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Carros | Impressoes ao dirigir
Ferrari 612 Scaglietti
Maio 2004

Ferrari 612 Scaglietti

Dupla face: o superesportivo da ferrari oferece desempenho, luxo e até conforto para quatro ocupantes

Por Paulo Campo Grande, de Modena, Itália / fotos: Marco de Bari
Lista de matérias por data:

ALTERAR O TAMANHO DA LETRA  

Se é mesmo verdade a história de que Enzo Ferrari não instalava rádio em seus carros para que o motorista pudesse ouvir o som do motor sem interferências, a esta hora o comendador deve estar se revirando no túmulo. A nova Ferrari 612 Scaglietti, que está chegando às lojas da Europa agora, vem com um sistema de som inteligente que aumenta o volume toda vez que identifica um ruído de fundo. Esse "barulho" pode ser o ronco do próprio motor ou qualquer outro "distúrbio", como diz a Bose, fabricante do equipamento. Para isso, o sistema conta com um microfone, próximo ao retrovisor interno, capaz de perceber qualquer rumor. Ou seja, se quiser, o motorista pode ouvir La Traviata de Verdi em alta-fidelidade sem se incomodar com o ronco do motor. É só optar entre duas obras-primas.

Pessoalmente, sem desmerecer o ótimo som, eu preferi ouvir a sinfonia dos metais do V12. Durante o test drive com a 612, o rádio permaneceu desligado a maior parte do tempo. O sofisticado sistema de som é apenas um sinal de que essa Ferrari contraria a tradição, no entanto. A 612 tem uma lista de itens até há pouco tempo impensáveis nos esportivos de Maranello. Traz ar-condicionado com regulagem independente para os dois lados da cabine, bancos com ajustes elétricos, sistema Isofix para prender cadeirinhas de bebê e até controle eletrônico de estabilidade. Esta é a primeira vez que um recurso como esse - que a Ferrari chama de CST (do italiano controllo stabilità e trazione) - aparece em um carro da marca.

A 612 Scaglietti recebeu esse nome em homenagem ao artesão Sergio Scaglietti, que conquistou uma boa reputação como construtor de carrocerias de alumínio. O 612 vem do motor: 6.0 de 12 cilindros. Trata-se de um modelo GT 2+2, com motor dianteiro e tração traseira, que poderia ser chamado de "GT Quattro Posti" (quatro lugares) porque consegue acomodar quatro adultos, enquanto uma carroceria 2+2, como todo mundo sabe, leva no máximo dois adultos e duas crianças.

Na distância entre-eixos, a 612 mede 2,95 metros, ou seja, é 35 centímetros maior que sua antecessora, a 456 GT, esta sim um 2+2. O espaço interno traseiro não se compara ao de um sedã, longe disso. Mas as pessoas conseguem se acomodar sem dificuldade. Os bancos apóiam bem o corpo e não falta espaço para a cabeça e os pés de uma pessoa com 1,71 metro de altura, como eu. O acesso é facilitado pelo sistema Easy-entry, que movimenta o banco dianteiro para a frente. A única coisa que poderia ser melhorada para quem viaja atrás é a altura do assento. Ele fica em um nível muito abaixo das vigias traseiras, o que dificulta a visão externa e faz com que os joelhos fiquem em posição mais alta que o quadril.

O motorista só precisa de um tempo para se acostumar com a haste dos indicadores de direção, que fica quase escondida atrás da alavanca de redução de marchas, do lado esquerdo do volante. A ampla área do pára-brisa elimina aquela sensação de claustrofobia que persegue a maioria dos superesportivos. E os retrovisores garantem a visibilidade para trás. No porta-malas cabem 240 litros, o que equivale ao volume transportado por um modelo compacto, como um Mille, por exemplo.

A 612, que custa 220000 euros, na Itália, foi feita sob medida para disputar a preferência dos endinheirados que pensam em carros como Bentley Continental GT e Aston Martin Vanquish, modelos GT top de linha.

Segundo o engenheiro Carlo Carcioffi, responsável pelo desenvolvimento do chassi, o objetivo do projeto F 137, nome código da 612, era "fazer um carro que rompesse com o passado, por suas características de desempenho e conforto, e abrisse uma via para uma nova geração das Ferrari de Gran Turismo". Pelo visto, as metas foram alcançadas. Depois da 612 ninguém mais vai poder dizer que as Ferrari são carros que não servem para se usar no dia-a-dia. A 612 Scaglietti pode trafegar em uma cidade como São Paulo - com seu trânsito congestionado e suas ruas esburacadas - sem traumas. Na região de Modena, pegamos o tráfego do fim de tarde e passamos por quebra-molas sem sofrimento. Em situação semelhante, o Lamborghini Murciélago - que só anda com o giro do motor elevado - e o Mercedes-Benz SLR McLaren - que roda "grudado" a apenas 12 centímetros do chão - não se sairiam tão bem.

No que diz respeito ao desempenho, a 612 supera a 456 GT. Segundo a fábrica, a 456 faz de 0 a 100 km/h em 5,2 segundos e atinge 300 km/h de velocidade, enquanto a 612 acelera de 0 a 100 km/h em 4,2 segundos e chega aos 320 km/h.

O motor é o mesmo da Ferrari 575 Maranello, com algumas modificações. De acordo com o engenheiro Dario Sacco, responsável pelo desenvolvimento do V12, houve mudanças no gerenciamento eletrônico, ligeiro aumento da taxa de compressão (de 11:1 para 11,2:1) e troca dos coletores de admissão e escape. Essas partes foram redesenhadas para facilitar o fluxo de gases.

Com o rádio em seu devido lugar (no console e desligado), o V12 de 5748 cm3 produz o som metálico característico das Ferrari e empurra o carro com a força de Hércules. Pisando forte, o motorista precisa se segurar ao volante e firmar o pescoço, porque a cada troca de marcha ele é empurrado para trás, como se recebesse um impulso inesperado. Nessa hora, se ainda havia alguma dúvida sobre o temperamento dessa Ferrari de luxo, a 612 revela sua alma esportiva.

Mas quem decide como a 612 deve se comportar é o motorista. Ela pode satisfazer tanto quem só quer desfilar, ouvindo música e apreciando a paisagem, quanto aqueles que gostariam de vê-la em um autódromo. Segundo a fábrica, em 90% dos casos a 612 será equipada com o novo câmbio F-1A, igual ao da versão avaliada. Esse sistema permite o uso nos modos automático ou manual, com as trocas feitas por meio de alavancas localizadas junto ao volante. De acordo com a Ferrari, esse sistema é mais rápido que o F-1 presente nos outros modelos da marca, graças à sua maior capacidade de processamento.

Os 10% dos clientes que devem optar pelo câmbio manual não querem saber de mais concessões para o conforto, além das que a fábrica já fez. Mas, no caso dos outros 90%, o que vai separar o bon vivant do piloto estará ao alcance da mão direita. Mais precisamente, depende apenas de um toque com o polegar, em uma tecla que fica no lado direito do volante, identificada com a palavra Sport. Existem ainda outras três teclas no volante, que servem para ligar e desligar o controle de estabilidade (CST), acionar o computador de bordo (Mode) e selecionar as informações apresentadas no mostrador luminoso do painel (Disp).

Quando a opção Sport está desligada, o câmbio e a suspensão da Ferrari 612 privilegiam o conforto. As trocas de marcha ocorrem de forma suave e sem pressa e a suspensão fica macia, como a de um sedã Mercedes-Benz Classe C, por exemplo. Com o modo Sport acionado (aparece uma luz indicadora no painel), a 612 se transforma em um carro de corrida. O câmbio fica impaciente. Se está no modo automático, realiza trocas freqüentes. No manual, implora para que o motorista se agite. Nos dois casos não existe suavidade nas operações. Sempre que necessário, o sistema se encarrega de fazer o punta-taco (provocando um ronco que não tem preço). Essa manobra consiste em elevar o giro do motor antes das reduções para evitar danos mecânicos (nos sistemas convencionais, deve ser feita pelo motorista, pisando no freio e no acelerador ao mesmo tempo). Se, ao se aproximar de um semáforo, o motorista se esquecer de reduzir as marchas, o sistema assume o controle. Mas nas acelerações ele não interfere. Deixa o giro crescer até o corte do motor, que ocorre em 7250 rpm.

A suspensão, por sua vez, também se comporta de forma diferente no modo Sport. Os amortecedores, que têm sua rigidez controlada eletronicamente, tornam-se mais firmes, endurecendo o conjunto de suspensão formado por braços duplos triangulares, nos dois eixos.

Durante nosso test drive, com essa calibragem esportiva, a 612 demonstrou um comportamento bastante neutro em curvas. A divisão de peso entre os eixos é quase perfeita - 46% na dianteira e 54% na traseira - e os pneus Pirelli PZero Corsa (245/45 ZR18, na frente, e 285/40 ZR19, atrás) também ajudam. Quando eu já estava apoiando o joelho na lateral do console, para não sair do banco, o carro ainda descrevia a trajetória com a mesma precisão dos movimentos de um mestre de tai chi chuan. Os freios poderiam ter respostas mais imediatas, como os do Porsche Carrera GT, para aumentar a confiança do motorista no carro.

O sistema de som da marca Bose só foi avaliado no final do test drive, já no caminho de volta para a fábrica da Ferrari. A reprodução é de qualidade. A plenos pulmões, não há distorções e é possível reconhecer cada um dos instrumentos executados na gravação. Além do rádio, tínhamos a bordo música para todos os gostos, de Pavarotti a Jamiroquai. Mas nem mesmo a impecável qualidade de reprodução digital supera uma apresentação ao vivo - no caso, a do V12.

Ficha técnica

Motor
Dianteiro, longitudinal, V12, 48 válvulas
Cilindrada: 5748 cm3
Diâmetro x curso: 89 x 77 mm
Taxa de compressão: 11,2:1
Potência: 540 cv a 7200 rpm
Torque: 60 mkgf a 5250 rpm

Câmbio
Automático tipo F-1, 6 marchas, tração traseira e diferencial autoblocante
I - 13,2:1; II - 9,1:1; III - 6,5:1; IV - 4,9:1; V - 3,9:1; VI - 3,2; Ré 9,9

Carroceria
Alumínio
Dimensões:
Comprimento, 490 cm; largura, 196 cm; altura, 134 cm; entre-eixos, 295 cm
Peso: 1840 kg
Peso/potência: 3,4 kg/cv
Peso/torque: 31,2 kg/mkgf
Volumes:
Porta-malas, 240 l;
tanque de combustível, 108 l

Suspensão
Independente, tipo double whishbone, nos dois eixos, com braços de alumínio e amortecedores com rigidez controlada eletronicamente

Freios
Discos ventilados nas quatro rodas, com ABS e CST

Direção
Hidráulica, do tipo pinhão e cremalheira

Rodas e pneus
Rodas de alumínio, aro 18 na dianteira e 19 na traseira;
Pirelli PZero Corsa 245/45 ZR18 (diant.) e 285/40 ZR 19 (tras.)

Principais equipamentos de série
Ar-condicionado com ajuste independente esquerda/direita, airbags de duplo estágio, computador de bordo, trio-elétrico, sistema de som Bose com rádio, CD player e sistema de navegação por satélite, sensor de chuva, sensor de pressão dos pneus, Isofix, sistema Easy-entry e faróis de xenônio

Preço
220000 euros (na Itália)





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