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Clássicos | Faixa Branca
E do pó voltarás
Junho 2006

E do pó voltarás

A partir do trabalho executado no Protos 1908, um dos veículos mais antigos do Brasil, dá para ter uma idéia de como um carro pode voltar às suas características originais

Por Mauro Salles
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Havia uma preciosidade escondida em um canto escuro do Museu Histórico Nacional, no Rio de Janeiro. Era o Protos de 1908, que ali estava caindo aos pedaços, cheio de ferrugem e cupim, não lembrando em nada os seus dias de glória quando serviu ao Palácio Itamaraty como carro oficial do barão do Rio Branco.

Os pneus murchos e o estofamento corroído eram de dar pena. Pior ainda, é que a velha carcaça já era tratada como um estorvo por funcionários menos esclarecidos daquela casa de cultura, influenciados talvez pelo comentário de um visitante que, um dia, procurou o guarda e perguntou: "Pra que é que serve esta velharia?"

Tinha razão. Daquele jeito, o carrão, de quase 2 toneladas, não servia para nada. Ou melhor, servia como uma peça de acusação para provar como um país civilizado por vezes faz questão de destruir a própria memória, desvalorizando a sua cultura.

Mas nem tudo estava perdido. Liderado pelo empresário Roberto Paulo César de Andrade, que presidia a Associação de Amigos do Museu, teve início um movimento para promover a "ressurreição do Protos". A entidade designou o conselheiro Guilherme Pfisterer para montar um projeto de restauração e a missão, que parecia impossível, começou a ser viabilizada. Foi preciso, de início, explicar a importância daquele "Protos, 17/35 OS 1908" que o governo brasileiro havia adquirido em 1º de abril de 1908 pagando perto de 24 000 marcos que valiam, na época, 104 200 contos de reis...

A Protos era uma das marcas mais importantes da Alemanha no início do século. Seus sedãs e limusines eram disputados pelos europeus e, em 1905, o fabricante decidiu projetar carros de corrida com um revolucionário motor de quatro e seis cilindros. Na corrida Nova York / Paris de 1908 a Protos entrou com um veículo "standard" que teve o patrocínio do próprio kaiser Guilherme II. A prova começou nos Estados Unidos e 165 dias depois o carro foi o primeiro a chegar a Paris, depois de superar etapas no gelo e de vencer trechos de navio. A vitória, no entanto, coube ao carro americano Thomas Flyer, que chegou quatro dias depois mas acabou vitorioso graças aos descontos de várias penalidades impostas ao carro alemão.

Antes mesmo da corrida, o nosso barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores do presidente Afonso Pena, recebeu a incumbência de promover, na Praia Vermelha, uma grande exposição nacional para comemorar o Centenário da Abertura dos Portos. Para receber as autoridades estrangeiras que viriam ao Brasil o nosso chanceler encomendou quatro limusines Protos, modelo Landaulet. Os automóveis fizeram sucesso e, depois do evento, um deles passou a ser o carro oficial do barão, que mandou pintar as letras R.E. na porta (Relações Exteriores) e fez bom uso dele até morrer, em fevereiro de 1912. De lá para cá, o carrão passou para a frota da Brigada Oficial do Rio e só em 1925 o fundador do Museu Histórico Nacional, o acadêmico Gustavo Barroso, conseguiu que a Polícia Militar do Rio, sucessora da Brigada, cedesse o carro ao novo Museu.

Os outros três Protos sumiram. O R.E. chegou a ser exibido mas o cupim e a ferrugem foram aos poucos destruindo o veículo até que, em 1987, o Museu decidiu iniciar o processo de restauração. Como a coisa estava aos pedaços, o coordenador realizou consultas pelo mundo afora, ouvindo especialistas, copiando plantas, fotos e outras referências sobre os carros da Protos, que estavam arquivadas no Deutsche Museum e no Siemens Museum.

De outra parte, montou-se uma festa de apoios, já que não havia verba orçamentária. Na base do "tudo de graça", a Mercedes-Benz concordou em assumir a responsabilidade de recuperar a parte mecânica e de coordenar os apoios que tinham sido oferecidos pela Bosch, Cofap, Metal Leve, Fabrini e Michelin, que se dispôs a criar novos moldes só para fabricar os pneuzões originais, aro 27.

O trabalho começou, de verdade, em fevereiro de 1993, quando o Protos foi levado para as oficinas da R & E Restaurações, no bairro da Lapa, em São Paulo, onde Richard Flynn e Eduardo Lambiasi haviam construído uma reputação como restauradores de carros ingleses - principalmente das marcas MG e Jaguar - mas nunca tinham se aventurado a mexer em nada parecido com o enorme Protos.

Como membro da Associação de Amigos do Museu e amigo do presidente Roberto Paulo César de Andrade coube-me indicar a R & E, da qual acabei me tornando fiador moral. Eles nem precisavam desse tipo de endosso e todas as indústrias participantes do programa aplaudiram a iniciativa do colunista de QUATRO RODAS.

Logo ao chegar à oficina, o carro (ou o que restava dele) foi todo desmontado, fotografando-se cada operação para depois facilitar a remontagem. A parte mecânica foi para as oficinas da Mercedes e, lá na Lapa, a R & E começou a construir uma nova carroceria de madeira, que teria que ficar igualzinha à que servira de pasto para os vorazes cupins cariocas.

Não foi fácil. Tudo precisou ser redesenhado. As madeiras nobres escolhidas precisavam ser "curadas" para não encolherem e evitar que, no futuro, entortassem a carroceria. Aos poucos, o carro foi tomando forma e, em junho de 1995, o pessoal da Mercedes deu a notícia: a carcaça metálica, já com os novos pneus, começara a dar as suas primeiras voltas no pátio da fábrica, com tudo funcionando, sob aplausos de mecânicos, engenheiros e dirigentes da indústria que tinham, todos eles, se apaixonado pelo trabalho.

Só aí é que eu descobri que o Protos não tinha todos os pedais e a aceleração era feita à mão, como nos carros "bigode" da época. Também descobri que o seu peso "oficial", dos catálogos, era de 1.050 kg. Só para o chassis e o motor. E que ninguém se lembrou de pesar o carro depois de pronto, embora todo mundo ache que com os pneus e estepes, tanque de gasolina, carroceria, capota e estofamento ele chega bem perto das 2 toneladas.

O carro ficou novo em folha. Guilherme Pfisterer, o vitorioso coordenador do projeto, levou o Protos para o Rio de Janeiro e, ao retirá-lo do caminhão, fez questão de dar uma volta lá na Praça XV, pertinho do Museu, sob a direção de Osmar de Paula, mecânico da Mercedes que participou do projeto.

A turma em redor bateu palmas. Eu vi um motorista de táxi comentar com os colegas: "O bicho pegou na primeira"... Dias depois, o carro passou a ocupar o salão de entrada do Museu, todo iluminado. De lá, ele só saiu uma vez, para ir a Brasília e carregar um passageiro ilustre, o presidente Fernando Henrique Cardoso, em abril de 1997, levando o megatucano do Palácio da Alvorada até o Palácio Itamaraty, no Dia do Diplomata. Na pequena viagem o presidente e o chanceler Luiz Felipe Lampreia ficaram felizes quando souberam que igual ao nosso Protos só existe um outro, no Museu Alemão de Munique. Mas ocorre que o nosso está novinho em folha. E é muito mais bonito que o deles...

Adesconstrução - Logo que chegou à oficina, em péssimas condições, o Protos teve de ser desmontado peça por peça. Essa desmontagem, aliás, tornou-se a fase mais importante de toda a restauração. "Ela precisa ser criteriosa, para conseguir o maior número possível de informações de como o carro era originalmente", diz Eduardo Lambiasi, sócio da R & E Restaurações, a oficina de São Paulo que foi responsável pelo trabalho de reconstrução do Protos 1908. Primeiro, tiram-se todas as peças do veículo, uma a uma, até que sobre apenas o chassi. A restauração do carro do barão do Rio Branco, porém, exigiu atenção redobrada. "Afinal, trata-se de uma peça única e há poucos registros de como ele saiu da fábrica", diz Lambiasi, referindo-se à escassa literatura existente a respeito do automóvel. Nessa primeira etapa foram separadas a carroceria de madeira, o motor, a suspensão e o chassi.

Clique nas imagens abaixo e veja as etapas da reconstrução do Protos.





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