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Carretera
Chevrolet Coupé 1939
Fôlego de Frankenstein
Cara de Chevrolet, coração
de Corvette: andamos neste carro histórico, um dos
muitos que, a partir da década de 30, disputaram emocionantes
corridas em estradas de terra
por Zeca Chaves | Fotos Marco de bari
É a primeira vez que vejo uma carretera
assim, em cores. Sempre as admirei pelas fotos antigas ou
recortes de jornal. E, para mim, elas sempre foram em preto
e branco, nunca tiveram cor. Hoje, elas ganharam cores, uma
bela combinação de verde e amarelo que fascina
quando vista de perto. Parada no boxe do autódromo
de Guaporé, RS, tenho uma oportunidade única
na vida de alguém que gosta de carro: estou apreciando
uma das mais famosas (e belas) carreteras do país.
Melhor ainda: vou andar nela. Muito melhor: vou pilotá-la
numa pista de verdade. Eu sei, eu sei, profissão de
repórter exige esses sacrifícios, mas o que
posso fazer?
Antes de entrar, presto uma reverência imaginária
aos nomes de seus antigos pilotos, escritos na base da capota
traseira deste Chevrolet Coupé 1939: José Gimenez
Lopes, Chico Landi, Camillo Christófaro, José
Cury e Catharino Andreatta. Estarei em ótima companhia.
Acomodo-me no banco. Pernas esticadas, coluna reta, quase
sentado diretamente sobre o assoalho, uma posição
desconfortável, agravada pelo acelerador deslocado
à direita, o que me obriga a girar o tornozelo para
que a ponta do pé alcance o pedal. Fico imaginando
como seria pilotar durante seis horas nessa posição
incômoda...
Giro a chave, pressiono o botão de partida e o V8 ressoa
nos boxes de Guaporé. Tento controlar a empolgação
de empurrar de uma vez o acelerador, mas não resisto
ao impulso. A rotação explode no conta-giros
e faz o motor gritar rouco, enquanto joga minha cabeça
para trás e despeja no ar um acentuado cheiro de gasolina.
O ronco do V8 é contagiante. Sob o capô, um motor
de Corvette 283 (5.0 litros), com pistões modificados
para chegar a 350 polegadas cúbicas (5.7 litros), alimentados
por três carburadores. O resultado ultrapassa os 300
cv de potência.
Mais uma fincada no acelerador e lá vai a reta sumindo
na medida inversa em que aparece o medo diante da primeira
curva fechada. Salvo por um relance de bom senso, reduzo de
terceira para segunda, torcendo para que não seja tarde.
Eu sabia que não podia contar com os pneus, um par
de diagonais 6,50 x 6,70 na frente e radiais 215/80 na traseira,
aro 16. Menos ainda confiar na suspensão de quatro
feixes de molas semi-elípticas. Aqueles “volantes”
(assim se chamavam os pilotos na época) corriam em
automóveis que usavam suspensão tão sofisticada
quanto a de um caminhão de mudanças.
A curva parece que vai ser fechada demais. De olho na área
de escape, inconscientemente procuro me convencer de que uma
capotagem não será tão ruim, afinal é
um carro de corrida. Mas nem num Fusca eu estaria tão
desprotegido. Nada de santantônio, nenhum cinto de segurança
para evitar que eu seja lançado através do pára-brisa
temperado. Nem mesmo um banco decente para me segurar –
o encosto sequer apóia as costas inteiras.
Até a metade da curva ainda tinha o carro sob controle,
ou quase, já que as rodas traseiras teimam em passar
a dianteira. Aliás, essa é uma das mais emocionantes
– e assustadoras – características de uma
carretera. Maior parte do peso concentrado na frente, tração
traseira, muita potência e uma inevitável tendência
sobresterçante. Giro o volante para fora da curva,
tentando recuperar o controle que deveria ser meu. Vem outra
curva, agora em velocidade menor. Mesmo assim, lá está
o Chevrolet 39 saindo de traseira novamente. Agora eu entendo
por que diziam que o grande Breno Fornari, vencedor da primeira
Mil Milhas Brasileiras (1956), passava mais tempo dirigindo
sua carretera de lado que de frente.
Algumas voltas depois eu estava habituado às derrapadas,
mas a instabilidade me deixava tenso. A folga na direção
era respeitável, quase um quarto de volta, e a suspensão
dura castigava o aprendiz de piloto de carretera insistindo
em divorciar os pneus do asfalto. Mesmo nas retas o carro
tornava-se arredio, obrigando a grandes e constantes ajustes.
Deviam ser muito machos ou muito loucos aqueles gaúchos
que voavam nas estradas de terra a mais de 200 km/h, sabendo
que qualquer acidente seria fatal. Vem daí o apelido
de “cadeira elétrica” para essas máquinas
desprovidas de qualquer item de segurança que não
fosse a sorte.
> > > C O N T I N U A
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