
Quem tem um Soul deve estar preparado para interagir intensamente com o mundo. Motoboys, taxistas, homens e mulheres de todas as idades ao volante de modelos das mais variadas categorias não se intimidam: no semáforo fechado dão duas buzinadinhas, pedem para abaixar o vidro e perguntam o nome do carro e quanto custa. Respondo que é o Soul, da Kia. Eles e elas vão embora com um sorriso típico de criança que acompanha com os olhos um brinquedão sobre rodas passando ao seu lado. O Soul é lúdico, carismático e atraente.
Ficou no pátio da fábrica de Gwangju a versão de entrada, que só deverá chegar por aqui a partir do segundo lote, em outubro (esta reportagem foi publicada na edição de julho de 2009 da QUATRO RODAS). Ou seja, num primeiro momento os preços começam em 55 900 reais, já com freio a disco nas quatro rodas com ABS e rack de teto, além de alguns mimos menores, como tomadas de 12 volts no console e no porta-malas e rede porta-revistas no encosto nos bancos dianteiros, entre outros. Ar-condicionado, direção elétrica, airbag duplo, som e trio elétrico acompanham o Soul desde a versão mais simples. O modelo cedido para teste é o mais completo, com acréscimo de câmera de vídeo para auxílio de manobras em ré, retrovisor interno eletrocrômico, volante e alavanca de câmbio com revestimento de couro e rodas de liga leve aro 18. Tudo por 59 900 reais. O câmbio automático de quatro marchas eleva o preço em 5 000 reais e só não será oferecido no acabamento mais simples.
Onde a banda toca
Dar sobrenome às versões seria uma boa solução para auxiliar o consumidor. Não espere um desempenho surpreendente do Soul, que virá exclusivamente com motor de quatro cilindros 1.6 16V a gasolina de convincentes 124 cv — em nosso mercado a potência de motores flex similares gira em torno de 113 cv, quando abastecidos com álcool. Na pista o coreano acelerou de 0 a 100 km/h em 10,9 segundos, uma marca melhor do que a registrada pelo seu principal concorrente, o EcoSport FreeStyle: 12,8 segundos. A grata surpresa está no excelente nível de consumo urbano, 11,1 km/l. A marca surpreendeu até nosso experiente assistente de testes, Jorge Luiz Alves: “Achei o número tão positivo que refiz a medição. A primeira deu 11,08 e a segunda 11,12 km/l”. Mesmo com apetite moderado, o Soul não chega a ter o custo por quilômetro rodado de um flex rodando com álcool, mas já é bem atraente. Nas provas de frenagem, os largos pneus 225/45 aro 18 também fizeram bonito: de 120 km/h à imobilidade, percorreu 61,5 m, 11,6 a menos que o EcoSport, com 73,1. Também assina essa boa performance o ABS com EBD. Mas, se as enormes rodas incrementam o visual e a largura da banda aumenta a aderência nas paradas, o perfil reduzido sacrifica o conforto ao rodar sobre piso mal conservado. Um buraco maior no caminho também causa desconforto no bolso: cada pneu custa, em média, 900 reais.
Com um longo curso, a regulagem de altura do banco pode colocar o motorista em posição de mirante. A direção regulável apenas verticalmente poderia ter também ajuste de profundidade. Avaliar a cabine de maneira mais meticulosa mostra que a Kia foi ao mesmo tempo detalhista e displicente ao equipar o Soul. Mostrou capricho ao colocar um gancho para cabide no encosto do banco do passageiro, mas se esqueceu da iluminação no porta-luvas e junto aos para-sois com espelho. Adotou o opcional de câmera traseira com tela camuflada no retrovisor interno eletrocrômico, mas deixou pra lá o computador de bordo e a regulagem de intensidade de iluminação do painel. Os painéis de portas não trazem 1 centímetro de tecido sequer. São inteiros de plástico, com algu mas variações de textura. Eles abrigam os alto-falantes em posição elevada, acima das pernas, o que colabora para uma ótima distribuição sonora pela cabine. O rádio tem comandos no volante e entradas auxiliar e USB. Conecte seu iPod nessa porta e acesse sua coleção de músicas operando os botões do aparelho do carro — as informações são mostradas no painel. Sem proteção emborrachada, o porta-objetos à frente das entradas auxiliares do som não é o melhor lugar para apoiar o seu player. Infelizmente o problema se repete em todos os porta-trecos da cabine.
Com 4,11 m de comprimento, o Soul é 13 cm mais curto do que um EcoSport, mas tem 2,55 m de entreeixos, contra 2,49 do Ford. Com essa construção somada à carroceria larga, o coreano oferece uma cabine muito espaçosa. Atrás, o piso central é pouco ressaltado e o encosto, bipartido. Este vem com três apoios de cabeça tipo vírgula que se integram ao banco para não atrapalhar a visão quando fora de uso.
O porta-malas não tem tampão superior, mas traz quatro botões de fixação da rede elástica que acompanha o Soul — exceto na configuração básica. Retire a prancha dobrável que cumpre o papel de piso e o porta-objetos de isopor abaixo dele e encontre o estepe. É na verdade uma roda de emergência aro 16 calçada com um pneu 125/80 calibrado com 60 libras. No perfil há avisos para utilização somente em caráter temporário e em velocidade máxima de 80 km/h.
Em dezembro do ano passado, durante nosso primeiro contato com o Soul, a Kia divulgou que o modelo estrearia com um plano de personalização radical, similar ao adotado nos mercados americano e europeu. “Teremos kit de suspensão mais firme, chip de potência para motor, interior colorido e adesivos para a lataria”, disse, naquela época, Dino Arrigoni, diretor de assistência técnica. Agora, depois de uma série de clínicas com potenciais compradores, a marca desistiu da ideia. “Notamos que o brasileiro não se identifica com certos tipos de acessório. Por ora engavetamos os planos iniciais”, diz Ari Jorge, diretor de vendas. Ainda bem, pois o Soul já deu provas de que não precisa ser colorido por dentro nem exibir tatuagens na carroceria para atrair olhares. Qualquer coisa além de suas belas formas seria overdose.
DIREÇÃO, FREIO E SUSPENSÃO
A direção assistida eletricamente é muito leve nas manobras. O problema é que essa suavidade não diminui com a velocidade, cansando o motorista em longos trechos rodoviários. Os freios são exemplares.
★★★★
MOTOR E CÂMBIO
Recém-nascido, o 1.6 16V chega encarando até os concorrentes flex, que podem trabalhar com álcool. E o melhor: faz isso com baixo nível de consumo urbano.
★★★★
CARROCERIA
O teto é recheado de material fonoabsorvente e isso mantém o som de chuva do lado de fora. As portas têm guarnições duplas. Os para-lamas abaulados se fundem com as linhas retas sem chocar.
★★★★
VIDA A BORDO
O único vidro um-toque é o do motorista, só para descer. Falta computador de bordo e até um simples acionamento automático da trava das portas.
★★★
SEGURANÇA
A versão básica terá airbag duplo de série, mas se é para pensar em segurança, fique com a intermediária, que traz ABS e um bom pacote de mimos por 4 400 reais a mais.
★★★★
SEU BOLSO
A versão topo, igual a avaliada, é garantia de diversão. Vai incomodar outros carros de imagem, como EcoSport FreeStyle e Sandero Stepway.
★★★★
OS RIVAIS
EcoSport FreeStyle 1.6 8V

Apesar do estilo mais jipinho, é o grande alvo do Soul. Custa o mesmo que o coreano Soul.
PT Cruiser 2.4 16V

É outro carro de imagem. Esteve à beira da morte, mas viverá por mais um ano, segundo a Fiat.
VEREDICTO
Menos SUV que um EcoSport e menos minivan que um PT Cruiser, o Soul é desobrigado de oferecer as prestações típicas dessas categorias. Bom em custo/benefício e cheio de estilo, deve superar a expectativa da Kia de vender 3 000 carros em 2009.




