no começo do século passado. A única modernidade admitida é o dinamômetro. Sem compressor, o motor gera 100 cavalos. Com o dispositivo, que segue o mesmo princípio do supercharger do Fiesta, a potência declarada é de 130 cavalos a 5500 rpm.

Ficha técnica

Motor: Dianteiro, longitudinal, 8 cilindros em linha, 24V, compressor mecânico
Cilindrada: 2262 cm3
Potência: 130 cv a 5500 rpm
Torque: n/d
Diâmetro x curso:60 x 100 mm
Câmbio: Manual, 4 marchas, tração traseira
Dimensões: Comprimento, 370 cm; largura, 120 cm; entre-eixos, 240 cm
Peso: 750 kg
Tanque de combustível: 100 l
Suspensão: Eixo rígido, molas semi-elípticas
Freios: Tambor, integrado às rodas
Rodas e pneus: Alumínio, 5 x 19





» FOTOS

Publicidade