
"Em busca de novos desafios." A expressão é um clássico nos e-mails de quem está procurando emprego. A Renault encontrou um novo uso para o clichê e pretende conquistar uma vaga na lista de SUVs mais vendidos no Brasil. É cedo para dizer que o posto do EcoSport está em risco, mas o fato é que o Duster tem perfil para disputar vagas de garagem de quem pensa em recrutar o jipinho formado na Bahia.
A incursão da Renault é ousada, pois desde o lançamento do Eco, em 2003, a concorrência se limitou a lançar versões maquiadas de modelos convencionais. Na forma de utilitário esportivo compacto, o Duster briga de igual para igual na seara dos aventureiros urbanos. A novidade chega com seis configurações, duas opções de motores e duas transmissões. É o suficiente para encarar o SUV da Ford e incomodar o Hyundai Tucson. No entanto, o 4WD é só um chamariz, pois os Duster 1.6 (Expression e Dynamique) devem ser os campeões de vendas. "Acreditamos que o 4x4 terá cerca de 10% do mix", diz Gustavo Schmidt, vicepresidente comercial da Renault.
O Duster Dynamique 4WD é o topo da gama: vem com motor 2.0 e câmbio manual de seis velocidades. A primeira marcha tem relação reduzida, o que garante força extra para encarar terrenos difíceis. No dia a dia, é possível até sair em segunda. A tração no eixo de trás é acionada automaticamente e funciona sob demanda. Basta ativar o modo Auto por meio de um botão seletor. Sem interferência do condutor, um sistema eletro-hidráulico trava a embreagem do diferencial, distribuindo até 50% da força entre os eixos.
Uma das vantagens do Renault é não carregar o estepe na tampa do porta-malas, sem ceder à cosmética aventureira. No caso do 4WD, o diferencial traseiro exige que a roda sobressalente seja guardada dentro do maleiro, deixando 400 litros para bagagens. São 75 litros a menos que o 4x2, cujo pneu vai atrás do eixo traseiro, do lado de fora.
De origem romena, o Duster precisou de adaptações para o público brasileiro. A grade dianteira é exclusiva para a América Latina, assim como o para-choque traseiro, mais proeminente que o europeu. Os estilistas exageraram no uso de peças cromadas, presentes nos quatro lados do carro. É um recurso cansativo, cuja preferência dos consumidores vai e volta, como mania passageira.
O Duster divide com Logan e Sandero os componentes que o cliente não vê, como as máquinas dos vidros, mecanismos internos, motores elétricos e centrais eletrônicas. Mas a Renault levou o compartilhamento de peças a um novo patamar. Repare no vinco que marca as portas. O traço é idêntico ao do Sandero, e isso não é coincidência. As portas dianteiras são as mesmas para o hatch e o SUV.
Por dentro, mais semelhanças. O forro interno é comum aos três, com diferenças apenas nos padrões de cores e texturas. A manopla do freio de mão, a alavanca de seta, os limpadores do para-brisa e até os anacrônicos pinos para trancar as portas também se repetem. Tudo compartilhado.
Para o fabricante, a socialização facilita e barateia a produção. Para o consumidor, pelo menos em tese, o custo fica mais competitivo. Mas o preço do troca-troca de peças gerou um excesso de texturas nos plásticos da cabine, prejudicando o visual. Na lista de ausências estão a função um-toque dos vidros, aviso sonoro para alertar quem sai do carro e esquece os faróis acesos e um sensor de ré.
Os motores 1.6 16V só podem vir acompanhados da transmissão manual de cinco marchas. Se preferir o de 2 litros, o cliente pode escolher a caixa manual de seis marchas ou o câmbio automático de quatro velocidades. Apenas o 4x4 vem com reduzida e suspensão independente multibraços na traseira. Parte da mecânica 2.0 já foi utilizada no Brasil pelo sedã Mégane. Trata-se do mesmo bloco, mas a Renault afirma ter substituído 44 componentes do motor para elevar a taxa de compressão de 9,8:1 para 11,2:1. A medida foi necessária para queimar gasolina e álcool, o que também exigiu a inclusão de uma quinta válvula injetora de combustível.
Mesmo sem tradição no ramo aventureiro, a empresa aposta no bom currículo do Duster para vender 2 500 unidades por mês. Não é o suficiente para destronar o Eco, mas o objetivo é tomar o segundo lugar no ranking de vendas. Um boa meta para quem está começando na carreira.
VEREDICTO
Versão 4WD legitima o apelo off-road, mas, assim como o EcoSport, não terá preço convidativo. É valente nos pisos ruins e seu destaque é o sistema de tração automático.
TESTE - DESEMPENHO
0-100 km/h (s): 10,6
Velocidade máxima (km/h): 181*
3a 40 a 80 km/h (s): 5,1
4a 60 a 100 km/h (s): 7,7
5a 80 a 120 km/h (s): 12,7
80 a 0 km/h (m): 31,8
120 a 0 km/h (m): 69,6
consumo cidade (km/l): 5,7
consumo estrada (km/l): 8,2




