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Carros | Comparativos
206 Flex x Clio Hi-Flex
Maio 2005

206 Flex x Clio Hi-Flex

Liberdade de opção entre álcool e gasolina, igualdade em preço, estilo e motor. Fraternidade, entre esses dois, nem pensar

Por Marcelo Moura / fotos Marco de Bari
Lista de matérias por data:

ALTERAR O TAMANHO DA LETRA  

Este comparativo começou em novembro de 2004, na coletiva de apresentação do Clio 1.6 16V Hi-Flex. Um jornalista perguntou: "A Renault não se incomoda em lançar o motor bicombustível quase um ano depois de Volkswagen, Chevrolet, Fiat e Ford?" Ao que um executivo da montadora respondeu: "Não, tudo bem". E completou, sorrindo: "Importa é que a gente chegou antes da Peugeot". Pensando melhor, este comparativo começou há mais tempo. Talvez em 1898, quando Louis Renault resolveu fazer concorrência aos carros já tradicionais de Armand Peugeot. Nos últimos 107 anos, a ação de uma montadora levou ao esforço de reação da outra, e isso manteve as duas vivas e simétricas. Hoje a Renault lidera o campeonato de Fórmula-1, mas não põe as rodas na principal categoria do mundial de rali, o WRC. Lá é território da Peugeot, que nos anos 90 teve uma passagem apagada pela Fórmula-1.

Para ninguém confundir rivalidade com inimizade, saiba que no Brasil Clio e 206 compartilham o motor 1.0 16V e, lá fora, o V6 3.0 usado por Renault Laguna e Peugeot 407.

As duas montadoras estiveram longe do Brasil por décadas, mas bastou a Renault inaugurar sua fábrica, em 1998, para a Peugeot (com sua irmã, Citroën) abrir outra. Na corrida pelo carro bicombustível, a Peugeot ri por último, com o 206 1.6 16V que chega agora. Resta saber quem ri melhor.

A Peugeot não faz alarde sobre a nova injeção. Nada de Flexpower, Total Flex ou coisa parecida. É "Flex", somente, escrito num adesivo na tampa do porta-malas. A boa notícia é que ele chega a toda a linha 206 1.6 16V (estender ao 307 ainda é um estudo) sem acréscimo de preço. O sistema é da Bosch e se resume a mudanças no mapeamento da injeção, velas com maior capacidade de dissipar calor, bicos injetores e bomba de maior vazão e reservatório de partida a frio. Em versões e acessórios, nada muda. A má notícia fica para quem comprou o 206 SW logo no lançamento, há dois meses, e ficou sem opção na hora de abastecer. "Precisávamos fazer estoque e, na época, não tínhamos injeção suficiente", justifica a montadora.

Agora igualadas no bicombustível, Renault e Peugeot entram neste duelo particular armadas até os dentes: o Clio 1.6 16V Hi-Flex Privilège vem completo de série, com CD player e airbag duplo, por 42080 reais. O único opcional é o freio ABS, que o Peugeot não oferece. O 206 1.6 16V Flex Féline não tem de série airbag nem CD player, mas custa menos (41050 reais) e traz de série vidro elétrico traseiro, sensor de chuva e de escuridão - três cartas que a Renault não tem no baralho. Ao lado de Fiat Palio e Citroën C3, são nossos pequenos mais recheados. O fato de terem chegado há menos tempo ao país, afirmam Peugeot e Renault, traz alguma distinção às marcas francesas.

Outra boa conseqüência da presença recente: Clio e 206 têm dois dos motores mais modernos feitos no Brasil. Ambos 1.6, com 16 válvulas. Os dois tinham 110 cavalos, o que fazia muita gente achar que eram a mesma coisa. Agora, com
álcool, o 206 vai a 113 cavalos - pouco atrás do Clio (115 cavalos). Os dois motores mantiveram a antiga taxa de compressão e, com gasolina, permanecem nos 110 cavalos. O Renault tem mais força (16 mkgf contra 15,5 mkgf) e em rotação mais baixa (3750 rpm contra 4000 rpm), mas a diferença é pequena. No prato da balança, mais semelhança: 1005 quilos para o Clio, 1027 para o 206. Mas isso são números. Vamos ver o que ocorre na pista.

Clio e 206, lado a lado, começam a arrancada. Pé no fundo, pneus borrando o asfalto, marchas trocadas num golpe, passam-se 20 segundos e os dois rivais continuam emparelhados. No fim do primeiro quilômetro, passados 32,6 segundos, alguém abre vantagem. É o Clio, com o 206 no seu encalço, apenas 50 centímetros atrás do pára-choque traseiro. E haverá ultrapassagem adiante, porque o Peugeot tem câmbio mais longo e alcança 190 km/h, contra 187 km/h de seu rival. O 206 anda mais relaxado na estrada, e isso se traduz em consumo menor - mas não em silêncio, porque o pequeno Renault é mais quieto o tempo todo.

O Clio não deixa barato: na cidade, ele é o mais vigoroso, graças ao câmbio mais curto e ao torque maior. Nas retomadas, só deu Renault: com gasolina, andou na frente do 206 usando álcool. Os dois imigrantes franceses fariam bonito na pista contra os concorrentes Fiat Palio 1.8 Flex, Ford Fiesta 1.6 Flex, Volkswagen Fox 1.6 Total Flex e Chevrolet Corsa 1.8 Flex Power: acompanham os mais rápidos na arrancada e os mais econômicos no consumo. No mano a mano, porém, Peugeot e Renault acabam empatados. Não deixe de passar na tabela de testes, no fim da reportagem, para se divertir com a série de empates e quase-empates. Já que a pista não decidiu nada, pode escolher pelo que lhe parecer mais bonito.

O estilo dos dois é exemplo da tradição francesa de fazer tudo diferente. Não espere ver o vidro traseiro do Clio (curvo a ponto de distorcer as imagens) em outro carro, nem os faróis espichados do 206. Antes que fãs do Fiesta se levantem, esclareço que não se trata de beleza, mas de criatividade. Inusitado como estes dois, nessa faixa de mercado, só o C3 - que é feito pela Citroën, uma empresa da Peugeot. O 206 é referência de estilo desde o lançamento mundial, em 1998, mas as coisas mudaram um pouco. O retoque feito aqui em fevereiro de 2004 surtiu menos efeito que a plástica do Clio (de fevereiro de 2003). Curioso notar que, mesmo sem mudar muito, o visual do Renault está entrando na moda - é como um relógio parado que marca a hora certa duas vezes ao dia. Carros com forma blocada e robusta, que parecem mais assentados ao chão, são uma tendência (um exemplo é o Land Rover Discovery desta edição). Por mim, a disputa continua empatada.

contrastes dentro da cabine

Basta abrir a porta, porém, para as diferenças saltarem aos olhos. A cabine do Clio é mais convidativa que a do 206, apesar de mais antiquada. O Renault tem estofamento atoalhado cinza, muito bonito de ver e gostoso de tocar. O painel de duas cores dá distinção e a cobertura das portas, de tom claro, deixa o ambiente arejado. O Peugeot é o contrário disso tudo: painel preto, carpete preto, revestimentos de porta pretos. Só falta escurecer o teto. O tecido dos bancos (adivinhe a cor...) é áspero. O visual do 206 condiz com sua proposta mais esportiva, mas mesmo o motorista com ambições de piloto merece capricho. Ao pegar o volante e a bola de câmbio, as mãos sentem rebarbas no plástico. Nos mesmos lugares, o motorista do Clio encontra, de série, revestimento de couro.

Uma coisa é entrar no carro, outra é ajustá-lo. Nisso, os dois carros são ruins. A regulagem de altura do volante é mínima e o comando dos vidros elétricos fica no pé da alavanca de câmbio. "Me estico tanto que meu braço direito está ficando mais comprido", brinca o fotógrafo Marco de Bari, dono de um Clio. O banco do 206 não tem regulagem milimétrica de encosto, e a Lei de Murphy é implacável: as posições escalonadas pela montadora nunca batem com a sua vontade. E o ajuste de altura é para contorcionistas. O motorista precisa puxar uma alavanca e se levantar para o assento subir. Podia ser pior: o Clio nem regulagem de altura tem. Mas, apesar de o Peugeot prometer mais esportividade, é o Renault que dá ao motorista mais condições de andar forte. A alavanca de câmbio tem engates mais curtos e certeiros e o pedal de embreagem tem curso bem menor.

Nos rivais franceses, o espaço no banco traseiro serve para levar dois adolescentes ou três crianças. Três adultos? Se não forem parentes ou amigos, gente chegada, o mais gentil é oferecer carona até o ponto de táxi. Mas o Renault guarda algo valioso dentro do pequeno porta-malas: o estepe. No Peugeot ele fica embaixo do carro, numa armação de metal. Quando o pneu fura na beira da estrada, o motorista torce para encontrar a roda suja de poeira. Porque a outra opção, bastante comum, é simplesmente não encontrar.

Detalhes tão pequenos fazem a vitória do Renault Clio 1.6 16V Hi-Flex Privilège. É o carro que transmite a maior sensação de requinte, conforto e desempenho, além de trazer de série os equipamentos mais interessantes. Se você não resistir à beleza e aos mimos tecnológicos do Peugeot 206 1.6 16V Flex Féline, vá em frente. Estará muito bem servido. E, em caso de dúvida, faça como a QUATRO RODAS: pergunte a quem tem. Na última edição do prêmio "Os Eleitos", publicada em dezembro de 2004, o 206 ficou na 11ª colocação entre os pequenos hatches, com reclamações sobre a durabilidade das peças, nível de ruído e rede autorizada. No Clio, a queixa dos proprietários ficou concentrada no preço, no valor de seguro e no consumo em estrada (alonga essa quinta marcha, Renault!). Sua posição na mesma categoria? Segundo lugar. Uma viva diferença.

> Veja avaliação

Ficha técnica

Peugeot 206 1.6 16V Flex Féline

Motor
Dianteiro, transversal, 4 cilindros, 16 válvulas
Cilindrada: 1587cm3
Diâmetro x curso: 78,5 x 82 mm
Taxa de compressão: 10,5:1
Potência: 110 cv/113 cv (G/A) a 5750 rpm
Torque: 14,2 /15,5 mkgf (G/A) a 4000 rpm

Câmbio
Manual de 5 marchas, tração dianteira;
I. 3,41; II. 1,80; III. 1,27; IV. 0,97; V. 0,76; Ré 3,50; Diferencial 4,28;
Rotação do motor a 100 km/h em 5ª marcha - 2800 rpm

Carroceria
Dimensões: Comprimento, 384 cm; largura, 165 cm; altura, 143 cm; entreeixos, 244 cm
Peso: 1027 kg
Peso/potência: 9,3/9,1 kg/cv (G/A)
Peso/torque: 72,3/66,3 kg/mkgf (G/A)
Volumes: Porta-malas, 245 l; tanque de combustível, 50 l

Suspensão
Amortecedores hidráulicos e molas helicoidais
Dianteira: Independente, McPherson
Traseira: Barra de torção

Freios
Disco ventilado na dianteira e disco na traseira

Direção
Pinhão e cremalheira, assistência hidráulica,
diâmetro de giro 9,8 metros,
3,8 voltas entre batentes

Rodas e pneus
Liga leve, aro 14; Pirelli P6000 185/65 R14

Principais equipamentos de série
Ar-condicionado, direção hidráulica, rodas de liga leve, faróis com acendimento automático, limpador de pára-brisa com sensor de chuva e ritmo conforme velocidade do carro, travas elétricas com controle remoto, vidros elétricos, computador de bordo, check control, indicador de manutenção, faróis de neblina, banco do motorista e volante com regulagem de altura, banco traseiro bipartido, travamento de portas conforme a movimentação do carro

Principais equipamentos opcionais
Airbag duplo, CD player, comando do rádio na coluna de direção, volante revestido de couro, pintura metálica

garantia
1 ano sem limite de quilometragem

Preço
41050 reais

Ficha técnica

Renault Clio 1.6 16V Hi-Flex Privilège

Motor
Dianteiro, transversal, 4 cilindros, 16 válvulas
Cilindrada: 1598 cm3
Diâmetro x curso: 79,5 x 80,5 mm
Taxa de compressão: 9,7:1
Potência: 110/115 cv (G/A) a 5750 rpm
Torque: 15,2/16 mkgf (G/A) a 3750 rpm

Câmbio
Manual de 5 marchas, tração dianteira;
I. 3,36; II. 1,86; III. 1,32; IV. 1,03; V. 0,82; Ré 3,54; Diferencial 4,07;
Rotação do motor a 100 km/h em 5ª marcha - 3000 rpm

Carroceria
Dimensões: Comprimento, 377 cm; largura, 163 cm; altura, 142 cm; entreeixos, 247 cm
Peso: 1005 kg
Peso/potência: 9,1/8,7 kg/cv (G/A)
Peso/torque: 66,1/62,8 kg/mkgf (G/A)
Volumes: Porta-malas, 255 l; tanque de combustível, 50 l

Suspensão
Amortecedores hidráulicos e molas helicoidais
Dianteira: Independente, McPherson, com triângulo inferior e barra estabilizadora
Traseira: Barra de torção, com barra estabilizadora

Freios
Disco ventilado na dianteira e tambor na traseira, com ABS (opcional)

Direção
Hidráulica, do tipo pinhão e cremalheira,
diâmetro de giro 10,3 metros,
2,8 voltas entre batentes

Rodas e pneus
Liga leve, aro 14; Firestone Firehawk 700 185/60 R14

Principais equipamentos de série
Airbag duplo, ar-condicionado, direção hidráulica, rodas de liga leve, travas elétricas com controle remoto, vidros dianteiros elétricos, computador de bordo, faróis de neblina, retrovisores elétricos, CD player com comando na coluna de direção, volante e manopla de câmbio forrados com couro, travamento de portas com a movimentação do carro, volante com regulagem de altura

Principais equipamentos opcionais
Freios ABS, pintura metálica

garantia
1 ano sem limite de quilometragem

Preço
42 080 reais





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