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Carros | Longa duração
Desmonte VW Fox
Junho 2007

Desmonte VW Fox

Esticada no gás: Depois de rodar 60 000 quilômetros, o Fox ganhou kit GNV e encarou mais 16 000. O que se passa com ele?

Por Marcelo Moura | Fotos: Dulla
Lista de matérias por data:

ALTERAR O TAMANHO DA LETRA  

A compressão medida nos quatro cilindros do motor estava rigorosamente igual: 10,04 bar em cada um. Isso mostra como, passados 76 796 quilômetros e 26 meses, o coração do nosso Fox de Longa Duração bate saudável. Ele já havia ultrapassado a barreira dos 60 000 quilômetros em bom estado, conforme pudemos atestar ao abrir o motor. Bom o bastante para participar de uma experiência inédita, pedido dos leitores: Longa Duração num carro com kit gás. Rodamos mais 16 293 quilômetros, suficientes para formarmos nossa opinião sobre o uso desse combustível. Desde o primeiro dia, vimos no Fox uma vocação para cobaia. Coube a ele experimentar também equipamentos instalados na concessionária no lugar dos opcionais, alternativa atraente em preço mas desconhecida em qualidade.

Que bom termos feito essas experiências com o Fox. De outro jeito, não teríamos muito assunto nesse desmonte. "Você quer fotografar as peças? Só se for para embelezar a página, porque não tem muito defeito mecânico para mostrar", disse Fábio Fukuda, da Fukuda Motorcenter, consultor técnico responsável pelo desmonte. "Virabrequim, cilindros e pistões, a parte de baixo do motor está zero-quilômetro".

A "parte de cima" funcionava como se fosse nova, mas seria comprometida nos próximos meses pelo estado avançado de carbonização no cabeçote. Os depósitos de fuligem começariam a atrapalhar o assentamento das válvulas, levando a perda de desempenho e aumento de consumo. Seria o GNV, um combustível de queima mais limpa, o responsável por sujar o nosso motor? "Não dá para ter certeza, mas parece que sim", afirma Fukuda. "Quando abrimos o motor aos 60 000 quilômetros, antes do GNV, estava tudo bem." A carbonização pode ser causada por mistura ar-combustível muito rica e com refluxo - em vez de ir para as câmaras de combustão, parte voltava para o coletor de admissão. Seriam fruto do estrangulamento na entrada de ar causado pelo misturador de GNV, um cone que despeja o gás no coletor de admissão e que diminui o diâmetro de passagem. "A injeção eletrônica consegue se adaptar, mas talvez não o suficiente."

Kit gás
Novidade no teste de Longa Duração, o kit gás foi reprovado. Reprovado por não trazer o nível de qualidade e tranqüilidade a que o comprador de um carro particular zero-quilômetro está acostumado. E olhe que buscamos um equipamento de alto nível: os cilindros White Martins e o kit italiano BRC eram usados pela Volkswagen em seus modelos com gás de fábrica. E a Gazzotti, oficina instaladora, foi indicada pelo serviço de atendimento ao cliente da White Martins. O serviço nos custou 2 700 reais.

O plano era testar o desempenho do Fox logo depois da instalação do GNV. O carro foi para a pista de Limeira (SP), mas não acelerou. "Fazia uns estouros, parecia que estava explodindo", disse nosso auxiliar de testes, Jorge Luiz Alves. De volta à Gazzotti, foi constatada uma fuga de corrente nos cabos de velas, que fazia o gás estourar fora do motor. Nada que trouxesse risco, disse a instaladora. Velas trocadas, era hora de ir a Limeira, mas... novo adiamento. O motor começou a falhar com GNV em baixa rotação e nunca mais parou. Só não nos deixou na mão porque podíamos rodar com álcool e gasolina. Voltamos à oficina. Uma mangueira havia se dobrado e dificultava a passagem de gás. Tudo resolvido?

Não. Dias depois, sentimos cheiro de gás na cabine. Mais uma visita à oficina e encontraram vazamento numa conexão da mangueira no cofre do motor. A primeira medição foi acontecer 7 013 quilômetros depois. E a última foi adiada porque o motor insistia em morrer em marcha-lenta. Depois da instalação, voltamos à oficina a cada 4 000 quilômetros.

O barato do gás
Nossa experiência com o gás foi insatisfatória, mas muito promissora. Quando funcionou bem, o Fox com GNV andou tão rápido quanto um Peugeot 206 com motor 1.4. A autonomia é reduzida, cerca de 300 quilômetros (dos 15 metros cúbicos dos cilindros, usam-se 13), mas não é impedimento para rodar na grande área entre Rio e São Paulo. E é ecológico. Medimos a emissão de poluentes no AutoMais Serviços (rede de oficinas ligada ao Cesvi). Com gasolina, a 2 500 rpm, o Fox emitiu 1,16% de monóxido de carbono (o limite é 1,5%). Com GNV, a emissão registrada foi zero. O gás poluiu menos e baixou em muito o gasto com abastecimento. Cada 1 000 quilômetros no Fox custaram 257,16 reais com gasolina, 189,66 reais com álcool e 90,15 reais com GNV. Como rodamos 8 682 quilômetros no gás (em vez de usar álcool), economizamos 863,96 reais. Foram insuficientes para pagar o investimento no kit. Também não recuperaremos o dinheiro ao vender o Fox. Três das cinco concessionárias e duas das quatro lojas que nós procuramos, na edição de abril, não pagariam um centavo a mais por causa do GNV. E as demais simplesmente se recusaram a fazer negócio. Não estão de todo erradas nessa avaliação. O kit acrescenta ao carro, mas, do jeito que foi instalado, também compromete o que já existia.

"A instalação agrediu o carro desnecessariamente", disse Eduardo Fernandes, técnico do Cesvi (Centro de Experimentação e Segurança Viária) que analisou a carroceria. A tubulação que passa por baixo do carro foi fixada por parafusos que simplesmente varam a lataria - entram cerca de 1 centímetro na cabine e só não furam o pé dos passageiros por causa do manto anti-ruído que existe embaixo do carpete. Da mesma forma, os furos feitos para fixar o suporte dos cilindros não têm proteção anticorrosão. Se a lataria do Fox chegou ao fim do teste sem corrosão, foi por mérito da Volkswagen. Porque as condições para a ferrugem aparecer foram criadas e é questão de tempo. "As peças usadas na instalação, mesmo os parafusos e conexões, fazem parte do kit", afirma Eduardo Gazoti, diretor de vendas da Gazzotti. "E a conversão é uma adaptação, não um projeto de fábrica. Não atinge a perfeição."

Equipamentos
A concessionária Sabrico disse que não tinha para pronta entrega um carro com alarme e vidros e travas elétricos, como queríamos, mas poderia instalar produtos originais. Bastou entrar no carro para ver que não era assim. Um consultor da revenda, chamado Rogério, disse então que a Volks não oferece trio elétrico original. "Mas homologa essas peças e dá garantia." Consultada, a montadora foi categórica: "As marcas Pósitron, Ravena e New Pol (alarme, trava das portas e acionamento dos vidros) não são homologadas nem garantidas". Atenção: a autorizada diz coisas que a fábrica não autorizou. Quando trava e controle remoto deram defeito, tivemos de voltar à Sabrico. Quando precisamos comprar um controle novo, a revenda disse que tinha só kits completos. E o vidro elétrico traseiro contraria todos os princípios de segurança. Atenção, Volkswagen: compramos esse perigo numa loja com seu logotipo.

Mas a instalação da concessionária foi caprichosa: "As forrações foram recolocadas no lugar e não entrou poeira na cabine", diz Fernandes. Se o tira-e-põe de painéis de porta deixou a cabine barulhenta, é difícil dizer. O ruído vinha até de lugares só mexidos no desmonte. "É o pior acabamento interno que encontro desde o Fiesta Supercharger", disse Fukuda.

Acabamento
O problema nem está na qualidade dos plásticos ou na pobreza da forração acústica. Tudo isso existe, é verdade, mas os problemas nasceram no projeto do carro, mesmo. Um exemplo são os passadores dos cintos de segurança laterais traseiros: dois clipes longos, de plástico rígido, apoiados pela espuma do banco. O primeiro quebrou aos 823 quilômetros e o segundo, a 8 268 - num carro sem crianças. O forro do teto é uma peça enorme e apenas apoiada por abas que se encaixam nas molduras laterais do teto. As molduras que nascem no pára-brisa e vão até a coluna central também não podem dar certo. São tiras com cerca de 10 centímetros de largura e mais de 1 metro de comprimento, feitas de plástico maleável, com frisos estruturais pequenos demais para dar a rigidez necessária e apenas quatro rebites para encaixar na carroceria. "E são rebites alinhados, que não impedem a torção da peça", diz Fukuda. Defeitos que sobreviveram a todas as revisões, tão resistentes quanto a mecânica do carro. A suspensão ignorou o esforço extra trazido pelo kit gás, chegou ao desmonte com apenas um calço de borracha rasgado - e ainda sem criar problema. Em certos aspectos esse Fox lembra o Fit, o carro mais íntegro a terminar o Longa Duração. Mas não parece.


RETRATOS DA VIDA


Nem mola nem amortecedor reforçados. O Fox encarou o peso extra do kit gás com a suspensão original e se deu bem. As folgas encontradas são discretas. O problema mais visível é esse rasgo numa bucha da bandeja da suspensão dianteira direita. Ainda nem fazia barulho.


A ligação do circuito de GNV com o coletor de admissão (peça dourada) desatarraxa quando a mangueira gira. Estava frouxa no desmonte e foi causa de vazamento durante o teste. Repare que o acabamento é artesanal.


O cabeçote tinha depósitos de carvão que em breve atrapalhariam a vedação das válvulas, aumentando consumo e poluição. Fukuda suspeita do misturador de GNV, o cone de alumínio na foto acima, à esquerda. Ela diminui a entrada de ar, o que favorece o refluxo e o enriquecimento da mistura.


O emborrachamento no piso do porta-malas descolou, deixando apenas a base de pintura (cinza-claro), no contato com o kit gás. À esquerda da marca amarela, veja como o buraco aberto na lataria para fixar o suporte é um rombo irregular e sem proteção antiferrugem.


Um forro de teto tão grande e tão plano precisa ter mais firmeza. No Fox, ele é apoiado nas molduras laterais por pequenas abas, com espaço para subir e descer - e fazer barulho. Não é exatamente preso em lugar algum.


O comando do vidro elétrico traseiro fica no chão. Se alguém pisar no botão, o vidro, do tipo um-toque e sem antiesmagamento, vai subir esmagando o que vier no caminho. Por exemplo, o pescoço de uma criança.


A buzina é item de uso freqüente e de segurança, mas a VW quis economizar. A mola é uma esponja e o botão de acionamento é apoiado em guias de plástico pequenas e frágeis, que quebraram. Dependendo de como se aperte, o Fox ficará mudo.


HISTÓRICO

823 km: Quebra clipe do cinto traseiro
1 137 a 7 360 km: Luz do ABS acesa
1 531 a 7 360 km: Porta traseira não abre
Desde 1 884 km: Barulho nas portas
3 454 a 7 389 km: Botão do ventilador emperra
3 534 a 7 389 km: Vibração no trambulador
Desde 4 160 km: Rangido no banco do motorista
7 475 a 7 488 km: Fusível queima, ventoinha não arma, motor superaquece
8 268 km: Quebra outro clipe do cinto traseiro
13 403 a 16 523 km: Vibração irregular em marcha-lenta
15 185 a 16 523 km: Controle remoto não abre as portas
24 638 a 29 010 km: Buzina não funciona
24 684 a 29 010 km: Barulho no ventilador
25 456 a 29 010 km: Ruído na suspensão
33 854 a 40 645 km: Cai a luz de placa desde
44 871 km: Cinto de segurança não volta
60 069 km: Desmonte do motor para avaliação
60 503 km: Kit GNV
60 777 a 61128 km: Estouros sob o capô
61 477 a 62 228 km: Motor morre com GNV
62 022 a 62 228 km: Cheiro de gás
63 871 a 63 082 km: Cheiro de gás
63 908 a 63 082 km: Motor morre com GNV
64 560 km: Cheiro de gás
64 698 km: Motor morre em pleno trânsito
69 727 km: Imprecisão no indicador de gás
71 565 km: Carro se recusa a pegar
71 942 km: Cai a capa do retrovisor direito
74 624 a 75 333 km: Com GNV, motor falha e morre em marcha-lenta


PRÓS

Integridade: goste do carro ou não, o que você vê no test-drive é o que você terá ao fim de 60 000 quilômetros. E a suspensão ignorou o peso do kit gás.
Economia: a inflação e os planos econômicos dos últimos 34 anos dificultam comparações, mas o preço do GNV é tão baixo, comparado à gasolina e ao álcool, que nos permite afirmar: nunca dirigimos carro tão barato. E, em certas condições, com poluição zero.


CONTRAS

Desconforto: o Fox é espaçoso, mas rústico, pelo preço que custa. Pouco tecido, muito plástico rígido, encaixes ruins e suspensão dura. Foi barulhento do início ao fim do teste.
Peças "originais": a rede autorizada não deveria vender, como originais, acessórios sem garantia e homologação de fábrica. E o vidro elétrico que a Sabrico instalou em nosso carro é, sem exagero, uma tragédia anunciada.


SURPRESAS



Ficar a pé é coisa rara nos carros de Longa, mas o Fox guardou essa surpresa à designer Flávia Sakai. Por motivo bobo, um fusível inadequado que queimou. Em troca, demos ao Fox o GNV, quando já se achava aposentado. E um dia nós todos fomos supreendidos por homens armados. O carro foi roubado, mas reapareceu.


CHECK-UP


FOLHA CORRIDA

Preço de compra: R$ 40 186,66 (março 2004)
Proposta de venda: R$ 30 000 (abril 2007)
Quilometragem total: 76 796 km
Consumo total: 5 084 litros (álcool), 2 148 litros (gasolina) e 629,95 m3 (GNV)
Consumo médio: 8,3 km/l (álcool), 10,1 km/l (gasolina) e 13,8 km/m3 (GNV)
Combustível: Álcool - 7 987,50 reais (R$ 189,66/1 000 km) Gasolina - 5 591,25 reais (R$ 257,16/1 000 km) GNV - 782,67 reais (R$ 90,15/1 000 km)
Revisões: 10 000 km: (Discovel) 169,40 reais 20 000 km: (Jewa) 600 reais 30 000 km: (Toriba) 885,55 reais 40 000 km: (Itavox) 1174 reais 50 000 km: (Sorana) 1027 reais


Ficha técnica

Motor: dianteiro, transversal, 4 cilindros, 8V, gasolina/álcool/(adaptado) GNV, injeção seqüencial multiponto
Cilindrada: 1599 cm3
Diâmetro x curso: 76,5 x 87 mm
Taxa de compressão: 10,8:1
Potência: 101/103 cv a 5750 rpm (G/A)
Potência específica: 63,2/64,4 cv/l (G/A)
Torque: 14,3/14,4 mkgf a 3250 rpm (G/A)
Câmbio: manual de 5 marchas, tração dianteira
Pneus: 195/55 R15
Principais equipamentos: ar-condicionado, vidros e travas elétricos (instalados), direção hidráulica, freios ABS, alarme com controle remoto (instalado), faróis de neblina, rodas de liga leve

Veredicto
O Fox conseguiu repetir a receita que consagrou o Gol: desconfortável, mas íntegro. Fez isso melhor que seu irmão de projeto, o Polo, que tivemos entre 2002 e 2004. Nossa experiência com os acessórios instalados na concessionária foi negativa. E a "fase GNV" do teste mostrou que o gás natural adaptado ainda não está no nível de confiabilidade que o comprador de carro zeroquilômetro se acostumou a ter.





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