
O Wrangler está de volta, renovado. Com esse nome, o Jeep existe desde 1987. Mas, por aqui, ele só deu o ar da graça entre os anos de 1997 e 2001. Nosso mercado esteve fechado e a Chrysler só se lembrou de trazê-lo em 1997. O preço alto e as vendas fracas acabaram por desestimular a vinda de novos lotes. Mas agora, com o real valorizado, ele ganha (e nós também) uma segunda chance. O Wrangler chega radicalmente mudado na forma e no conteúdo. Deixou de ser um jipe, na mais pura acepção da palavra, para se tornar um confortável crossover. Ficou maior no entreeixos e na largura, o que refletiu diretamente no espaço interno e em seu comportamento dinâmico, que ficou mais próximo do de um automóvel. A bordo foram incorporadas tecnologias de segurança e conforto jamais vistas em um de seus antepassados. Muito do que a fábrica apresentou - e que o proprietário vai encontrar no manual - não vem para o Brasil. É o caso do sistema ASBS, que permite o aumento do curso das suspensões - desconectando eletronicamente as barras estabilizadoras -, e do pára-brisa escamoteável. Ainda assim, sobra novidade. A lista inclui capota rígida modular, ESP e sistema eletrônico anticapotamento, entre outros dispositivos.
Pelo ladrão
O Troller, que faz o estilo mais purista, é o mesmo lançado no fim de 2006, como linha 2007. A Ford promete injetar sangue azul no projeto, mas não será agora. Em 2008, o T4 permanece como está, segundo a Ford. Não se pode dizer que a versão atual esteja defasada, no entanto. O T4 chegou com uma série de aprimoramentos na linha 2007. O destaque é o motor diesel MWM-International com turbo e intercooler, acelerador eletrônico e injeção common- rail de terceira geração. A transmissão também foi retrabalhada. A duas primeiras marchas ficaram mais curtas, para melhorar a resposta nas trilhas e no trânsito, e a quinta marcha ficou mais longa, para reduzir o consumo e o ruído no uso rodoviário.
Em nosso teste, T4 e Wrangler passaram por duas fases. Na primeira, levamos os dois para a pista offroad da Pirelli, para ver como eles se comportavam na terra. Os dois estavam equipados com pneus de uso misto - 50% asfalto, 50% terra. Nessa etapa contamos com a assessoria do instrutor de off-road João Roberto Gaiotto. Por sugestão dele, começamos pelo Troller. "Ainda não andei nessa versão com novo motor", disse Gaiotto, já caminhando em direção ao T4. Demonstrando prazer ao volante, ele não poupou elogios às reações rápidas do carro, fruto não só do "perfeito casamento" do motor com a transmissão como também da direção direta. "O antigo 2.8 já tinha força de sobra", diz Gaiotto. "Agora a potência está vazando pelo ladrão." A potência subiu de 114 para 163 cv e o torque, de 32,7 para 38,8 mkgf.
Outra virtude apontada foram os ângulos de ataque e de saída do T4, de 56 e 47 graus, respectivamente, capazes de uma abordagem mais complicada nas trilhas. No Wrangler, eles são bem mais tímidos: 36 graus na entrada e 29,8 na saída. A suspensão do Troller se mostrou um pouco dura, fazendo o jipe pular ao passar por irregularidades. Ruim na terra, pior no asfalto. Mas o mais grave para quem está em uma trilha é o curso curto da suspensão, que deixou o T4 pendurado em duas rodas e com dificuldades para tracionar, quando o colocamos entre duas elevações da pista. Nos trechos inclinados, o T4 foi muito bem, assim como na descida de rampas, em que a relação reduzida segurou o jipe com firmeza.
Já ao volante do Wrangler, assim que o jipe se moveu, Gaiotto ficou entre a surpresa e a admiração. "O conforto é muito superior", disse. A suspensão do Jeep absorve as imperfeições do relevo, transmitindo segurança e confiança para acelerar. "A direção não é tão direta quanto a do Troller, mas o carro é obediente", diz Gaiotto. Naquele ponto em que o T4 ficou entre duas elevações, a suspensão do Wrangler continuou sua demonstração de eficiência. O carro perdeu contato com o piso em apenas uma das rodas e venceu o obstáculo com facilidade. Nas descidas, o câmbio automático atrapalhou, deixando o Jeep ganhar velocidade, mesmo com a reduzida acionada.
Borboletas
Depois de cumprido o roteiro na pista, emparelhamos os jipes para analisar o acabamento e os equipamentos de cada um. O T4 tem detalhes de fibra de vidro no painel e bancos de couro, enquanto o Wrangler veste plástico e tecido. Os dois possuem ar-condicionado, mas o isolamento térmico do T4 é mais eficiente que o do Wrangler. Neste, o teto modular de material sintético deixa o calor externo irradiar para a cabine. O acesso à parte traseira é melhor no Troller, mas o espaço para quem viaja ali é mais seguro e confortável no Wrangler. Embora o T4 convide três passageiros a sentar atrás, quem vai nas laterais fica com os vidros e o santantônio muito próximos. Em uma trilha, com o jipe sacolejando, é fácil bater a cabeça nessas partes. O santantônio do T4 também impede que o banco traseiro bipartido seja rebatido, embora exista ali a articulação necessária. No Wrangler o assento rebate com muita facilidade.
Os dois jipes possuem modos de tração 4x2, 4x4 e 4x4 reduzida, com diferencial traseiro autoblocante. Mas cada um trata o motorista de forma diferente. O T4 tem roda-livre acionada por meio de borboletas, nas rodas dianteiras, e os engates elétricos, através de teclas no painel. No Wrangler, a roda-livre é automática e os engates são mecânicos.
A segunda parte da avaliação foi em nossa pista de testes em Limeira. O Wrangler, equipado com motor a gasolina 3.8 V6 de 199 cv, se saiu melhor nas provas de desempenho. Mas o T4, diesel 3.0 de 163 cv, não fez feio. Nas retomadas, o Wrangler tirou proveito do câmbio automático, mas nem assim se distanciou muito do T4, que lançou mão do torque, em baixas rotações. Enquanto o V6 rende 32,1 mkgf a 4 000 rpm, o motor diesel entrega 38,8 mkgf a 1 600 rpm. Ou seja, o Troller tinha disposição de acelerar mesmo com o câmbio preso em uma marcha qualquer. Em relação ao consumo, como esperado, o Troller foi mais econômico. Na cidade, fez 8,6 km/l de diesel, contra 6,1 km/l de gasolina do Jeep. Considerando esse rendimento e o fato de que o litro de diesel é, em média, 28% mais barato que o da gasolina, o quilômetro rodado pelo Troller custa cerca de metade do quilômetro percorrido pelo Wangler.
Relativizando-se as diferenças entre os dois, o Wrangler se mostrou superior na maioria das vezes, na trilha, no asfalto, no acabamento e na tecnologia. Esses atributos falam a seu favor no resultado deste comparativo e funcionam como bons argumentos na defesa de seu preço, nada menos que 24% mais caro que o do concorrente, um rival que sabe fazer bom uso de seu arsenal mais modesto.
TROLLER - R$ 84 700

Ele tem motor diesel, acionamento elétrico de tração, câmbio manual e carroceria de fi bra.
DIREÇÃO, FREIO E SUSPENSÃO
A direção é rápida e o freio, eficiente. Mas a suspensão é dura, pula demais e seu curso é curto.
★★★
MOTOR E CÂMBIO
Motor e transmissão estão perfeitamente sintonizados. Puristas preferem o engate da tração mecânico.
★★★★
CARROCERIA
O design é bonito e moderno. Os ângulos de ataque e saída são ótimos. E o acabamento é de boa qualidade.
★★★★
VIDA A BORDO
O motor diesel é mais barulhento, mas o isolamento térmico da capota é eficiente. Desconforto para os passageiros de trás.
★★★
SEGURANÇA
Ele tem apenas os equipamentos básicos em um jipe, como cintos de três pontos, santantônio e apoios de cabeça nos bancos.
★★★
SEU BOLSO
Graças ao motor diesel, ele é imbatível na relação custo/benefício, sem falar que seu preço de tabela é menor.
★★★★
WRANGLER - R$ 104 900

Movido a gasolina, tem acionamento manual de tração, câmbio automático e carroceria de aço.
DIREÇÃO, FREIO E SUSPENSÃO
A direção não é tão direta, mas ele freia bem e a suspensão é macia, além de ter curso longo.
★★★★
MOTOR E CÂMBIO
O desempenho é de automóvel (assim como o consumo). Câmbio automático não é a melhor opção para enfrentar trilhas.
★★★★
CARROCERIA
O design é mais atual. Mas o clássico não lhe caía mal. Ele ficou maior e mais confortável. O acabamento é superior.
★★★★
VIDA A BORDO
Conforto interno é um dos pontos altos do carro. Mas o teto modular, embora seja prático, não tem bom isolamento térmico.
★★★★
SEGURANÇA
Vai além do básico, com a oferta de airbags, ABS e ESP de série. O santantônio fica mais distante da cabeça dos passageiros.
★★★★
SEU BOLSO
Não há vantagens em relação ao gasto com combustível. Mas seu preço maior é plenamente justificado pelo conteúdo a bordo.
★★★★
GEOMETRIA

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VEREDICTO
O T4 tem a favor o motor diesel, que, além de econômico, entrega força mais que suficiente para as necessidades. Mas o Wrangler compensa com suspensão de curso maior e um pacote de recursos de conforto e segurança superior.




