O motor V8 biturbo de 507 cv deixou o Bentley Continental GT mais leve e esportivo. Mas…
Estou no norte da Suécia, bem no meio da última grande região selvagem da Europa. Por 500 km, em qualquer direção, não há nada além de florestas de coníferas e neve. Bem no fim da manhã o Sol se levanta acima do horizonte, paira por alguns instantes e volta para trás das montanhas. Ele é pálido e totalmente destituído de calor. Faz frio aqui. Muito frio. Eu adoro. Adoro o frio incisivo de uma manhã de inverno escandinava: não importa quantas cervejas você tenha tomado na noite anterior, mesmo a pior ressaca é debelada pelas picadas de agulha do frio intenso e seco. Adoro o céu sem fim. Adoro os trajes para o frio. Adoro ver todo esse pessoal tão alto. Mas o que eu mais adoro é o jeito como as pessoas daqui dirigem seus carros.
Fui apanhado no aeroporto por um homem numa van. À frente nos esperava uma jornada de 4 horas até o lugar nenhum. “Vamos fazer em 3”, disse ele, saindo da área de desembarque de passageiros e apontando sua Sprinter para o norte. Ele estava errado. Viajando firme a 130 km/h, chegamos ao hotel em apenas 2 horas.
O que torna isso impressionante é que, embora os caminhões tenham tirado a neve acumulada da estrada, ela ainda estava coberta por 10 cm de gelo. Na Grã-Bretanha, tais condições fariam com que a TV recomendasse que todo mundo ficasse em casa. Mas, na Suécia, meu motorista dirigia a van como se estivéssemos no meio do verão da Córsega. De vez em quando ele largava seu celular por instantes para corrigir uma pequena saída de traseira, mas dava para ver nos olhos dele que a superfície da estrada não parecia ser um problema. Não é de estranhar que o mundo dos esportes a motor esteja cheio de gente desta região.
É claro, você já ouviu isso antes. Como os suecos nascem com a capacidade de lidar com saídas de traseira. Que eles aprendem a fazer derrapagens controladas antes de andar. Mas eu vou lhes contar um segredinho: os suecos também batem seus carros. E muito. Ontem à noite vi dois caminhões caídos em valetas ao lado da estrada e um carro que atropelou um alce – um estrago. Especialmente para o carro.
Vamos aproveitar e fazer uma pausa para pensar nos reais benefícios da tração nas quatro rodas. Se ela fosse realmente necessária em condições climáticas inclementes, os suecos a teriam abraçado como ferramenta para mascarar suas habilidades ao volante. Mas eles não fizeram isso. Você raramente vê um veículo 4×4 por aqui. A maioria deles dirige carros semelhantes aos de outros países. O que me traz, de forma um tanto quanto desajeitada, à nova versão do Bentley Continental GT com tração integral, um carro de que eu nunca gostei muito. O primeiro automóvel que dirigi foi o Bentley do meu avô, e foi uma experiência alegre, sentado no colo do velho, guiando aquele enorme capô pela então República Socialista de Yorkshire do Sul. Por isso, ela deveria ser uma marca a me trazer doces recordações.
Mas não é o caso, porque nos últimos anos a Bentley foi sequestrada por Paris Hilton, Wayne Rooney e outras celebridades de poder de persuasão bem, digamos, duvidoso. Quando eu soube que jogaram ovos no carro de um jogador do Manchester City “de temperament forte” em uma de suas noitadas, eu sabia que tipo de carro deveria ser. E estava certo. O carro de Mario Balotelli é um Continental. É claro.
E tem mais. Esse não é um carro que tem pretensão de ser especialmente rápido. Tampouco é projetado para ser especialmente esportivo. Então, por que precisa de um enorme motor W12 biturbo de 6 litros? Eu vou dizer. Para que quem o compra possa se gabar para seus amigos naquela boate da moda: “Você só tem um V. Eu tenho um tremendo W”.
Bem, o novo modelo o deixou de lado, em troca de um V8 biturbo de 507 cv mais leve, ágil e esportivo. Ele é parente do motor usado pelo novo Audi S8, mas no Bentley ele tem som de durão. Como se fumasse 60 cigarros por dia. É um som glorioso. E muitas vezes eu abri as janelas de vidro duplo do carro para sentir seu poder bruto. Ele não apenas transformou o som que o carro faz. Ele também mudou a sensação que passa. Eu não vou chamá-lo de bonitinho, mas é muito, muito melhor que o do carro de Paris ou Rooney. E também muito mais econômico. Com sorte, eles vão fazer uns 7 km/l. A versão nova faz 11,5 km/l.
É claro que você poderia ficar imaginando que, com 2 000 cm3 e quatro cilindros a mais, eles vão deixá-lo longe quando o semáforo abrir. Mas não é o caso. De 0 a 100 km/h, o carro novo é praticamente tão rápido quanto a versão W12 (agora ele faz em 4,8 segundos), e ainda atinge a máxima de 303 km/h. E, o que é melhor, ele tem um ronco superior, é mais divertido e mais econômico. E ainda custa 12 000 libras (32 500 reais) a menos.
Já o interior é basicamente o que se espera de um modelo desse tipo: couro acolchoado, botões do ar-condicionado que parecem ter sido montados em mel, painel feito de alumínio trabalhado e uma eletrônica vinda daquele poço infinito de bom senso, a Volkswagen.
É estranho. Isso é tudo o que detesto em um carro de motor grande, e descubro que estou gostando deste. Tração nas quarto rodas? Costumava ser inútil. Agora ela está certa e faz exatamente o que é necessário. Sensor de estacionamento excessivamente sensível? Costumava me deixar louco. Agora não. O peso? Ridículo. Agora? Está excelente – faz o carro passar uma sensação de sólido e plantado na estrada. Eu acho que é um pouco, digamos, como a cidade de Derby, na Inglaterra. Em um dia frio, chuvoso e cinzento, é o pior lugar da Terra. Mas quando o céu muda para azul ela se torna subitamente um lugar adorável. Foi o que aconteceu com o Continental. Mudou um detalhe, mas ele fez com que tudo parecesse melhor.
Exceto o estilo. Desculpem-me, mas em termos visuais esse carro tem para mim o apelo de uma ferida com gangrena. Eu preferia colocar um alce decapitado no meu carro. A Bentley precisa tartar disso logo e, aproveitando, ela também precisa fazer algo sobre os embaixadores da marca. Resumindo, da próxima vez que um jogador de futebol de um time de Manchester entrar em uma de suas concessionárias, a empresa deveria lhe dar um cheque de 200 000 libras (540 000 reais) e lhe pedir para comprar um carro em outro lugar.
Eu gosto muito de Mercedes SLS, BMW M3 e Ferrari 458, mas preferia ter o pequeno Fiat 500 TwinAir.
Eu passei a maior parte da semana brincando com o McLaren MP4-12C e tenho de admitir que, em termos técnicos, de senso comum e de números de pista, ele é muito impressionante. Foi projetado para andar rápido de verdade. Mas faz isso sem qualquer toque teatral. Na estrada, apresenta o comportamento e o som de um Mercedes Classe S. Também é belamente fabricado e, sem dúvida, é um carro que você pode usar no dia a dia. Como resultado, é certamente o melhor carro que já recebeu o logotipo da McLaren. É definitivamente melhor que o velho F1, que eu detestava. E é melhor que o SLR, que tinha uma chave liga/desliga no lugar do pedal de freio: ou você era jogado contra o para-brisa ou não desacelerava.
Ele até pode ser melhor que a Ferrari 458, e isso é algo que eu não achava que ia dizer tão cedo. Mas não tenho vontade de ter um. É a mesma história com o Bugatti Veyron. Sim, é uma obra-prima, uma tempestade de fogo de magnésio e materiais compostos, de esplendor, perseverança, persistência de engenharia e potência de cair qualquer queixo. Mas nunca cheguei a pensar: “Caramba, eu adoraria ter um desses na minha garagem!”
Senti mais ou menos a mesma coisa no novo restaurante de Heston Blumenthal em Londres, algum tempo atrás. Ele faz comida da mesma forma que a McLaren e a Bugatti fazem carros. O pato é reduzido a nível molecular, tratado com gases exóticos e então remontado antes de ser preparado por um time de homens vestidos como se fossem guardas do esconderijo secreto de um vilão de filmes de James Bond. Até o sorvete é feito com uma máquina de costura.
O resultado é simplesmente espetacular. Sem a menor sombra de dúvida, a musse de limão de Heston é a segunda melhor coisa que já coloquei na boca e, embora a textura da gordura do pato lembrasse ligeiramente um agasalho acolchoado que tivesse sido deixado na chuva, seu sabor era maravilhoso. Era um “pato plus”. Um superpato. Um pato Veyron.
Apesar de eu admirar a habilidade e o conhecimento de Heston, não fico sonhando com o dia em que poderei provar seus pratos novamente. Se eu gostei? Sim, e muito. Estou contente de ter experimentado? Com certeza. Mas haverá algum dia em que nada além do seu famoso prato de ossobuco fará minha felicidade? Duvido. Eu acho que é porque, em nossas vidas complicadas, ansiamos apenas pelo simples. Uma noite na frente da TV. Um jantar íntimo. Um jogo de cartas. Em festas chiques, eu acabo conversando com uma jovem bela e fascinante que acabou de escrever um livro sobre algo muito interessante e engenhoso. Mas do que eu sinto falta é de estar no bar com meus amigos
O mesmo pode ser dito de carros. Gosto muito do Mercedes SLS, do Jaguar XKR, do BMW M3 e da Ferrari 458. Mas o carro que eu mais gostaria de ter é o Citroën DS3 Racing, sobre o qual escrevi há algum tempo. E logo depois vem o pequeno Fiat 500. É claro, você conhece o 500. A filha daquele amigo seu provavelmente tem um. Você gosta da jovialidade e da forma como ele é ao mesmo tempo retrô e moderno. Mas a coisa fica ainda melhor, porque, embora o Fiat tenha um conceito muito semelhante ao do Mini – ambos são declarações de estilo em primeiro lugar e carros em segundo –, ele é muito mais barato. E, como uma pequena cerejinha em cima do bolo, é um carro que não precisa ser prata ou preto, como 75% dos outros carros na estrada. Ele pode ser azul claro, amarelo-ovo ou vermelho brilhante. Você pode até cobri-lo com adesivos. E deveria.
Resumindo, o pequeno Fiat é uma máquina alegre que o faz sorrir, mas o carro de que estou falando hoje é diferente. E melhor. É o novo TwinAir, que tem um motor bem diferente de tudo que já vi.
Em primeiro lugar, tem apenas dois cilindros. Bem, isso, por si só, não é exatamente uma ideia revolucionária. O antigo Fiat 500 tinha motorização semelhante. No entanto, na nova versão, não há árvore de comando de válvulas. Em vez disso, as válvulas de escape acionam as de admissão usando elementos hidráulicos e eletrônicos. E isso parece a melhor solução que já apareceu para um problema que não existe. Mas o resultado final é espetacular. Em primeiro lugar, há o ronco. Lembra aquele som que se ouvia ao encostar uma varetinha de madeira nos raios da roda da bicicleta. É como ele. Só que amplificado. É um dos melhores sons de motor que já ouvi. E daí vem a pegada. Sim, ele pode ser pequenininho, com apenas 875 cm3, mas é equipado com turbo, fazendo com que você tenha 85 cv. Significa que você pode andar em rodovias com facilidade. E ele arranca com a velocidade de uma bola chutada pelo jogador Roberto Carlos. E tem mais. Como o atrito em um motor de dois cilindros é bem menor que em um de quatro, ele é incrivelmente eficiente, o que significa que emite menos CO2 que um cara gordo em uma bicicleta alugada.
Certamente, esse carrinho é dez vezes mais amigo do ambiente que um Toyota Prius, porque ele é menor, feito com menos peças e a Fiat não precisa pilhar a zona rural canadense e causar chuva ácida para fazer suas baterias. Com esse carro pequeno, todo mundo ganha. Especialmente as empresas de petróleo. Porque, infelizmente, o TwinAir não é, exatamente, o que você chamaria de econômico. Ele seria, se você o dirigisse de forma comedida – e, se você pressionar o botão Eco do painel, ele provavelmente será. Mas você não vai usar o botão Eco. E não vai dirigi-lo de forma comedida. Porque é impossível. Tão impossível quanto esperar que um filhote de cachorro fique parado.
Eu fiquei com o carrinho durante uma semana e gostei tanto do seu ronco que ele me fez conseguir a marca de 16 km/l – já fiz consumo melhor com a versão esportiva Fiat 500 Abarth. E, para tornar o argumento da economia ainda menos palatável, o TwinAir custa cerca de 1 000 libras (2 730 reais) a mais do que um modelo com especificações semelhantes, e com o dobro de cilindros.
Mas isso não importa, porque quando você singra pelo centro de Londres fazendo com os dedos o sinal da vitória para as câmeras de congestionamento, arrancando mais rápido que as motos nos semáforos e deliciando-se com aquele ruído fantástico, você realmente não vai se importar. O 500 é um grande carrinho. E agora você pode tê-lo com aquele que é quase certamente o melhor motor… do mundo.
O Lamborghini Aventador é um monstro feroz no qual, quando se acelera, você não pilota mais, apenas dá um jeito de não cair da sela
Como regra geral, todas as cidades dos EUA são exatamente iguais. Todas têm um lugar da moda no centro, rodeado por grandes lojas vendendo comida sem gosto em grandes quantidades. Os hotéis também são todos iguais. É por isso que Miami para mim sempre é uma surpresa agradável. Ela é diferente. A faixa conhecida como Miami Beach conta com centenas de hotéis e prédios residenciais em estilo art déco, algo que você não encontra em nenhum outro lugar.
No resto do mundo, o fim da década de 50 foi cheio de fumaça, feiura e miséria, mas na América foi uma época de esperança, aventura e bravos jovens bebendo e dirigindo, indo a festas regadas a álcool e conversas embaladas pelo sonho de ir ao espaço. E você ainda consegue sentir esse clima em Miami Beach hoje. Eu gosto daqui. Infelizmente, há um problema. Você não pode aparecer com seu cabelo desgrenhado, peitorais flácidos e barriga de cerveja porque vai parecer ridículo. Em Miami, você precisa fazer um esforço.
Por isso, ter uma lancha não é suficiente. Você precisa ter um barco com três motorzões na popa e um tigre enorme pintado na lateral. Da mesma forma, não basta ter uma moto. Ela tem de ser tão customizada quanto o corpo de sua namorada e deve ter um garfo de 3 metros, banco coberto de pele de baleia e escapamentos que não fazem absolutamente nada para silenciar o som do motor V8 de 7 litros, ao redor do qual você não conseguirá acomodar suas pernas.
Eu fui jantar em um restaurante chamado Prime One Twelve. Como é considerado o lugar mais na moda, entrar não foi fácil. “O senhor tem reserva?”, perguntou a garota na recepção. Após saber que eu não tinha, ela me olhou de alto a baixo, viu que sou gordo e que meus dentes têm a cor de um teto de madeira e decidiu que, ao contrário de todas as evidências, o local estava cheio. É claro que não estava, mas alguns minutos depois o garçom me passava o cardápio, que era baseado na quantidade servida no prato. Meu acompanhamento de espinafre foi servido em uma banheira. E a carne? Santa Mãe de Deus! Era como se tudo tivesse sido produzido em um daqueles vales perdidos de um filme B de Hollywood, onde as formigas têm o tamanho de homens e melões são maiores que aviões.
No entanto, eu não prestei atenção no brontossauro morto no meu prato porque eu estava totalmente fascinado pelo espetáculo que se desenrolava do lado de fora. O Prime One Twelve atrai a nata dos exibidos. Os carros que chegavam eram loucos. Camaros conversíveis com suspensões extremamente elevadas e rodas com calotas giratórias. Bentleys com rodas de 24 polegadas. Um sujeito chegou em algo que parecia um inseto de neon. Outro em um Rolls-Royce rebaixado. Eu só posso começar a imaginar como esses carros devem ser terríveis de dirigir – isso sempre acontece quando você coloca rodas que poderiam servir de estepe de caminhão –, mas isso não importa. Em Miami, carros não são para dirigir. Eles são para chegar.
Eu juro que não estou inventando o que vem a seguir. Casais surgiam no saguão do prédio residencial que fica do outro lado da rua do restaurante. Eles, então, aguardavam de 5 a 10 minutos para que o manobrista trouxesse seu carro da garagem subterrânea. E dirigiam 50 metros até o manobrista do restaurante. No fim, quem se importa se a suspensão foi detonada? Quem se importa que você precise de uma escada para descer do Camaro? E quem se importa que o escapamento modificado do seu Porsche possa deixá-lo surdo depois de rodar 10 km? Você nunca vai andar tanto assim.
No resto do mundo, as pessoas compram carros pelas mais variadas razões. Economia de combustível. Velocidade. Espaço interno. Conforto. Já em Miami as pessoas compram (ou alugam) carros para se exibir; para demonstrar que lá na Filadélfia sua fábrica de argolas para cortinas de banheiro está indo muito bem.
O novo Lamborghini Aventador combinaria bem com o resto. Mesmo antes de você equipá-lo com rodas ridículas e uma pintura customizada, as pessoas certamente perceberiam as 250 000 libras investidas (700 000 reais). Ele é 5 cm mais largo que um Range Rover; aproximadamente a mesma largura de um ônibus de Londres. E usa um V12 de 6,5 litros. Tenho minhas dúvidas sobre se voltaremos a ver a produção de outros motores como esse. Hoje, graças às normas de emissões de poluentes europeias, turbocompressores são a única resposta realista.
É uma pena, porque a presença do empuxo é inebriante. A aceleração é tão intensa quanto a vista do mar de Miami (0 a 100 km/h em 2,9 segundos), e a velocidade máxima é de 350 km/h, ou cerca de 340 km/h acima do que ele jamais andaria por aqui.
E fora desse ambiente? Por exemplo, no mundo civilizado de dinheiro antigo e bom gosto?
A Lamborghini faz questão de destacar que o motor é o primeiro V12 totalmente novo desde aquele do Miura, que o sistema de tração nas quatro rodas é o mais avançado que a tecnologia pode oferecer, que possui freios de cerâmica de carbono e que sua suspensão tipo push-rod é inspirada diretamente nas usadas na Fórmula 1.
No caso do último item, a única vantagem seria reduzir a massa não suspensa. Mas não sei o quanto isso faz diferença em um carro que pesa quase tanto quanto um vagão de trem. Eu suspeito de que a única razão real de equipá-lo com tal sistema é para que seu feliz proprietário sinta que, atrás da vastidão e por baixo do estilo extravagante, brilhante e exibicionista, existe alguma credencial estilo Ferrari.
Sinceramente? Não existe. É um carro bruto. Você não o dirige. Você luta contra ele. Ele é mais refinado que os Lambo antigos e menos inclinado a querer matá-lo. Mas, quando pisa mesmo no acelerador, você não está mais pilotando. Você está dando um jeito de não cair da sela.
Eu o pilotei pela Itália e, embora seja silencioso e surpreendentemente confortável, e mesmo tendo controles e sistema de navegação por satélite da Audi, você nunca pode se esquecer de que se trata de um monstro feroz. E foi isso que eu adorei.
Adorei a velocidade. Adorei o visual – é provavelmente o carro mais bonito já feito – e adorei a absoluta estupidez e tolice de seu painel, seu bico e sua traseira insana.
Eu não gostaria de ter um. Preferia ter herpes. Dito isso, eu realmente quero viver em um mundo onde possa sentar na parte de fora de um restaurante de Miami e ver uma pobre garota tentar sair do banco do passageiro sem acabar mostrando sua calcinha.
Achei que o Evoque era um chassi de Ford Mondeo usando pernas de pau, com motor de quatro cilindros e interior by Victoria Beckham
Não importa a pergunta que você fizer, a resposta é sempre um Range Rover Vogue SE a diesel. Qual é o melhor carro para levar as crianças para a escola? Qual é o melhor carro para voltar tranquilamente para casa após o trabalho? Qual é o melhor carro para cruzar a África? Qual é o que fica mais bonito num bairro chique da capital? Range Rover. Range Rover. Range Rover. Esta semana eu dirigi o novo e insano Mercedes C 63 AMG Black Series. É um carro projetado e construído para acabar com seus próprios pneus. Um jogo durou meros 25 minutos. Eu adorei,
é uma festa. Mas, e para usar no mundo real? Não. Eu preferia ter um Range Rover. E não sou o único. Há poucos dias estive em uma recepção promovida por uma estrela da sociedade londrina. Quatorze casais estavam presentes, e todos, sem exceção, chegaram em um Range Rover.
Temos um pequeno segredo no programa Top Gear. Eu e Richard Hammond. Nós sabemos que, não importa qual carro analisemos, ele não será tão bom quanto um Range Rover a diesel. Não ousamos espalhar isso por aí, no entanto, porque isso tiraria a razão de ser do programa. Hammond tem cerca de 700 carros, milhares de motos e um helicóptero. E você poderia imaginar que ele passa horas decidindo o que vai dirigir. Mas isso não ocorre. Ele sempre usa seu Range Rover. Eu sempre uso o meu. Porque, não importa o que você fizer, ele é a resposta.
Dito isso, a Land Rover está tentando estragá-lo com um programa para incluir nele coisas totalmente desnecessárias. Parece que ela está pensando que um Range Rover não precisa fazer bonito em qualquer lugar, só mansões de luxo. E também há a bateria dos modelos novos, que descarrega sem uma razão lógica. Também já houve outros erros, como o Range Rover Sport. O que ele não é. Por baixo da carroceria, é um Land Rover Discovery, o que quer dizer que é tremendamente pesado. Então, não é um Range Rover. E tampouco é esportivo. É um carro bobo.
Mas nem a metade do quanto o Evoque pareceu quando ouvi falar nele pela primeira vez. Ele seria um chassi de Ford Mondeo usando pernas de pau, com um motor quatro-cilindros e um interior desenhado por Victoria Beckham. Parecia que a Land Rover tinha perdido o bom-senso. Esse salão de bronzeamento com limpadores de para-brisa acabaria com a marca. Sem dúvida, seu visual era impressionante. Especialmente as três portas. Mas eu sabia que por baixo de seus peitos siliconados e sua barriga tanquinho estaria um carro que acharia que faisões têm pelos e a capital do Brasil é Buenos Aires.
Mas eu estava errado, porque o Evoque é brilhante. É um desses carros no qual eu tive de passar horas tentando achar alguma coisa – qualquer coisa – para reclamar. E tudo o que achei foi um botãozinho que exige mais esforço do que seria necessário para operá-lo. Algumas pessoas
dizem que os plásticos que você não pode ver são um pouco frágeis. Mas quem se importa com isso? Os plásticos que você consegue ver parecem ótimos, e na maior parte são cobertos por couro belamente costurado. O interior é fabuloso.
Ah, também tem algumas pessoas dizendo que ele é caro demais. Mas, se isso fosse verdade, a Land Rover não teria recebido 30 000 pedidos até agora. Grave minhas palavras: logo você não precisará procurar para ver um Evoque. Ele ultrapassará o hidrogênio como o elemento mais abundante no universo.
O carro que eu testei tinha um motor diesel de 2,2 litros que funcionava de forma suave, fazia 18,8 km/l e empurrava o suficiente para ir de 0 a 100 mais rápido que um Golf GTI. A dirigibilidade era boa. E a suspensão também. Mas só no modo Normal. Se passar para a posição Sport, o carro todo vira um pula-pula. Esse, no entanto, é o modo que você deve selecionar, porque quando você aperta o botão os mostradores passam de um azul prateado para um escarlate vivo. Você também pode mudar a iluminação da cabine de um azul frio de bar de vodca para um vermelho burlesco. E essa é só a ponta do iceberg tecnológico, o que significa que a fiação elétrica desse carro é maior que a de um Airbus A380. Veja o televisor, por exemplo. Ele fica no meio do painel e é capaz de mostrar duas coisas ao mesmo tempo. Isso quer dizer que minha mulher pôde assistir a um jogo enquanto eu consultava o GPS. Como é possível? Ou eu poderia escolher a imagem ao vivo de uma das cinco câmeras montadas na parte de fora do carro. Ou o computador de bordo. A central de comando do Evoque é a melhor do mundo. Você gasta tanto tempo brincando com ela que a viagem passa voando. E, como você raramente vai atentar para onde está indo, corre o risco de uma batida.
É claro que a Land Rover não estava contente em colocar o carro à venda e receber os aplausos e os lucros. Por isso, uma “cabeça coroada” disse no lançamento que a capacidade de fora de estrada não era realmente tão importante. É uma coisa idiota para se dizer quando você está querendo vender um Land Rover. E duas vezes idiota, porque obviamente isso não é verdade. É por isso que o Evoque tem uma distância em relação ao solo maior até que a do Freelander, com o qual compartilha muitos componentes. E é por isso que os ângulos de ataque são tão bons, permitindo-lhe subir e sair de rampas íngremes sem bater a parte de baixo da dianteira ou da traseira. E o Evoque é equipado com os mesmos recursos eletrônicos off-road que você encontra no grande Range Rover.
O que nós temos aqui, então, é um verdadeiro Range Rover que também é um Audi TT, um hatch quente, um fora de estada e uma loja de eletrônicos embalados em um pacote pequeno e fácil de estacionar. Se fosse um vendedor de BMW X3, Ford Kuga ou qualquer carro semi-off-road de suspensão elevada, eu iria para o banheiro chorar. Porque qualquer um que quiser um carro dessa categoria e não escolher o Evoque é tão louco que deveria ter sua carteira de motorista cassada.
Na verdade, é como um iPad: se tiver um smartphone e um notebook – e você tem ambos –, você não precisa de um. Mas aposto que isso não o impediu de ir correndo comprar um, não é? Eu tenho o mesmo problema com o Evoque. Eu tenho um Volvo de sete lugares, um grande Range Rover e um rápido Mercedes. Eu não tenho absolutamente qualquer necessidade na minha vida para um Evoque, mas eu quero ter um. E você também vai querer.
Talvez eu precise criar um novo número de estrelas para ele. Porque a versão a diesel simples é facilmente um carro cinco estrelas. E ele pode ser até mais do que isso.
Jornalista, apresentador do programa Top Gear, celebridade amada pelos fãs e odiada por algumas marcas