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Clssicos | Grandes brasileiros
Gurgel Supermini
Outubro 2003

Gurgel Supermini

Ele era a evoluo do BR 800, o primeiro carro totalmente desenvolvido no Brasil

Por Srgio Berezovsky (texto e fotos)
Lista de matrias por data:

ALTERAR O TAMANHO DA LETRA  

Na sala de Joo Augusto Conrado do Amaral Gurgel na sede da Gurgel Motores S/A, em Rio Claro, So Paulo, havia, entre trofus e diplomas expostos na parede, uma multa por excesso de velocidade. A notificao, motivo de orgulho na fbrica, foi obtida por um funcionrio ao volante de um BR 800, flagrado a 126 km/h. Em vez de ser repreendido pelo dono, o dubl de piloto foi recebido com festa.

No era para menos: com um motor de 0,8 litro e dois cilindros e 650 quilos de peso total, o BR 800 era a realizao do sonho do engenheiro e empresrio que comeou produzindo minicarros para crianas. Era o primeiro automvel criado e desenvolvido no Brasil. Depois de fabricar vrios utilitrios, como Xavante, X-12, Tocantins e Carajs, entre outros que utilizavam mecnica VW, Gurgel colocava nas ruas um carro com conjunto mecnico prprio.

A odissia comeou bem antes do dia 7 de setembro de 1987, "dia da independncia tecnolgica brasileira", de acordo com o prprio Gurgel. Naquele feriado o projeto Cena, "Carro Econmico Nacional", ou Gurgel 280, foi apresentado ao pblico. No ano seguinte, j com o novo nome BR 800, chegava s mos dos primeiros proprietrios. Quem quisesse se habilitar a um deles, teria de comprar aes da companhia, como fizeram 8000 novos acionistas. O governo tambm fez sua parte, criando um incentivo fiscal: o IPI era mais baixo (5% contra os 25% ou mais para os outros carros) para o carrinho popular.

Mas os momentos de glria que levaram at a cobrana de gio terminaram quando, em 1990, o incentivo ao carro popular se estendeu a todos os carros com motores de at 1 litro. A Fiat lanou seu Uno Mille, que custava praticamente o mesmo que um Gurgel, e foi seguida pelas outras montadoras. Os novos concorrentes do BR 800 tinham melhor desempenho, acabamento e mais espao. Nem preciso dizer como a vida do pequeno Gurgel ficou difcil. Em janeiro de 1991 deixou de ser fabricado. Para enfrentar a competio, a Gurgel lanou o Supermini, em 1992.

Com desenho mais moderno, acabamento mais bem cuidado e linhas arredondadas, o novo carro ficou mais bonito e com melhor aerodinmica. O maior entre-eixos contribuiu para aumentar a estabilidade e o espao para os dois passageiros de trs. O motor de 36 cavalos era o original Gurgel Enertron com cilindros dispostos na horizontal e ignio eletrnica. Apenas teve o cabeote redesenhado e as vlvulas de admisso aumentadas, mudanas que renderam mais 4 cavalos. A carroceria, de polister reforado com fibra de vidro, tinha garantia de 100000 quilmetros. Mas dizer que era inteiramente produzido aqui no seria correto, pois o cmbio era argentino, feito sob encomenda.

O Supermini era mesmo um passo frente em relao ao BR: o porta-malas ganhou tampa e os vidros, antes corredios, passaram a ter movimento vertical. O painel, completo, tinha toca-fitas que levava a marca Gurgel.

Ao darmos a partida no Supermini, a primeira idia de que h algum cabo de vela solto. Rodando, a impresso continua. Lembrei-me da recomendao de Robson Jacob, o proprietrio do carro que aparece nesta reportagem: "Aproveite bem as marchas. Estique!"


O rudo interno alto e a impresso de que o motor est sempre "esgoelado". A dica no deixar a rotao cair. E nem ter medo de reduzir as marchas, como ensina o manual do proprietrio. A direo leve e as manobras so fceis mesmo com volante pequeno e sem assistncia hidrulica, ajudadas pelos seus parcos 3,19 metros de comprimento. Mas a carroceria atua como caixa de ressonncia ao passar por irregularidades.

O alardeado baixo consumo no surpreendeu de maneira positiva: a mdia fica em torno dos 13,5 km/l, conforme reportagem publicada em QUATRO RODAS em novembro de 1992. No mesmo teste, ele levou eternos 35 segundos para ir de 0 a 100 km/h. E a velocidade mxima ficou nos 111,5 km/h, atribuda falta de um diferencial mais longo e uma quinta marcha.

>> Veja os testes do carro na edio

A impresso de fragilidade que se tem ao andar no BR 800 no parece confirmada pela realidade: basta ver os Gurgel que continuam rodando mesmo com a precria assistncia tcnica remanescente. Algo muito distante dos planos originais do engenheiro Gurgel, que pretendia que postos da rede Petrobras revendessem peas de reposio para seus carros, fora dos grandes centros.

Endividada e concordatria desde 1993, a Gurgel foi falncia no ano seguinte, antes mesmo de inaugurar a nova fbrica no Cear, para a qual j havia adquirido da Citron equipamentos de produo. Mas parte significativa de seu legado continua na ativa. A fbrica produziu mais de 25000 veculos no total.





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