
Controle de largada
Diferentemente da Ferrari Enzo, o Veyron não é um carro de corrida disfarçado. Ele é o maior GT, um cupê construído tanto para o conforto quanto para a velocidade. O surpreendente espaço do cockpit é um ambiente luxuoso feito com os melhores materiais: couro macio, camurça mais macia ainda, carpetes de alta qualidade e bastante alumínio belamente detalhado e cuidadosamente fabricado.
No console central estão os controles do ar-condicionado e um modesto CD player de disco único. Um botão de "chamada recebida" no topo sugere que há um telefone escondido em algum lugar nesse cenário sofisticado, e até notamos um sistema de navegação básico na extremidade direita do espelho retrovisor. Agrupados em volta da alavanca de câmbio estão três botões chamados "controle de saída", "partida do motor" e "ajuste de dirigibilidade".
"O Veyron é um puro-sangue, não um mostruário de apetrechos eletrônicos", afirma Schreiber. "Por isso deixamos de fora tudo que pudesse distrair o motorista, como uma sistema de navegação complicado ou um computador de bordo complexo." Dirigir a 400 km/h é uma experiência quase surreal, uma excursão a um mundo diferente. Nessa velocidade, em que cerca de 111 metros são percorridos em 1 segundo, o volante trabalha sem qualquer assistência; o motor está se aproximando de 6500 rpm em sétima marcha e a pressão do pneu sobe de 3 para 3,5 bar em 15 segundos. "Aumentar a velocidade máxima em 1 km/h iria requerer 8 cavalos nesse ponto."
Esse outro mundo, que fica além da barreira dos 400 km/h, foi idealizado por Ferdinand Piech. É a derradeira expressão do trabalho de uma vida. Quando estava na Porsche, ele demoliu seu rivais com o lendário 917; na Audi, humilhou a concorrência com o Quattro; na VW, pagou preço de banana pelo nome Bugatti para que pudesse realizar o sonho que você vê aqui, lançando um padrão de desempenho difícil de ser batido.
Inicialmente, Piech queria um motor maior, com 18 cilindros. Mas, embora os engenheiros tenham convencido o homem que unir dois motores W8 de 4 litros seria suficiente, ele se recusou a mudar seus critérios de performance. Se o carro não fosse comportar 1000 cavalos e chegar a 400 km/h, ele não seria feito. Os engenheiros não estavam certos de conseguir tal façanha, especialmente num carro concebido mais para o estilo que para o desempenho. O conceito original foi desenhado por Giugiaro, mas foi Helmut Warkuss, da VW, quem criou as linhas finais. Piech adorou o resultado, apesar de suas falhas aerodinâmicas. Ele estava confiante no trabalho de Schreiber e seu time de 80 especialistas altamente qualificados reunidos na sede da Bugatti, em Wolfsburg.
"No começo era puro caos", lembra o presidente da Bugatti, Thomas Bscher. "Contamos mais de 600 problemas com os requerimentos básicos do projeto. A questão da refrigeração era um grande problema a ser resolvido e a potência prometida só existia no papel." Schreiber lembra que nem tudo correu de acordo com o planejado. Foram necessárias alterações no chassi para garantir maior rigidez, no sistema de freios original Brembo e no motor. "Quando entrei para a Bugatti no outono de 2003, as bombas de gasolina mal levavam combustível suficiente para 650 cavalos. Quando o motor estava funcionando bem, testes de velocidade máxima eram sempre um grande risco. Então tivemos que começar do início, desenvolvendo um sistema de controle de alimentação por corrente iônica, assim como desenvolver bombas de gasolina mais potentes. Ao mesmo tempo, o carro teve que voltar ao túnel de vento - acumulava tanto arrasto que o motor nem atingia a velocidade normal. Como resultado, mudanças foram feitas na parte inferior da carroceria, no difusor traseiro, nos pára-lamas e nas tomadas de ar frontais."
Mais por vir
Para a Bugatti, assim como para a maioria de nós mortais, a visão do Veyron correndo é uma experiência emocional. A companhia nunca vai recuperar o investimento - mesmo vendendo-o a 1 milhão de euros a unidade. Isso não importa. O fato é que eles mudaram a face do mundo do automóvel para sempre e a história vai se lembrar deles por isso.
No entanto, engana-se quem considera que a missão está cumprida. A Bugatti não vai parar no Veyron. Logo veremos derivados: um SuperSport leve e uma versão com teto retrátil ou removível. Já que o motor W16 e a caixa de marchas DSG de sete velocidades foram grandes investimentos, podem ser usados no substituto do Veyron, que deve ser um cupê ou sedã de motor dianteiro.
A longo prazo, a Bugatti adoraria fazer um carro leve. "Uma idéia é criar um esportivo relativamente compacto com motor central, talvez equipado com um VR6 biturbo", diz Bscher. "Como alternativa, podemos encontrar um V8 adequado para um belo cupê de motor dianteiro, inspirado nas linhas do lendário Type 53".
Ótimo. Mas antes, vamos celebrar a poderosa conquista que é o Veyron 16.4.
| Os desafios técnicos |
| Motor: O bloco comporta dois dos motores V da Volkswagen de ângulo estreito e eficientes no espaço, do tipo visto primeiro no Golf VR6 quase 15 anos atrás. É tão pequeno o ângulo entre as bancadas no V que só um cabeçote basta para cobrir ambas. Nem parece um W. |
| Pneus: Fazer um pneu que suporte 400 km/h e ao mesmo tempo rode em velocidades "civilizadas" é uma equação difícil. Ficou a cargo da Michelin desenvolver pneus runflat para o Veyron. Em altas velocidades, a pressão do pneu aumenta de 3 para 3,5 bar para diminuir a resistência de rolagem. |
| Transmissão: Por que o Veyron quebrou tanto enquanto era testado no centro de pesquisa MIRA, na Inglaterra? Os câmbios DSG, usados por todo o grupo VW, foram desenvolvidos e produzidos pela fornecedora inglesa Ricardo, assim como o de sete velocidades do Veyron. Mas administrar 127,1 mkgf de torque era algo inédito para a fábrica. A Bugatti afirma que "a caixa é capaz de dar conta de 25,5 mkgf além dos que o W16 produz". A Ricardo entrou no projeto em 2000 e trabalhou em todo o sistema de tração integral. |
| Refrigeração e aerodinâmica: Livrar-se do calor gerado por um motor projetado para mover 2 toneladas de metal a um terço da velocidade do som e ainda montado no meio do carro, foi uma enorme dor de cabeça. Dutos de refrigeração separam o fluxo do ar, que, com a força gravitacional criada pelos spoilers, ameaçaram não deixar o Veyron alcançar a meta de 400 km/h. O carro atual tem um grande spoiler retrátil que se move por completo para atingir a velocidade máxima, cortando o arrasto e a força gravitacional quando o motorista vira a "chave de velocidade". |
| Agenda problemática |
| 1998-1999: A Volkswagen adquire a marca Bugatti e tem uma idéia... 1998-1999: EB118 e EB218 são feitos, mas não mostrados. Alegação: arquitetura interna OUTUBRO DE 1999: O Salão de Tóquio apresenta o primeiro protótipo oficial - EB 18/3 Chiron, com 18 cilindros. Os engenheiros não parecem estar muito convencidos SETEMBRO DE 2000: O EB 16/4 é mostrado no Salão de Paris, com dois cilindros a menos. Os engenheiros ficam um pouco mais felizes PRIMAVERA DE 2001: A VW anuncia que a produção do carro tem início a partir de 2003 e fala em 987 cavalos. Nasce o EB 16.4 PRIMAVERA DE 2002: A VW anuncia a velocidade máxima e preço de 1 milhão de euros e o protótipo vai para a pista JUNHO DE 2003: Carro corre em Laguna Seca em frente a potenciais compradores JULHO DE 2003: Pischetsrieder, cancela a apresentação três dias antes da data marcada SETEMBRO DE 2003: O presidente da Bugatti, "Yogi" Neumann, sofre críticas no Salão de Frankfurt e se demite INVERNO DE 2003: Wolfgang Schreiber inicia o processo de reengenharia com a nova equipe PRIMAVERA DE 2004: Protótipos MkII começam a ser testados, mas o lançamento é adiado por um ano devido a "problemas de qualidade". Os engenheiros perdem o sono AGOSTO DE 2005: O Veyron está pronto para produção. Os próximos desafios? Quem sabe um de 2000 cavalos... Voluntários? |
| Veyron |
| 1000000 euros O valor, estonteante como a potência e a velocidade final, era premissa do projeto antes de o carro andar |
| Batismo |
| O nome do hiperesportivo é uma homenagem ao piloto Pierre Veyron, que atuou nas pistas de 1933 a 1953. A marca Bugatti lhe deve a vitória nas 24 Horas de Le Mans de 1939, ao volante de um modelo Type 57, em parceria com Jean Pierre Wimile. |
| Tem bala? |
| Se você não tem um banco, vai precisar roubar um... depois outro... • SENDO LIGEIRO, dá para reservar um dos dez carros ainda disponíveis para entrega em 2006 • JÁ FORAM VENDIDOS mais de 30 até agora • 23 FORAM feitos até hoje, apenas dois nas especificações finais • OS VEYRON são fabricados em Molsheim, perto da fábrica onde os Bugatti originais eram produzidos • AO FAZER um depósito, o diretor e ex-piloto Thomas Bscher se colocará à disposição para um test-drive • A PRODUÇÃO, planejada para se restringir a seis anos, será prolongada ao sabor da demanda • SERÃO apenas 20 lojas Bugatti no planeta, mas em alguns casos você poderá comprar em revendas Bentley • O CARRO de número 7 - azul-claro sobre azul-escuro - será entregue a uma certa Ursula Piech |
Motor
central, W16, 64 válvulas, quadriturbo
Cilindrada: 7993 cm3
Diâmetro x curso: 86 x 86 mm
Taxa de compressão: 9:1
Potência: 1001 cv a 6000 rpm
Torque: 127,1 mkgf a 2000 rpm
Câmbio
Seqüencial de sete velocidades, tração integral
Carroceria
Dimensões: comprimento, 438 cm; largura, 199 cm; altura, 121 cm; entreeixos, 265 cm
Peso: 1950 kg
Peso/potência: 1,94 kg/cv
Peso/torque: 15,3 kg/mkgf
Volumes: combustível, 115 l
Suspensão
independente, com sistema de ajuste central de altura
Freios
discos perfurados e ventilados, nas 4 rodas, Brembo, com ABS e ESP
Direção
hidráulica, do tipo pinhão e cremalheira;
2 voltas de batente a batente
Rodas e pneus
liga leve, Michelin PAX, 265/30 R 20 na dianteira, 335/30 R 20 na traseira
Preço
1 milhão de euros (aproximadamente 2,7 milhões de reais)














