
Como mais de 90% dos atuais donos de Eco têm a versão 1.6 XLS, basta entregar algo diferente na faixa de preço que era ocupada por ele. Assim se fez: os modelos 1.6 XLT (a versão superior) ficaram de 1 800 a 2 700 reais mais baratos. A Freestyle, que era derivada da XLS, migrou para a XLT sem aumento de preço. E o modelo com tração 4x4, uma opção de poucos (1%), ganhou redução de cerca de 6 600 reais. Era mais caro que o Mitsubishi TR4, agora ficou mais barato. Certo, mas você é um novidadeiro radical e não vai se encantar com uma coisa que já existe só porque ela baixou de preço, né? A Ford pensou nisso também. E lança o Eco Sport 2.0 16V Automático, por preços entre 60 860 (na versão XLS) e 67 070 reais (XLT com bancos de couro). No meio, a "nossa" XLT, de 64 480 reais.
Liberdade é...
"Não é o EcoSport em versão automática", diz Antônio Baltar Júnior, gerente de marketing, antes de recitar a frase da campanha publicitária: "É o câmbio automático em versão EcoSport". Gostou do slogan? Agora imagine-se como um engenheiro que o recebeu como orientação técnica. "Eles resumiram ainda mais, na palavra 'liberdade'", afirma Klaus Mello, supervisor de engenharia da Ford. O que nos leva a uma questão filosófica: o que é liberdade?
"A gente traduziu em parâmetros técnicos que o carro teria de atingir", diz Mello. Alguns têm a ver com qualquer EcoSport, como a visão panorâmica do trânsito (o motorista senta a 67 centímetros do asfalto) e o vão livre de 20 centímetros. Outros são específicos dessa versão automática, como retomar de 40 a 80 km/h (equivalente a entrar numa avenida) em 6,3 segundos e subir uma rampa com 30% de inclinação (padrão mineiro de ladeira íngreme) com cinco pessoas a bordo e tanque cheio. "O consumidor não saberia precisar em números, mas é isso que ele espera de um carro valente", diz Rodrigo Lourenço, gerente de produto. "A versão automática não podia parecer um carro acomodado." A gente dirigiu o EcoSport na rua, levou para o campo de provas e pode atestar: o carro é esperto, sim, apesar de não ter a última palavra em câmbio automático. São quatro marchas (Honda Civic e Peugeot 307 têm cinco) sem borboletas (Civic) ou Tiptronic (Renault Mégane e 307). Pelo menos traz a redução de quarta para terceira marcha (overdrive/ off) num botão separado, jeito prático de usar o comando mais recorrente. A simplicidade do câmbio ajuda a baixar custos e descomplica a vida do dono de EcoSport que nunca dirigiu um automático, público que deve responder por boa parte das vendas. A Ford brinda os novatos com conversor de torque e corretor de marcha lenta ajustados para o carro não descer para trás em ladeiras, mesmo que esteja com três pessoas a bordo. Basta deixar o câmbio em Drive. O sistema de freio foi retrabalhado e ganhou discos e pastilhas maiores, porque será mais exigido num carro assim. O pedal ficou um pouco duro e na cidade isso pode ser cansativo, mas permite dosar a frenagem com precisão. Ruim mesmo é a falta de apoio na caixa de roda, falha tradicional dos EcoSport que fica mais evidente nesta versão. Apoiar o pé esquerdo bem longe e esquecer que ele existe é a melhor maneira de não pisar no freio pensando que é a embreagem.
Puxar o freio de mão ficou 25% mais leve com a nova alavanca que a Ford adotou na linha Fiesta/ EcoSport, sem alarde, há alguns meses. Quem comprou um Eco há três anos (nós fizemos isso, para o teste de Longa Duração) poderá sentir que o acabamento dos modelos mais recentes melhorou. Agora o isolamento acústico foi reforçado no painel corta-fogo, nas laterais traseiras e no assoalho. A Ford afirma que o nível de ruído a 100 km/h baixou 2 dB; conosco, também baixou. Os coxins também mudaram, talvez em resposta aos casos de motor e câmbio que caíam no chão (assunto da seção Autodefesa em dezembro de 2005).
"Uma coisa diferente"
O motor Duratec 2.0 16V e o câmbio automático FN são os mesmos usados no Focus. Há diferenças como o coletor de ar, que agora é um caixão em cima do comando de válvulas, e o módulo da injeção eletrônica, reajustado para entregar curva de torque mais uniforme em detrimento da potência (138 a 140 cv). O Eco acelera relativamente rápido (0 a 100 km/h em 11,7 s), assim como bebe gasolina (12 km/l na estrada). Para aumentar a autonomia, a Ford trocou o tanque de toda a linha 4x2, de 45 para 54 litros. Melhor ainda se deixassem o motor mais econômico, como aqueles usados por Honda Civic e Toyota Corolla. Uma das ambições da Ford é roubar público dos dois sedãs japoneses, que oferecem câmbio automático pelo mesmo preço que o EcoSport. "Se vier atrás de requinte, pode se decepcionar um pouco. O Eco é uma coisa diferente", diz Rodrigo Lourenço. Nunca é demais lembrar que aquela gente que se encantou com o novo Corolla no lançamento, em agosto de 2002, também está folheando os classificados...
Vida fácil
R$ 65 210 - O EcoSport XLT ganha câmbio automático pelo preço do manual. E com ABS e airbag duplo de brinde.
SUSPENSÃO
Foi endurecida, mas isso não lhe dá liberdade de tratá-lo como um carro baixo.
Avaliação: bom
AO VOLANTE
A falta de apoio para ombros e pé esquerdo fazem o EcoSport parecer mais instável do que é. Ajuste de distância do volante e freios mais assistidos não iriam mal, mas a vista privilegiada do trânsito é ótima.
Avaliação: bom
CARROCERIA
Ainda é o carro que todo concorrente admite que gostaria de fabricar - e passou a transmitir mais solidez com as melhorias no isolamento acústico.
Avaliação: muito bom
MOTOR E CÂMBIO
Não são a última palavra no mercado brasileiro, mas fazem o EcoSport andar bem e nem gastar tanto.
Avaliação: muito bom
MERCADO
Está entre os dez mais vendidos desde o lançamento. A versão automática não tem concorrentes diretos (Picasso? Fit? Fielder?) e vem a preço interessante.
Avaliação: muito bom
Bolso
O XLS automático é mais barato: 60 860 reais. O novo tanque deu mais 108 quilômetros de autonomia na estrada.
Preço do carro testado: 64 480
Garantia: 1 ano sem limite de km
Número de concessionárias: 388
Consumo cidade (km/l): 9,4
Consumo estrada (km/l): 12
Tanque de combustível/autonomia (l)/(km): 54 / 648
Conforto
O CD player tem entrada auxiliar para iPod e lê MP3.
Ar-condicionado/direção hidráulica: s / s
Rodas de liga leve/pintura metálica: s / o
CD player/comandos no volante: s / -
Vidros/travas elétricos: s / s
Espelhos/teto solar elétrico: s / -
Banco traseiro rebatível 2/3 / 1/3: s
Câmbio automático/cruise-control: - / -
Computador de bordo/bancos de couro: - / o
Segurança
ABS/BAS/EBD: s / - / s
Controle de tração/estabilidade: - / -
Airbags (frontais/laterais/cabeça): s / - / -
Encosto de cabeça/cinto de 3 pontos para 5º passageiro: - / -
Alarme/imobilizador/brake-light: s / s / s
Desempenho
O EcoSport 2.0 16V com câmbio manual (março de 2003) foi 2 segundos mais rápido e, em ponto-morto, 1,4 dB mais ruidoso.
0-100 km/h (s): 11,7
0-1000 m (s): 33,7
D 40 a 80 km/h (s): 5,2
D 60 a 100 km/h (s): 7,2
D 80 a 120 km/h (s): 8,7
Velocidade máxima (km/h): 164
Frenagem 120/80/60 km/h a 0 (m): 58,9 / 27,2 / 15
Ruído interno PM/RPM máx (dB): 41,3 / 66,8
Ruído interno 80/120 km/h (dB): 61,7 / 66,9
Velocidade real a 100 km/h (km/h): 96,9
Ficha técnica
Motor e câmbio são os mesmos do Focus. Mas lá ele rende 140 cavalos.
Motor/posição: dianteiro / transversal
Construção/cabeçote/cilindrada (cm3): 4 cilindros em linha / 16 válvulas / 1 999
Diâmetro/curso (mm): 87,5 / 83,1
Taxa de compressão: 10:1
Potência (cv a rpm): 138 a 6 000
Torque (mkgf a rpm): 18,5 a 4 250
Câmbio (tipo/marchas/tração): automático / 4 / dianteira
Direção (tipo/nº voltas): hidráulica / 3 voltas
Suspensão dianteira: independente tipo McPherson
Suspensão traseira: eixo de torção
Freios (tipo/dianteiro/traseiro): hidráulico / disco ventilado / tambor
Pneus: 205/65 R15
Dimensões
Comprimento/entreeixos (cm): 423 / 249
Altura/largura (cm): 163 / 173
Porta-malas (litros): 292
Peso (kg): 1 300
Peso/potência (kg/mkgf): 9,4
Peso/torque (kg/mkgf): 70,3
Diâmetro de giro (m) 10
Os Rivais
- Mitsubishi Pajero TR4: A versão automática a gasolina custa 76 590 reais, bem mais que o EcoSport. Tem tração 4x4 e mais aptidão para o forade- estrada, mas perde em conforto no asfalto. Dá direito a brincar de jipeiro nos (ótimos) ralis da Mitsubishi.
- Chevrolet Tracker 4x4: Antes de o EcoSport pensar em nascer, era o Suzuki Vitara quem reinava como jipinho urbano. Ganhou versão Chevrolet (Tracker) e os dois saíram de linha. Agora o Tracker voltou, com motor a gasolina 2.0 16V, tração 4x4 e preço apetitoso: 58 990 reais. Mas falta o câmbio automático.
Veredicto
O EcoSport em versões 2.0 16V nunca vendeu muito, mas o automático é uma tentativa mais promissora que as 2.0 manual (perde em custo-benefício para a 1.6) e 2.0 4WD (serve para firmar imagem da linha, nada mais). O desempenho e a evolução do acabamento lhe dão direito de mirar num público mais exigente.




