ALTERAR O TAMANHO DA LETRA
Havia uma preciosidade escondida em um canto escuro do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Era o Protos de 1908, que ali estava caindo aos pedaços, cheio de ferrugem e cupim, não lembrando em nada os seus dias de glória quando serviu ao Palácio Itamaraty como carro oficial do barão do Rio Branco.
Os pneus murchos e o estofamento corroído eram de dar pena. Pior ainda, é que a velha carcaça já era tratada como um estorvo por funcionários menos esclarecidos daquela casa de cultura, influenciados talvez pelo comentário de um visitante que, um dia, procurou o guarda e perguntou: "Pra que é que serve esta velharia?"
Tinha razão. Daquele jeito, o carrão, de quase 2 toneladas, não servia para nada. Ou melhor, servia como uma peça de acusação para provar como um país civilizado por vezes faz questão de destruir a própria memória, desvalorizando a sua cultura.
Mas nem tudo estava perdido. Liderado pelo empresário Roberto Paulo César de Andrade, que presidia a Associação de Amigos do Museu, teve início um movimento para promover a "ressurreição do Protos". A entidade designou o conselheiro Guilherme Pfisterer para montar um projeto de restauração e a missão, que parecia impossível, começou a ser viabilizada. Foi preciso, de início, explicar a importância daquele "Protos, 17/35 OS 1908" que o governo brasileiro havia adquirido em 1º de abril de 1908 pagando perto de 24 000 marcos que valiam, na época, 104 200 contos de reis...
A Protos era uma das marcas mais importantes da Alemanha no início do século. Seus sedãs e limusines eram disputados pelos europeus e, em 1905, o fabricante decidiu projetar carros de corrida com um revolucionário motor de quatro e seis cilindros. Na corrida Nova York / Paris de 1908 a Protos entrou com um veículo "standard" que teve o patrocínio do próprio kaiser Guilherme II. A prova começou nos Estados Unidos e 165 dias depois o carro foi o primeiro a chegar a Paris, depois de superar etapas no gelo e de vencer trechos de navio. A vitória, no entanto, coube ao carro americano Thomas Flyer, que chegou quatro dias depois mas acabou vitorioso graças aos descontos de várias penalidades impostas ao carro alemão.
Antes mesmo da corrida, o nosso barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores do presidente Afonso Pena, recebeu a incumbência de promover, na Praia Vermelha, uma grande exposição nacional para comemorar o Centenário da Abertura dos Portos. Para receber as autoridades estrangeiras que viriam ao Brasil o nosso chanceler encomendou quatro limusines Protos, modelo Landaulet. Os automóveis fizeram sucesso e, depois do evento, um deles passou a ser o carro oficial do barão, que mandou pintar as letras R.E. na porta (Relações Exteriores) e fez bom uso dele até morrer, em fevereiro de 1912. De lá para cá, o carrão passou para a frota da Brigada Oficial do Rio e só em 1925 o fundador do Museu Histórico Nacional, o acadêmico Gustavo Barroso, conseguiu que a Polícia Militar do Rio, sucessora da Brigada, cedesse o carro ao novo Museu.
Os outros três Protos sumiram. O R.E. chegou a ser exibido mas o cupim e a ferrugem foram aos poucos destruindo o veículo até que, em 1987, o Museu decidiu iniciar o processo de restauração. Como a coisa estava aos pedaços, o coordenador realizou consultas pelo mundo afora, ouvindo especialistas, copiando plantas, fotos e outras referências sobre os carros da Protos, que estavam arquivadas no Deutsche Museum e no Siemens Museum.
De outra parte, montou-se uma festa de apoios, já que não havia verba orçamentária. Na base do "tudo de graça", a Mercedes-Benz concordou em assumir a responsabilidade de recuperar a parte mecânica e de coordenar os apoios que tinham sido oferecidos pela Bosch, Cofap, Metal Leve, Fabrini e Michelin, que se dispôs a criar novos moldes só para fabricar os pneuzões originais, aro 27.
O trabalho começou, de verdade, em fevereiro de 1993, quando o Protos foi levado para as oficinas da R & E Restaurações, no bairro da Lapa, em São Paulo, onde Richard Flynn e Eduardo Lambiasi haviam construído uma reputação como restauradores de carros ingleses - principalmente das marcas MG e Jaguar - mas nunca tinham se aventurado a mexer em nada parecido com o enorme Protos.
Como membro da Associação de Amigos do Museu e amigo do presidente Roberto Paulo César de Andrade coube-me indicar a R & E, da qual acabei me tornando fiador moral. Eles nem precisavam desse tipo de endosso e todas as indústrias participantes do programa aplaudiram a iniciativa do colunista de QUATRO RODAS.
Logo ao chegar à oficina, o carro (ou o que restava dele) foi todo desmontado, fotografando-se cada operação para depois facilitar a remontagem. A parte mecânica foi para as oficinas da Mercedes e, lá na Lapa, a R & E começou a construir uma nova carroceria de madeira, que teria que ficar igualzinha à que servira de pasto para os vorazes cupins cariocas.
Não foi fácil. Tudo precisou ser redesenhado. As madeiras nobres escolhidas precisavam ser "curadas" para não encolherem e evitar que, no futuro, entortassem a carroceria. Aos poucos, o carro foi tomando forma e, em junho de 1995, o pessoal da Mercedes deu a notícia: a carcaça metálica, já com os novos pneus, começara a dar as suas primeiras voltas no pátio da fábrica, com tudo funcionando, sob aplausos de mecânicos, engenheiros e dirigentes da indústria que tinham, todos eles, se apaixonado pelo trabalho.
Só aí é que eu descobri que o Protos não tinha todos os pedais e a aceleração era feita à mão, como nos carros "bigode" da época. Também descobri que o seu peso "oficial", dos catálogos, era de 1.050 kg. Só para o chassis e o motor. E que ninguém se lembrou de pesar o carro depois de pronto, embora todo mundo ache que com os pneus e estepes, tanque de gasolina, carroceria, capota e estofamento ele chega bem perto das 2 toneladas.
O carro ficou novo em folha. Guilherme Pfisterer, o vitorioso coordenador do projeto, levou o Protos para o Rio de Janeiro e, ao retirá-lo do caminhão, fez questão de dar uma volta lá na Praça XV, pertinho do Museu, sob a direção de Osmar de Paula, mecânico da Mercedes que participou do projeto.
A turma em redor bateu palmas. Eu vi um motorista de táxi comentar com os colegas: "O bicho pegou na primeira"... Dias depois, o carro passou a ocupar o salão de entrada do Museu, todo iluminado. De lá, ele só saiu uma vez, para ir a Brasília e carregar um passageiro ilustre, o presidente Fernando Henrique Cardoso, em abril de 1997, levando o megatucano do Palácio da Alvorada até o Palácio Itamaraty, no Dia do Diplomata. Na pequena viagem o presidente e o chanceler Luiz Felipe Lampreia ficaram felizes quando souberam que igual ao nosso Protos só existe um outro, no Museu Alemão de Munique. Mas ocorre que o nosso está novinho em folha. E é muito mais bonito que o deles...

Clique nas imagens abaixo e veja as etapas da reconstrução do Protos.