ALTERAR O TAMANHO DA LETRA
Bom começo. Foi com esse título que a Zafira estreou no teste de Longa Duração, na edição de setembro de 2001. Apesar de chegar à nossa frota 15 dias após a data prometida, a "cerimônia" de entrega da concessionária Ver, de São Paulo, nos causou boa impressão. Ao explicar o funcionamento da Zafira em detalhes, o funcionário nos deixou convencidos de que tínhamos feito uma boa compra. Está certo que, ao longo do teste, nem sempre recebemos a mesma dose de mimos nas concessionárias Chevrolet da capital paulista. A Jardins Veículos nos prometeu um orçamento em junho que até hoje não chegou.
A Zafira já indicava 61145 quilômetros no hodômetro quando a estacionamos na oficina paulistana Fukuda Motorcenter. Coube a nosso "desmontador" titular, Fábio Fukuda, a tarefa de "radiografar" a Zafira. Ele começou pela medição da compressão nos cilindros, um importante indicador da saúde do motor. Fukuda encontrou 175 psi em cada um dos cilindros, medida dentro do especificado pela fábrica. Segundo a Chevrolet, a compressão nos cilindros do motor 2.0 de oito válvulas da Zafira deve estar entre 175 e 205 psi. Bom sinal.
As velas, retiradas para a medição da compressão, foram as primeiras peças a deixar a Zafira. Depois desembarcaram a bateria, o filtro de ar, o radiador e o protetor de cárter. Em pouco mais de meia hora, o motor já estava livre, separado do câmbio. Aberto sobre uma bancada, o motor se mostrou em perfeito estado. As medidas estavam dentro das especificações e os mancais, normalmente as primeiras peças a apresentar sinais de desgaste, ainda apresentavam as medidas originais de fábrica. Assim como as bronzinas das bielas, outros pontos sensíveis. Os cilindros e os pistões mantiveram-se sem alterações morfológicas. E, no que diz respeito às folgas dos anéis, para uma tolerância entre 0,3 e 0,5 milímetro, o aferido foi 0,4 milímetro.
Vou confessar que prefiro ver os carros quando estão saudáveis, em pé, antes do "abate". Vê-los desmontados me dá certa pena. Mas dessa vez foi diferente, ao conferir o estado de conservação das peças. Por dentro, o motor estava limpo como novo. Tanto a parte de baixo do bloco quanto a tampa do cabeçote exibiam a coloração original de seus materiais. Para chegar ao final de 60000 quilômetros nesse estado de limpeza, o motor teve uma mãozinha, porém. Na revisão dos 30000, a concessionária aplicou um produto desengraxante no motor, com a finalidade de descarbonizar as peças. Ponto para a Ricavel, de São Paulo. Aliás, a rede autorizada, de modo geral, cuidou bem da Zafira.
"O motor da Zafira não sofreu desgaste e, nas mesmas condições, rodaria tranqüilamente mais 60000 km", diz o mecânico Fábio Fukuda. Por "mesmas condições" entenda-se: rodar com as trocas de óleo nos prazos recomendados pela fábrica e com o rodízio periódico dos pneus, entre outros cuidados na manutenção. Mas essas mesmas condições prevêem queimar gasolina de origem às vezes duvidosa. À ação do combustível de má qualidade também pode ser creditado o depósito de carvão que encontramos nas válvulas de admissão. Isso é sinal de que o óleo escorria para dentro das câmaras porque os retentores, ressecados pelo combustível, perderam sua capacidade de vedação.
O câmbio da Zafira também chegou ao final do teste em perfeito estado. Todos os rolamentos estavam bons, sem ruídos ou ranhuras. Garfos, luvas, anéis sincronizadores e engrenagens estavam em ótima forma. Mas a embreagem já começava a patinar. Embora o disco ainda possuísse massa para gastar - tinha espessura de 7,8 milímetros para um mínimo admissível de 7,60 milímetros -, o platô e o rolamento já davam sinais de cansaço. Nada que surpreenda, no entanto, aos 60000 quilômetros. A contraprova do bom estado do conjunto é a ausência de reclamações por parte dos usuários em relação aos engates e à performance da Zafira no último teste.
A Zafira superou todas as marcas obtidas na primeira vez em que entrou na pista. Nas provas de aceleração de 0 a 100 km/h, baixou o tempo em um segundo, de 13,6 para 12,6 segundos. Nas retomadas de 40 a 100 km/h em quinta marcha, foi quase quatro segundos mais rápida. Fez as passagens na média de 27,5 segundos, contra 31,1. Tudo isso com maior economia de combustível. As médias de 7,1 km/l, na cidade, e 12,8 km/l, na estrada, superaram as anteriores de 6,5 km/l e 11,4 km/l.
A quem quiser saber sobre as condições de rodagem de nossas ruas e estradas, a suspensão da Zafira tem muito a dizer. Na dianteira, o subchassi que sustenta o motor e o sistema de direção chegou ao final do teste com cinco de suas seis buchas danificadas. Os pivôs da suspensão também já estavam em final de carreira, assim como outras articulações e os terminais das bieletas (pequenos braços longitudinais) e os mancais da barra estabilizadora. Os amortecedores já andavam desanimados. Na traseira, no entanto, estava tudo bem com as buchas, batentes e barra estabilizadora. Mas os amortecedores apresentavam problemas no limitador (stop hidráulico), além de perda de pressão. Todos os defeitos encontrados nos dois eixos juntos explicam por que nos últimos tempos a Zafira já não era exatamente a mesma em relação ao conforto e estabilidade. Mas, ao se considerar a quilometragem rodada, pode-se dizer que as suspensões da Zafira fizeram um bom trabalho.
Durante os 60000 quilômetros, a Zafira passou por cinco estados brasileiros. Em Minas Gerais, esteve cinco vezes. No Rio de Janeiro, quatro. Em Santa Catarina, duas. E, no Paraná, uma vez. Em São Paulo, passeou pelo interior: Limeira, Boracéa, Analândia, Piracicaba, São Pedro e Ribeirão Preto, entre outras cidades. Dos 61145 quilômetros que rodou, cerca de 45% foram em estradas e 55%, nas cidades. Assim como a suspensão, o sistema de freios também se mostrou resistente, mas com pedidos de clemência. As pastilhas não resistiriam por mais tempo - e aqui vale uma observação: ao longo desses 60000 quilômetros não tivemos registro de troca e tampouco apareceu qualquer valor nas notas de revisão relativo a pastilhas. Isso faz supor que as que foram retiradas da Zafira ainda sejam as de fábrica. Uma hipótese para essa longevidade seria o fato de boa parte da quilometragem da minivan ter sido feita em rodovias, situação que exige menos dos freios que o trânsito urbano. Os discos, tanto na dianteira quanto na traseira, não mostravam desgaste excessivo. As espessuras encontradas superavam o mínimo estabelecido pela fábrica. Três deles, porém, estavam empenados, com deformação acima do tolerável. Esse problema pode ter surgido em decorrência de algum choque térmico sofrido pelos discos, alguma batida contra guias ou buracos ou até mesmo uma frenagem violenta, de acordo com Fukuda. O sistema de direção, que vai ancorado no subchassi dianteiro, também pedia substituição dos terminais, que apresentavam folgas, assim como as buchas da suspensão. Os outros componentes estavam íntegros.
Nesse período de 14 meses com a redação, a Zafira não passou incólume. Logo no início do teste, o farol dianteiro apresentou infiltração e teve uma roda raspada. Já em pleno verão passado, tendo como motorista o fotógrafo Marco de Bari, nossa minivan apresentou alguns problemas na parte elétrica: marcador de combustível, comando dos espelhos retrovisores e luz da cabine não funcionavam. Na época, a Zafira chegava aos 30000 quilômetros e tudo foi resolvido na revisão. Agora, depois de rodado outro tanto, não constatamos terminais oxidados nem lâmpadas queimadas. A central eletrônica do motor também não registrou falhas em sua memória.
No caso da Zafira, a aparência não enganou. O bom estado externo que a carroceria apresentava no final do teste foi coerente com o que verificamos no desmonte. Não encontramos trincas, sinais de torção no chassi ou infiltração de água. Apesar da grande quantidade de plástico em seu acabamento interno, a Zafira não tinha peças soltas, quebradas ou barulhentas. Verificando-se o "lado B" do painel, notamos que a fábrica tomou certos cuidados, colocando suportes de borracha nos pontos mais suscetíveis a ruídos. Além disso, aprovamos a solução de passar o chicote elétrico por canaletas, o que além de proteger os cabos também evita ruídos.
Do ponto de vista do bolso, a Zafira também se mostrou comedida. Entre os carros desmontados nos últimos meses, foi a detentora de um dos menores custos de manutenção (peças e mão-de-obra), perdendo só para os populares Celta e Palio. Somados o bom desempenho financeiro e o bom estado geral após o teste, temos elementos suficientes para afirmar que o título da matéria de apresentação foi profético: a Zafira começou bem e assim continuou até o desmonte.