
Batizado com o nome de uma tribo nômade dos montes Zagros, no sudoeste do Irã, o Qashqai nasceu já cheio de responsabilidades: substituir de uma só vez o Almera (sedã e hatch), o sedã Primera e a minivan Tino, todos aposentados com sua chegada, e vender mais que os três juntos. Fazendo jus ao espírito irrequieto do antigo povo das montanhas, o objetivo do novo modelo é ser eficiente para a vida na cidade, confortável para viagens e valente nas estradas de terra. A Nissan quer, assim, transformá-lo em uma das principais estrelas de um segmento que não pára de crescer, o dos crossovers, veículos que mesclam o comportamento e o tamanho de um automóvel com a robustez e o estilo dos utilitários esportivos.
Seu porte e valentia para terrenos acidentados fazem dele um potencial concorrente para offroads compactos, como Toyota RAV-4 ou Suzuki Grand Vitara. Mas o conforto interno, o comportamento no asfalto e o bom nível de equipamentos o trazem para um ringue em que há carros urbanos, alguns campeões de venda, como o VW Golf e o Ford Focus. O novo Nissan deverá chegar ao Brasil no fim de 2008, produzido na fábrica de São José dos Pinhais (PR), com o mesmo objetivo de alavancar as vendas da marca no país. Por isso, fomos conhecê-lo de perto na França, num itinerário de 250 quilômetros pelos arredores de Paris, combinando rodovias, trânsito urbano e trilhas leves.
Filtro solar na cabeça
Visto por fora, o Qashqai parece uma versão compacta e mais moderna do Murano, montado na base do Maxima e vendido por aqui. Do lado de dentro é impossível não reparar no amplo teto envidraçado, revestido de filtro solar que bloqueia os nocivos raios UV. Achou iluminado demais? É só acionar eletronicamente o forro retrátil.
Outro destaque interno é o volante, com um bonito apoio de alumínio no centro. Sem precisar tirar as mãos, dá para acionar volume e sintonia do rádio, o telefone e o piloto automático. Um toque tecnológico é dado na hora da partida, feita sem a chave. Com um cartão com chip no bolso, as portas são destravadas automaticamente e o motor é acionado por um botão. Somado ao ar-condicionado e ao CD player de série, dá para afirmar que no que sito equipamentos esse Nissan agrada de imediato.
Além da posição de dirigir mais alta, ele herda das minivans a praticidade do interior, com diversos espaços para guardar objetos. No avantajado portaluvas de 14 litros cabem 15 latinhas de refrigerante, o console central tem espaço para oito CDs e há uma gaveta de 4 litros sob o banco do passageiro.
Os plásticos do painel são de boa qualidade, assim como os revestimentos, mas deixam uma dúvida no ar: será que eles não se transformarão em uma sinfonia barulhenta depois alguns meses na buraqueira das ruas brasileiras? Outra pedra no caminho do Qashqai é o preço que se paga por sua versatilidade. Na Europa, os quatro pneus Bridgestone Dueler que o equipam custam o equivalente a 1 500 euros, nada menos que 3 900 reais.
Esse crossover tem um espaço entreeixos generoso, de 2,63 metros, e carrega com todo conforto quatro passageiros mais espaço suficiente para um quinto um pouco mais apertado. Mesmo quem viaja no banco traseiro acomoda bem as pernas e mantém a cabeça afastada do teto. Para o motorista, há a vantagem de poder regular o volante em altura e profundidade. O porta-malas carrega 410 litros de bagagem, podendo subir para 1 500 litros ao se rebater o banco traseiro.
Para dar a partida no Qashqai, com o cartão eletrônico já no meu bolso, girei um pequeno seletor que fica no mesmo lugar da chave tradicional. Logo se ouvem os 140 cv do motor 2.0, o mais potente da família a gasolina. Há também uma versão 1.6 de 115 cv e duas a diesel, que não estarão disponíveis para os brasileiros. Na Europa pode-se escolher também o câmbio, um manual de seis marchas e outro CVT, continuamente variável. Há ainda a opção de tração nas duas rodas dianteiras ou nas quatro.
Pior que o EcoSport
Mesmo nessa versão 4x2, com câmbio manual, o modelo enfrentou estradas de terra ou trilhas mais leves sem passar nenhum sufoco durante nosso test-drive. Mas não espere demais dele no ambiente off-road, onde perderia até para um Ford EcoSport. O Qashqai tem 20 centímetros de altura do solo, ângulo de ataque de 19 graus e ângulo de saída de 30 graus - um Eco tem 22, 29 e 32, respectivamente. Mas, comparado com alguns 4x4 equivalentes, ele não faz feio na hora de acelerar. Segundo a Nissan, ele vai de 0 a 100 km/h em 10,1 segundos, melhor que o Toyota RAV4 (10,5 segundos) e o Honda CR-V (10,2). Mas é quase 1 segundo mais lento que o Golf alemão e o Focus, ambos com motorização equivalente. Seu consumo médio de 12,2 km/l de gasolina, ainda segundo a Nissan, também está longe de deixá-lo como referência no consumo quando comparado aos outros dois hatches, que são em média 15% mais econômicos.
O Qashqai mostrou uma direção com assistência elétrica firme e precisa no asfalto se comparado aos fora-de-estrada com que pretende disputar mercado, porém é menos agradável e ágil que seus concorrentes do segmento hatchback. No entanto, pesa a seu favor o câmbio manual fácil de manejar e a suspensão que reagiu bem a terrenos tão diferentes quanto asfalto úmido ou trechos de terra. A versão avaliada tinha ainda um acessório útil para um veículo desse tipo. Quando se engata a ré, uma câmera projeta imagens da traseira numa tela no meio do painel. Um alarme sonoro e visual ajuda a evitar aquelas batidinhas tão comuns e chatas durante uma baliza.
Ainda é cedo para afirmar que esse nômade será um sucesso de vendas, mas ele tem qualidades para conquistar consumidores com temperamento inquieto, que ora buscam o conforto para andar nas cidades, ora querem se aventurar fora do asfalto.
VEREDICTO
Um opção de estilo marcante para quem quer andar bem na cidade sem passar vergonha na terra.





Copyright © 2008, Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados.