
Não precisa saber o preço para dizer se uma nova Ferrari é boa ou ruim. Afinal, nos lugares onde ela disputa espaço com Porsche e Lamborghini (garagens de milionários e papéis de parede de computadores), dinheiro não é problema. É uma escolha puramente passional. Em nosso mercado de hatches pequenos, a história é diferente. Recentemente, gostamos muito do novo VW Gol e vimos que o Peugeot 206 evoluiu, ao se transformar em 207. Só que um foi lançado sem preço e o outro, sem teste. Estilo, capricho de projeto e prazer ao dirigir contam muito, mas dependem de duas questões: quanto custa e quanto gasta.
Este comparativo é parente daquele feito no final de 2007. De lá, trouxemos os dois melhores: Renault Sandero (agora numa versão ainda mais competitiva, a 1.6 8V) e Ford Fiesta 1.6. Os fãs talvez perguntem pelo Palio, rival histórico do Gol. O carro da Fiat não está aqui pela mesma razão que o Geração 4 faltou na última vez: existe mais na tabela que nas ruas. O Palio é popularíssimo no modelo Fire, mas, de carroceria nova e motor1.4, vende menos que o Punto – e isso reflete sua menor competitividade nessa faixa de preço. Escolhemosa casa dos 40 000 reais, na qual a busca pelocusto/benefício começa a conviver com a paixão.
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Olhe para os cinco carros, não dá para dizer que nosso trânsito anda uma mesmice. São bichos diferentes entre si. O Punto, mais que todos. O pára-choque dianteiro se mistura com o capô, que se mistura com o pára-brisa. Um formato distinto, que foi reproduzido na maçaneta das portas. Parece um daqueles rascunhos que os garotos do centro de estilo fazem como inspiração inicial, só que levado à linha de montagem. Foi lançado em setembro passado, mas parece mais chamativo que o novo Gol.
É uma crítica que soa como elogio. A Volks se orgulha de fazer carros sóbrios. As maçanetas são alças retas e repetitivas? São. “É norma da empresa. Em caso de acidente, você pode amarrar uma corda e puxar para que a porta seja aberta”, diz Gerson Barone, gerente de design. O Gol não é exuberante, mas vai melhorando com o tempo, diante dos olhos. De perfil, os frisos e vincos inclinados fazem o carro parecer prestes a saltar. Muita gente viu nele semelhança com o BMW Série 1, mas, curiosamente, ninguém soube dizer por que achava isso. Será a faixa de lataria limpa que corre acima das maçanetas e continua natampa traseira? Muito da semelhança vem do definido vinco horizontal e das rodas, que cabem justas no recorte dos pára-lamas. Punto e Gol representam claramente a cultura de suas montadoras.
Ao contrário do Gol, o Fiesta implora por rodas maiores, capazes de honrar a expectativa criada pelos largos arcos esculpidos na lataria. Lançado em 2002 e reformado em 2007, o Fiesta ainda é um carro bonito, mas, estacionado junto de Gol e Punto, parece quadrado demais. A Ford européia também acha, tanto que está lançando uma nova geração (derivada docarro-conceito Verve), inteiramente diferente.
O Sandero também parece quadrado, mas é tanto que isso vira opção de estilo, realçado por vincos no capô e nas laterais. Eles disfarçam a falta de acabamento entre o capô e pára-brisa. O retrovisor esquerdo é o direito, posto ao contrário, mas isso não me incomoda. O problema é ser pequeno e não ficar dobrado. Faz falta, num carro 9 centímetros mais largo,15 mais longo e 30 mais alto que o Peugeot 207.
É incrível um modelo lançado aqui nove anos atrás ainda ter o estilo como principal motivação de compra. Entendo o pessoal da Peugeot, que bancou a idéia de manter a carroceria do 206 e apenas atualizar o estilo. O resultado é interessante. Os faróis trazidos do 207 europeu estão entre os maiores que eu já vi. São duas bolhas tão grandes que podem ser vistas do banco do motorista.
Nunca entrei num 207 europeu, mas posso dizer que esse aqui parece agradável. O painel trocou a textura que imitava couro rugoso por outra que lembra um biscoito waffer, e assim ficou mais claro. Os bancos também ficaram arejados, ao adotarem um tecido sintético em relevo (o mesmo usado no Gol). Gostaria de falar do quadro de instrumentos, mas ele está encoberto pelo volante. Tento mudar isso mas ele não ajusta a distância, só altura, e bem pouco. A regulagem de altura do banco também não ajudou, ela basicamente muda a inclinação do assento. Na posição mais baixa, fico com os joelhos apontados para cima, uma posição desconfortável. Estico a mão até a porta para fechar a janela e ajustar os retrovisores, mas é em vão. Os botões continuam no pior lugar possível, entre os bancos. Igual ao 206? Não, pior: agora têm acompanhia do botão de trava elétrica, que costumava ficar no alto do painel. Problemas de ergonomia típicosd e modelo datado, anterior à era dos porta-copos (o que existe é improvisado na tampa do porta-luvas).O 207 deve ser visto como um 206 de cara renovada, o que é bem-vindo, mas não como outro carro. Sem expectativa exagerada, dá para enxergar suas qualidades – antigas ou novas.
Giro a chave e o hodômetro do Peugeot me mostra quanto falta para a revisão. É uma gentileza muito útil, daquelas que a gente se acostumou a ver nos carros da Fiat. O Punto ELX tem abertura interna do tanque de combustível, computador de bordo e, a exemplo do Fiesta, avisa se a gasolina do tanquinho está na reserva. Mas lembrete de manutenção, isso ele não tem. Já o Gol o traz como parte do I-System, o computador de bordo mais completo do comparativo. É um opcional de 615 reais, mas eu pagaria.
O pedal de embreagem do 207 continua levíssimo e a alavanca de câmbio também não pede esforço. Fico com a impressão de que o volante ficou leve, um pouquinho além da conta. O Peugeot poderia ficar sensível às menores reações na estrada, mas isso não chega a ocorrer porque a suspensão está bem mais macia. Ela anestesia as reações de um carro que era vivo, gostoso de dirigir. Aquela demora entre ação e reação, que a gente já conhecia da buzina do Peugeot, agora tomou conta do volante inteiro. Passou a combinar com o motor 1.6 16V, que é o mais potente do comparativo, mas que, abaixo de 2 700 giros, não mostra isso. Nas provas de aceleração de 0 a 100 km/h, o Peugeot fica para trás nos primeiros metros e se recupera depois. O melhor momento do 207 na pista de Limeira não acontece nas duas retas nem nas curvas parabólicas. É no acostamento pavimentado com paralelepípedos. Nessa hora, ele é o mais silencioso e o que menos passa aos passageiros as pedras do caminho. Um Peugeot de suspensão macia... Se dissessem isso do 206, ninguém iria acreditar.
Suspensão macia é coisa que a gente se acostumou a associar aos carros da Fiat, mas estamos numa tarde de surpresas. O Punto é um carro bom de equilíbrio. Na pista, provoquei os carros além do limite razoável, para ver no que dava. No 207, desisti porque, de tão lento, ele não aceitava provocação. O Sandero e o Punto têm bom balanço entre conforto e controle. O Fiesta é um pouco mais ágil que os dois, mas não avisa com a mesma clareza quando é hora de parar. Com ele, fui parar na grama. Tinha ganhado confiança logo antes, ao andar com o Gol. O carro da Volks passa mais as ranhuras do piso. A suspensão traseira marca um pouco mais as irregularidades que a dianteira (melhor se fossem iguais), mas é sincero ao contar o que você tem e o que pode fazer.
Devo confessar, a relativa firmeza do Punto não me pegou desprevenido. É coisa que ele anuncia de longe e confirma ao abrirmos a porta. O volante tem dois gomos pronunciados na posição “15 para as 3”, pedindo para ser agarrado por ali. Altura e distância, ele deixa você pedir à vontade – a gama de ajuste de altura e distância é melhor que a de muito sedã médio. Além de abraçar bem o corpo, o banco tem boa regulagemde altura. A caixa de rodas é uma plataforma larga, que apóia muito bem o pé esquerdo – algo tão importante, e que tanta falta faz no Fiesta. O Punto envolve o motorista como nenhum outro neste comparativo. Mas o banco de trás não é tão espaçoso, embora seja o único a trazer três apoios de cabeça.
O acabamento da Fiat fica abaixo da expectativa. A tampa do segundo porta-luvas (que veio no lugar do airbag) só abria e fechava com insistência. Aqui e ali, você encontra peças de plástico com falhas de recortee encaixe. Mesmo no Sandero, que tem a simplicidade como ponto de partida, existe maior precisão (mas sem tanta inspiração). E o tecido das beiradas dos bancos, liso e preto, evidencia manchas esbranquiçadas de suor – isso num carro com ar-condicionado, no qual as pessoas raramente suaram de verdade. Vindo do segundo carro mais caro da turma, não é nada bom. Além de rigor no acabamento, falta um motor mais potente. Ao gastar 14,7 segundos para ir de 0 a 100 km/h, o Punto fica longe de seus rivais (na casa dos 12 segundos) e quase empata com o Celta 1.0 (14,9 s).
Sair do Punto e entrar no Sandero é quase um choque térmico. Botões, comandos... É tudo mais distante e mais frio. Isso decorre de um problema e de uma qualidade. O problema: o volante do Renault é o menos agradável de pegar (o de aro mais fino e liso) e o que menos se esforça para chegar a você. Ajuste de distância ou altura? Não tem. O banco não envolve tanto as laterais do corpo? Ele nem sequer acompanha as costas dos motoristas mais altos, por ser curto.
Os botões de vidro elétrico ficam no centro do painele não têm função um-toque, e o botão do desembaçador traseiro não tem temporizador. Se for esquecido ligado, ficará para sempre – ou até queimar o fusível. Por dentro, o Sandero parece feito para quem não é fissurado em carro. Talvez para quem admire outras coisas na vida – gente, por exemplo.
Pergunte aos passageiros qual é o carro mais prazeroso. O banco traseiro do Renault acolhe três eleitores, mesmo que sejam maiores de 16 anos. É Sandero na cabeça, nos ombros... O porta-malas nem é tão maior que o do Fiesta, mas sua base é ampla (e, portanto, mais aproveitável). Nesses dois carros, a boca baixa permite embarcar as malas sem levantar muito. Punto e Gol têm acesso mais difícil. Sandero e 207 têm estepe embaixo do carro. Fácil de roubar, difícil de calibrar, sempre sujo... Mas, pelo menos, não obriga a pôr as malas no chão para trocar o pneu.
Agora, no fechamento da matéria, vejo que asvoltas na pista com o Sandero renderam menos anotações no bloquinho que os demais. O motor 1.6 8V andou junto da turma e conseguiu os melhores números de consumo. Ele traz conforto e controle em doses equilibradas. Não é anestesiado como o 207 nem arisco como o Fiesta.
O Fiesta joga no time do Sandero, com bastante espaço interno. Um pouco menos para os passageiros, mas com o melhor aproveitamento para as pequenas coisas. O console entre os bancos da frente (opcional) é um achado, vale por todos os que existem espalhados na cabine do Gol. Não é só nisso que o carro da Ford lembra o rival da Renault. Sua posição de dirigir também é pouco envolvente, com painel reto, volante liso (e sem regulagens) e posição de dirigir elevada (o ponto H fica a 311 milímetros do chão, contra 310). Isso conspira contra uma qualidade do Fiesta, que é o acerto mais esportivo de direção e suspensão. Sempre conspirou, mas começa a fazer falta, com a chegada de adversários com foco específico (o Gol em prazer de dirigir, o Sandero em espaço interno). O Fiesta tem bom equilíbrio de virtudes, mas não é mais o melhor em nada. E o preço não ajuda: com ar, direção, vidros e travas, é 2 200 reais mais caro que o Sandero nas mesmas condições. O carro da Renault é mais econômico e o único com três anos de garantia. É só razoável no prazer, mas fortíssimo no custo/benefício.
Assusta saber que o Gol Power 1.6 começa em 36 420 reais e, dos itens de peso, tem só direção hidráulica de série. Mas o que falta para ele entrar no padrão do mercado custa relativamente pouco: com 41 460 reais, temos ar, vidros, travas, alarme e chave canivete. Aibag duplo e ABS custam 5 370 reais, contra 3 061 cobrados pelo Punto, mas o preço básico do Gol é menor e, assim, continuaria mais barato (acima de 45 000 reais, é melhor falar em “menos caro”). Mas por acaso o Gol é páreo para o Punto?
É sim. O Gol é um carro menos ambicioso, com acabamento simples – até como formade marcar diferença para o Polo, mais caro. Mas transpira qualidade por todos os poros: bancos com tecidos de bom padrão e costura impecável, peças com encaixes justos e funcionamento uniforme, motor que gira macio e quieto, câmbio suave como faca na manteiga... A relação mais direta entre ação do motorista e reação do carro.
Fim de tarde em Limeira, hora de viajar 150 quilômetros de volta para a redação. O assistente Eduardo Campilongo pergunta qual carro eu quero dirigir. “Me passa o Volks”, eu respondo. Pedido recusado. Depois do teste, o Gol e o Sandero precisavam ir para o estúdio, onde eram esperados para a sessão de fotos da edição especial da revista, dedicada ao Melhor Compra. Lamentei, mas achei justo. Olhei para Punto e Fiesta e... fui embora de Fiat.
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