ALTERAR O TAMANHO DA LETRA
A quilometragem de um veículo antigo fornece apenas uma pista mecânica de seu passado. Só mesmo recorrendo à memória dos ex-proprietários para conferir como um carro pode nascer, morrer e ressuscitar várias vezes. É o caso do Galaxie 500 da foto ao lado, modelo 1979, um dos maiores exemplos da riqueza de histórias que um carro pode carregar. Do ponto de vista dos negócios da indústria, o automóvel em questão morreu em 1979, o último ano de sua série (a versão mais luxuosa da família, o Landau, resistiu ainda até 1983). Para as pessoas que possuíram o Galaxie dourado, porém, a saga estava apenas começando. Nos 25 anos seguintes, a relíquia trocou 15 vezes de mãos. No total, foram 13 donos, pois dois deles possuíram o carrão mais de uma vez.
O automóvel teve quatro placas, viveu em seis diferentes cidades no interior de São Paulo e continua rodando até hoje, com o motor original acumulando mais de 150000 quilômetros. A concessionária Ford que o vendeu, a Itaperá, de Itu, em São Paulo, fechou as portas há dois anos. Esse Galaxie carregou promotores de Justiça, famílias com dez pessoas, noivas à porta da igreja e jovens colecionadores saudosos de um passado que não viveram. Seu dono hoje, o veterinário Ricardo Prieto, de 34 anos, é tão fanático por esse tipo de carro que mandou tatuar um no braço direito. O veículo também já foi vítima de uma tentativa de furto e chegou a participar até de um rali, entre outras aventuras.
Ele foi um digno representante das últimas safras do modelo, lançado 12 anos antes com toda pompa e circunstância. Pela primeira vez a jovem indústria brasileira estava fazendo um produto sintonizado com o que havia de melhor no exterior (veja quadro na pág. 93). Os especialistas não se cansavam de elogiar a novidade, em função de seu conforto e de suas dimensões generosas. Nas primeiras reportagens de QUATRO RODAS sobre o automóvel, os jornalistas anotaram que era possível até cruzar as pernas nos assentos de trás e colocar um copo de água cheio no banco dianteiro. "Ele não derrama, ainda que o Galaxie esteja desenvolvendo velocidade máxima", afirmou o autor da matéria.
A crise do petróleo no início da década de 70 atropelou as possibilidades comerciais do Galaxie. Naquelas circunstâncias, quem iria querer bancar uma barca, como esse tipo de carro foi apelidado, com sua sede insaciável? A Ford esforçou-se para recuperar o automóvel, incrementando-o ainda mais. Em 1979, o Galaxie 500 ganhou câmbio automático e ar-condicionado totalmente embutido no painel. Por ironia, a capacidade do tanque aumentou de 76 para 107 litros - ressaltando, por tabela, o calcanhar-de-aquiles do modelo.
Mesmo na fase de canto de cisne, o carrão ainda chamava atenção por qualidades como o conforto. Isso ajuda a explicar as 15 vidas do Galaxie dourado. "Peguei minha família e percorri de trem o trajeto de 42 quilômetros entre Campinas e Jundiaí, onde o automóvel estava sendo vendido", lembra o promotor de Justiça Raymundo Cantuária. Em 1987 ele estava prestes a se tornar o quinto proprietário do Galaxie. "Negócio fechado, retornamos a Campinas, pegamos alguns parentes para dar uma volta e o carro continuava confortável, mesmo com dez pessoas em seu interior."
A primeira morte desse Galaxie dourado ocorreu na metade da década de 90. Com o carro fora de linha, as peças de reposição começaram a escassear. O promotor Cantuária desistiu dele depois de não conseguir encontrar uma palheta para o limpador de pára-brisa. Em 1995, já nas mãos de outro dono, o gerente Maurício Tiziani, o carrão sofreu um baque ainda maior. Numa tentativa de furto, um ladrão tentou fazer o automóvel pegar no tranco empurrando-o de um morro de uma chácara em Campinas, no interior de São Paulo. Não conseguiu e acabou deixando o carro abandonado debaixo de um barranco. Com a lateral dianteira esquerda batida, o Galaxie ficou inerte durante um ano numa garagem até ser vendido em 1996 por 2800 reais. Foi o menor preço de revenda nos 25 anos do automóvel. Para se ter uma idéia, em valores atualizados, o carro zero custava em 1979 o equivalente hoje a 130000 reais.
O colecionador Fabiano Tilli, 33 anos, conseguiu ressuscitar duas vezes o Galaxie - ou o "Zé Dourado", como ele costuma chamar o carro. No final da década de 90, Fabiano arregaçou as mangas e restaurou a barca. Ela ficou tão boa depois da funilaria e pintura que o dono começou a ganhar dinheiro com o automóvel, alugando-o para levar noivas a casamentos. "Ficou impecável, uma jóia", conta Fabiano, que trocou o Galaxie por um Landau em 1992. O "Zé Dourado" começou a definhar novamente nas mãos de outros proprietários. Um deles, o bancário Rafael Martins, 28 anos, chegou a usar o carrão num rali de regularidade, rodando 600 quilômetros com a barca num único dia no interior de São Paulo. Pouco tempo depois o carro começou a apresentar sinais sérios de desgaste, até o câmbio automático entrar em colapso em 1998.
Mais uma vez, Fabiano Tilli retomou o carro. Com um câmbio de Landau, ele voltou a rodar em 2000. Os carpetes que equipam o automóvel até hoje foram emprestados também desse modelo, o mais luxuoso da família Galaxie. Ao longo de sua história, o "Zé Dourado" ganhou um espelho retrovisor do lado direito e um friso de borracha na mesma lateral - as peças restantes são do modelo 1979, algumas ainda originais (casos do estofamento e do motor), outras compradas de carros da mesma época (rodas e pneus). Agora ele está pedindo uma restauração, sobretudo na lataria, cheia de retoques malfeitos em cima da tinta original. O motor 302 canadense, de oito cilindros, o mesmo utilizado nos Mustang e Maverick, também dá sinais de cansaço, queimando um pouco de óleo.
Mesmo fora de forma, o carrão ainda chama atenção nas ruas e emociona quem gosta de barcas ao estilo americano. Numa manhã de julho, sete dos 13 ex-proprietários reuniram-se em Campinas para uma sessão de fotos ao lado do carrão. Muitos deles moram hoje em cidades diferentes e, exceto o "Zé Dourado", não tinham nada em comum. Todos compraram o carro, em diferentes épocas, pelo mesmo motivo: a satisfação de acelerar um automóvel que virou um dos símbolos de pujança dos tempos do milagre do crescimento. Naquela época, produzir por aqui um carrão igualzinho ao sofisticado modelo americano parecia sinalizar que estava ficando mais curto o caminho entre o Brasil e o Primeiro Mundo. Enquanto trocavam fotos antigas, experiências e telefones, os ex-donos ficaram rodeando o Galaxie 1979, conferiram cada detalhe do automóvel e emocionaram-se com as lembranças. Com os olhos cheios d'água, o bancário Fernando Martins permaneceu calado durante alguns momentos, com o olhar fixo no painel do "Zé Dourado", onde se destaca o quilométrico velocímetro em escala horizontal, uma das marcas registradas da velha barca. "Andar nele foi a realização de um sonho de infância", afirmou ele, resumindo o sentimento geral de todos os integrantes daquela "família Galaxie".

conheça todas as pessoas que foram proprietárias do carrão
1. Manoel Oliveira Roça Júnior (1979-1983), 54 anos, empresário, Itu
2. Vicente Úngaro Neto (1983), 56 anos, aposentado, Jundiaí
3. Pierluigi Scarparo (1983-1985), 55 anos, engenheiro mecânico, Jundiaí
4. Vicente Úngaro Neto (1986), Jundiaí
5. Raymundo Amorim Cantuária (1987-1988), 49 anos, promotor de Justiça, Campinas
6. Paulo Roberto Ayres de Camargo (1989-1993), 59 anos, ex-procurador de Justiça, Campinas
7. José Afonso Oliveira de Faria (1994), 39 anos, engenheiro, Campinas
8. Maurício Tiziani (1994-1996),33 anos, gerente dos correios, Campinas
9. Paulo Lobo (1996), 60 anos, mecânico de aviões, Valinhos
10. Fabiano Tilli (1996), 33 anos, produtor de eventos, Campinas
11. Giordano Romi Junior (1997), 45 anos, empresário, Santa Bárbara d'Oeste
12. Fernando Rafael Rossetto Martins Ramos (1997-1999), 28 anos, bancário, Limeira
13. Fabiano Tilli (2000), Campinas
14. Marcelo Luiz Gozzi (2001-2002), 33 anos, empresário, Campinas
15. Ricardo Prieto (desde 2003), 34 anos, veterinário, Campinas