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GRID - BLOG - Luciano Burti

Barbeiragem coletiva

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Você é mais um daqueles que se sentiram traídos com a armação da Ferrari no GP da Alemanha? A revolta é um sintoma de que seu compromisso com o espírito que norteia o esporte está em perfeitas condições. Não foram poucas as reações de decepção. Alguns garantem não torcer mais por Felipe Massa. Apesar de genuína, a reação pode conter alguma precipitação. Acredite, a questão é mais complexa do que parece. Vamos aos pontos.

1 – Como piloto de testes da Ferrari de 2002 a 2004, posso afirmar: para os dirigentes, a Ferrari estará sempre em primeiro lugar. E eles deixam isso claro desde o início. Quando sentei com Jean Todt para assinar o contrato, ele fez questão de frisar que eu estava ingressando na equipe para ser o piloto de testes, ponto final. Queria que meu foco fosse o desenvolvimento do carro e não minha performance. E pode ter certeza de que todos os pilotos que passaram por lá ouviram o mesmo: “Você está sendo contratado para trabalhar para a Ferrari, não se esqueça disso”.

2 – Não há dúvida de que a vontade de Alonso de vencer um campeonato é grande – sua última conquista foi em 2006. De lá para cá, passou pela McLaren em 2007, onde aprendeu que brigar dentro da própria equipe pode ser um grande equívoco. Depois retornou para a Renault em 2008, onde não teve carro para brigar pelo campeonato. Agora na Ferrari, com um carro competitivo e o maior salário do grid, vencer o campeonato é quase uma obrigação.

3 – No caso de Felipe, sua experiência o leva crer no jogo de equipe. Em 2007, ele entregou a vitória no Brasil para Raikkonen, levando o finlandês ao título. E, em 2008, o retorno: Raikkonen deu de presente o segundo lugar na China a Felipe, ajudando-o a chegar à última etapa em Interlagos, onde quase foi campeão. Aí veio 2009, com o acidente na Hungria. Nesse momento, Massa teve um enorme apoio da equipe, foram muito fiéis em dar o tempo necessário para Massa retornar sem temer pela perda de sua posição.

Assim que Felipe deixou Alonso ultrapassá-lo, parte da torcida que vê Massa como o atual ídolo nacional do esporte, decepcionada, bateu forte: “Ele deveria ter desobedecido a ordem. Se fosse demitido, ele iria para outra equipe”. Será? E quais seriam suas opções? RBR, McLaren e Mercedes já têm seus pilotos para 2011, algumas até para 2012. Massa sabe que ficar na Ferrari é fundamental para ter chance de ganhar um título (seu contrato vai até 2012).

“O interesse dele está no dinheiro, só isso.” Digo que não. Felipe se encontra numa situação financeira em que não precisa colocar isso em primeiro lugar. “Ele deveria ter a postura forte de colocar o piloto à frente da equipe, como alguns já fizeram.” É verdade, isso seria uma grande atitude, mas posso dizer que não é fácil para o piloto impor tal força ainda sem uma faixa de campeão. Isso faz muita diferença.

Sendo assim, minha opinião é que houve uma grande trapalhada. A Ferrari errou ao colocar seus
interesses acima do esporte. Diferentemente do futebol, o automobilismo é um esporte individual em que a vitória de um piloto tem mais valor que a conquista da equipe. Alonso, com seu talento, tem qualidades de sobra para prescindir de “ajudas” desse tipo. Tem motivos para saber que, mais que vencer, importa como se vence. E Felipe perdeu a chance de de se posicionar perante a equipe, mostrando que uma vitória é fundamental para completar sua recuperação. E mais para a frente, se não tivesse condição matemática de brigar pelo título, poderia ajudar a equipe como fez no passado. Até aí, jogo jogado.

Bom, devemos dar outra chance para eles? Acho que sim, principalmente para o brasileiro. Não devemos esquecer seu grande mérito nas vitórias conquistadas para nosso país. Aliás, aí está o motivo que fará toda a diferença para reatar a relação com sua torcida. Precisamos de um fim de corrida com o Galvão narrando: “Felipe, Felipe, Felipe Massa, é do Brasil!”

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A virtude do equilíbrio

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Para quase toda atividade humana, haverá sempre diferentes maneiras de executá-la. No esporte não é diferente. Talento, porte físico, personalidade, até mesmo a nacionalidade do atleta são características que podem influir no modo de atuar. Isso vale – e muito – para pilotos. No caso de profissionais de ponta, como na F-1, o desempenho e a forma de pilotar são esmiuçados perante o público. Não bastassem as imagens intimistas do piloto no cockpit e as reações do carro sob vários ângulos, muito se fala sobre o estilo de cada um. “Este é agressivo”, “aquele é mais técnico” e “esse não está com nada, falta arrojo”. Pois bem, podemos avaliar uma pilotagem pela TV, mas é nas arquibancadas que enxergamos melhor a característica de cada corredor. Três pontos fundamentais fazem a diferença. A trajetória em curvas, a condução do esterço no volante e o acionamento dos pedais de freio e acelerador (em carro com câmbio manual também se considera o trabalho na embreagem).

Costumamos chamar de agressivo o piloto que sempre freia tarde, muito próximo à curva, ou aqueles que tendem a “andar de lado”, com o carro virando para um lado e o volante para o outro. Na verdade, podem ser características de agressividade, sim, mas não raro são evidências de falta de técnica, o “overdrive” (pilotagem que passa do ponto, numa tradução livre). Em contrapartida, há os que usam o volante com suavidade e pouco erram, mas essas características também podem ser creditadas a pilotos lentos, que não buscam o limite.

Na Austrália vimos Felipe Massa ter dificuldade no aquecimento dos pneus, enquanto o companheiro, Fernando Alonso, não. Vale lembrar que, mesmo com carros semelhantes, o acerto aerodinâmico e de suspensão influencia no aquecimento de pneus. Mas uma outra questão levantada foi sobre a diferença do estilo de pilotagem entre eles. Massa tem hoje um estilo eficiente, fruto de sua evolução junto à Ferrari, que o “acalmou” após sua chegada à F-1 com uma tocada muito agressiva. Já Alonso, aparentemente com estilo parecido, tende a fazer um traçado um pouco diferente. Em geral faz o turn-in (esterço do volante na entrada de curva) mais tarde. Com a curva já ficando para trás, vira o volante de forma mais forte e agressiva. Essa técnica pode aumentar o atrito dos pneus com o asfalto, gerando mais temperatura. Mas isso varia caso a caso. Porém, o turn-in mais suave do Felipe poderá ajudar no equilíbrio do carro e na conservação dos pneus.

Como se vê, há vantagens e desvantagens nas duas opções. O grande piloto Jackie Stewart costuma dizer que o mais importante é a saída de curva. Sua recomendação é então abusar (entenda-se por não retardar demais) das freadas para acelerar cedo e conseguir boa velocidade nas retas. Faz todo sentido. Já Michael Schumacher ficou conhecido por ser bastante agressivo nas freadas – era visivelmente o piloto que freava mais próximo das curvas. Alguém pode duvidar da eficácia do método? Outro exemplo: Alain Prost se destacou por sua técnica, com suavidade no volante e progressividade no acelerador, enquanto Senna colocava seu carro de lado em algumas situações e constantemente “bombeava” o acelerador nas curvas para equilibrar o carro a seu gosto.

Diante desses exemplos campeões, fica evidente que não existe estilo melhor ou pior, certo ou errado. O que faz a diferença é a melhor média, ou seja, o equilíbrio entre esses procedimentos. A medida para isso é quando o piloto tem 100% de acelerador por mais tempo e o volante com o mínimo esterço possível. Como se vê, o equilíbrio é uma virtude universal para todos os ramos da atuação humana.

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Cobrança de fim de semana

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Diz-se que eleitor tem memória curta: esquece episódios desabonadores dos candidatos, promessas não cumpridas e até mesmo quem levou seu voto na eleição anterior. Mas não é só nas urnas que essa amnésia se manifesta: na F-1, o torcedor quase sempre julga o piloto com base em um único critério – o último resultado.

Pergunte a Felipe Massa. No começo da temporada, ele foi criticado por não marcar pontos na Austrália e na Malásia. Diziam que ele “estava fragilizado” porque a Ferrari estava trabalhando mais para seu companheiro de equipe… Massa já era considerado o número 2. Para os mais alarmistas, já estaria sendo ejetado da Ferrari em favor de Sebastien Vettel…

Bastaram duas vitórias, no Barein e na Turquia, para que ele voltasse a ouvir elogios. O auge foi com o primeiro lugar na França, onde se tornou o primeiro brasileiro a liderar o Mundial desde Ayrton Senna.

Foi o suficiente para que o entusiasmo ufanista norteasse os comentários: “Este ano, com certeza, é do Felipe”, “Sabe como ninguém lidar com a pressão”, “A Ferrari trabalha para ele, é mais querido pelos italianos”… Daria para encher a página de tantos elogios, muitos deles vindos dos mesmos que batiam sem piedade no começo do ano.

O mais incrível é que no GP seguinte, com as várias rodadas de Massa em Silverstone, as críticas não só voltaram como também puseram até sua capacidade e talento em xeque, com direito a rótulos como “Felipe não sabe guiar na chuva”. O show do piloto sobre piso molhado, em Mônaco, neste ano, quando ele abria até 2 segundos por volta sobre seus adversários, foi simplesmente deletado da memória.

A corrida de Silverstone foi, de fato, um fim de semana daqueles para Felipe esquecer. Mas todos os esportistas têm esses dias. A chuva, aliada a uma Ferrari que não tinha o acerto ideal, produziu uma combinação que não se encaixa no estilo arrojado de pilotagem do Felipe. Faltou uma tocada mais cuidadosa? Acho que sim, mas é esse mesmo arrojo que faz dele um cara capaz de ganhar GPs como os de Barein, Turquia e França.

Esse arrojo é um dos pontos fortes de Felipe. O lado técnico não é natural nele, mas o brasileiro vem se desenvolvendo de forma impressionante desde que entrou na Ferrari, onde teve como referência ninguém menos que Michael Schumacher.

Não é só o torcedor brasileiro que tem memória curta, que o diga Lewis Hamilton. No ano passado, ainda estreante, ele era considerado um piloto frio, muito bom sob pressão, mas os erros no final da temporada e a má apresentação no Canadá e na França, neste ano, já colocaram o inglês na berlinda. Isso até vir Silverstone e… Lewis ser novamente coroado!

O mais acertado é analisar cada piloto. Uns são mais técnicos, outros mais arrojados, uns andam bem na chuva, outros nem tanto. E entender que às vezes ele passa por uma fase ruim, falta de sorte ou, mais provável, ausência de carro mais competitivo. Erra-se bem menos quando se tem um carro bom nas mãos, graças à maior aderência e melhor equilíbrio. Comprovei isso em 2001, com a Prost. Sofri várias saídas de pista porque o carro era muito difícil de pilotar, enquanto na Ferrari fiz três temporadas como piloto de testes, tendo percorrido mais de 30 000 km, e bati apenas uma vez por causa de um erro.

Erros todos cometem, mas é preciso primeiro entender o que ocorreu, levando em conta as características de pilotagem, ver se essa é uma tendência do piloto ou se aquilo foi um fato isolado, as circunstâncias em que o erro aconteceu e o carro que ele está pilotando para depois julgar sua capacidade. E aí, sim, eleger o seu piloto favorito. Como, aliás, um bom cidadão deveria fazer em relação ao seu candidato.

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Fenômeno Hamilton?

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Antes da temporada me perguntavam: será que Felipe Massa vai brigar pelo título? Isso já uma certeza. Mas outra questão se tornou quase obrigatória nas conversas sobre F-1: e esse tal de Lewis Hamilton? Pois bem, existem dois times claramente definidos. A turma que acha o inglês um fenômeno e o pessoal que diz que o primeiro piloto negro da F-1 ainda não provou seu valor. Quer saber? Acho que as duas facções estão exagerando. Penso que a categoria nunca assistiu a uma estréia tão comentada quando a do piloto da McLaren. Talvez tenha ocorrido algo próximo apenas quando Jacques Villeneuve entrou na F-1 pela equipe que dominava a categoria naqueles tempos, a Williams. Vejo uma semelhança na forma com os dois estrearam na categoria. Enquanto Villeneuve brigou pelo título logo em 1996 (que acabou nas mãos de Damon Hill), posso ver a liderança do Mundial de Hamilton e também sua inédita seqüência de seis pódios com uma vitória (um recorde tanto pela precocidade como por ser estreante) como um campeonato bastante parecido com aquele de 11 anos atrás. Mas vale lembrar que, naquela época, a disputa ficou mesmo entre Hill e Villeneuve, enquanto neste ano Hamilton tem de enfrentar não apenas Fernando Alonso, o atual bicampeão da categoria, como também os prodígios da Ferrari, Kimi Raikkonen e, claro, Felipe Massa.

Esse concorrido cenário só faz crescer o mérito dos pódios de Hamilton. Tudo bem, ele foi sempre treinado para estar na F-1, pois está no programa de desenvolvimento da McLaren desde o kart. Não é à toa que gente como Jackie Stewart disse que nunca viu um piloto tão bem preparado para estrear na F-1. E não há mesmo: o próprio Villeuneve e até mesmo Montoya chegaram em equipe grande, mas vindos de outra escola, com conquistas na Fórmula Indy.

Pois bem, colocado tudo isso, vejo Hamilton como um excelente piloto, extremamente talentoso e que vem demonstrando grande potencial para lutar pelo título. Porém acredito que a McLaren, este ano, aposte mais em Alonso – algo natural, até porque o espanhol carrega no carro o número 1 e isso exige respeito. Hamilton parece saber disso, pelo menos em suas ponderadas entrevistas. A mídia inglesa, sedenta por uma polêmica, acha que ele foi prejudicado por ordem da equipe. Em minha opinião, não houve nada ilícito na visão da McLaren no GP de Mônaco. O que houve, como é comum na F-1, é um exagero em busca de reportagens sensacionalistas, o que a mídia inglesa adora, já que precisam de ídolos também. O Jenson Button, que correu comigo de F-3 Inglesa (fui vice no ano em que ele foi terceiro colocado), sempre teve esse apoio, além do lado bom de retorno de mídia e do lado negativo das cobranças exageradas. Mais ou menos como o Rubinho Barrichello enfrentou no Brasil quando o Ayrton Senna nos deixou.

Acho que Hamilton está provando seu valor, ainda que haja alguns exageros na expectativa. Sua vantagem é a extrema regularidade, premiada pelo atual sistema de classificação, com os oito primeiros pontuando e só 2 pontos separando os três primeiros (10, 8 e 6). Mas, para ganhar status de fenômeno, ele ainda precisa passar pelo teste da conquista de um título.

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Nada será como antes

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Depois de três corridas, falar sobre o favorito do Mundial de F-1 deste ano ficou ainda mais difícil. Ainda bem. Se antes do primeiro GP do ano, na Austrália, qualquer previsão seria mais especulação que análise – justamente pelas diferentes configurações usadas nos testes de pré-temporada -, agora o panorama permanece indefinido, mas por razões completamente distintas.

O forte favoritismo da Ferrari parecia líquido e certo, limitado a apenas uma disputa interna entre Kimi Raikkonen e Felipe Massa, com o brasileiro levando certa vantagem por já conhecer bem o ambiente da equipe e também ter dominado a maioria dos treinos.

A McLaren, apesar de apontada como potencial surpresa, não chegava a motivar apostas já a partir das primeiras etapas. E, por mais bem credenciado que Lewis Hamilton fosse (com aval de gente do naipe de Jackie Stewart, que afirmava nunca ter conhecido um estreante tão bem preparado para estar na F-1), era difícil imaginar que saísse do Barein empatado na liderança com Alonso e Raikkonen. Antes do começo do ano, eu diria que Hamilton teria chance de ganhar alguma corrida, mas jamais que lutaria pelo título. Vendo o que ele fez nessas três primeiras provas, já não dá mais para dizer que isso é impossível.

Tem gente que pode pensar: onde estava esse moleque até o ano passado. Será que só agora surgiu esse talento? Óbvio que não. O segredo da carreira de Hamilton é que, desde os 10 anos de idade, ele pôde se preocupar apenas com uma coisa: pilotar. O apoio da McLaren desde o kart foi fundamental e, claro, o talento dele também, já que sem ele não conseguiria progredir nesse programa de desenvolvimento de testes.

Surpresas como essas mostram que a F-1 está longe de ser um esporte previsível. E que o fator humano faz muita diferença, sim, por mais que a tecnologia envolvida ultrapasse as centenas de milhões de dólares.

Mas, se ninguém previu esse começo tão eletrizante de campeonato, isso significa que todas aquelas previsões de que o Massa era favorito foram por água abaixo? Eu não seria tão precipitado em dizer isso. Pelo contrário: acho que esse começo de campeonato deixou Felipe mais maduro. Isso ficou claro na comedida comemoração da vitória de Barein. Felipe sabia que precisava converter todo o favoritismo e a velocidade dos treinos em vitória.

Foi bacana ver que ele lidou bem com a ansiedade da torcida brasileira e com a responsabilidade de mostrar para a equipe que pode ser o número 1. Aliás, essas são questões com as quais ele deve continuar esgrimando por toda a temporada.

E é bom ter mesmo esse tipo de atitude. Porque, se antes estavam prevendo um campeonato vermelho, agora já dá para antever que o ano terá também a McLaren na jogada – e com um potencial muito grande de melhora, ainda mais porque Fernando Alonso é a estrela a ser batida atualmente.

Com o sucesso de Hamilton, apoiado desde os 10 anos, fica a lição para as empresas: investir no talento ainda é o melhor custo-benefício da F-1. Talvez a forma mais barata para fazer o carro baixar alguns décimos de segundo, algo que nenhum projetista, túnel de vento ou fábrica consegue produzir.

Luciano Burti é ex-piloto de F-1 e comentarista da TV Globo

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As chances de Massa

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O favorito para o título é Felipe Massa. Não, não sou eu quem está dizendo isso: a frase é de Bernie Ecclestone. Dizer que ele é o “todo-poderoso” da F-1 é clichê, mas posso dizer que não conheci ninguém que entendesse melhor o funcionamento do circo. Ele está bem informado sobre a Ferrari e o bom ambiente que o brasileiro tem lá. Felipe fala italiano, colabora fortemente no desenvolvimento do carro, foi piloto de testes e atuou como titular em 2006. De quebra, tem relacionamento ótimo com Schumacher, que segue influente em Maranello. Ecclestone não está sozinho nessa aposta.

Tão ou mais importante é a opinião do pessoal da “graxa”, técnicos, engenheiros e mecânicos. Boa parte deles também aponta Felipe como favorito, o que coincide com a idéia de pessoas do naipe do projetista inglês Gary Anderson e do ex-piloto Jackie Stewart. Ouvi de ambos estarem impressionados com o rendimento da Ferrari e de Massa em qualquer circunstância: chuva, pista seca, com calor, em temperaturas mais amenas…. Por isso, se você me perguntar qual o meu favorito, eu também diria que é Massa. E o que me deixa contente é que não está havendo aquele ufanismo exagerado de anos atrás – coisa que o Rubinho experimentou e cujos efeitos negativos sentiu.

Outro dia, durante um jantar, prestei atenção em algo positivo – e fundamental – nessa fase: Massa continua o mesmo de sempre, ou seja, um cara simples, brincalhão e com os pés no chão. E muito centrado em suas declarações. Até mesmo a mídia brasileira parece que aprendeu a lição e está passando isso ao torcedor. Como quem diz: “Ok, Massa foi o destaque na pré-temporada, mas o campeonato ainda nem começou”.

Corridas malucas

Mas, antes de soltar os rojões e comemorar um título que não vem desde 1991, ter cautela é fundamental. Por que Massa andou na frente? Ora, conhecer a Ferrari e usar pneus Bridgestone desde 2005 é um dos fatores. Kimi só testou a partir de janeiro, está se adaptando a um novo carro e a um novo pneu e por aí vai. Por isso, a chance de Massa é aproveitar as primeiras corridas, que acontecem em condições atípicas. Melbourne é um circuito de rua, Barein tem variação de aderência por causa da alta temperatura e da areia, Malásia tem clima muito quente e úmido, fora a chance de chuva. O histórico de “corridas malucas” nessas pistas é extenso.

Assim, se Massa aproveitar essa oportunidade, a sorte estará ao lado do Brasil. Quando Schumacher anunciou a aposentadoria e Kimi foi confirmado, todos apontavam o finlandês como sucessor do alemão. De fato, sua velocidade e talento o colocam nessa condição. Mas precisará superar um Felipe Massa cada vez mais confiante e se sentindo em casa.

Ambiente na Ferrari é tudo – eu vi isso de perto nos três anos que estive lá. Sem Schumacher e Ross Brawn e com os italianos andando atrás da Renault, a pressão será grande. Mas o próprio Massa já deu a melhor resposta: pressão ele tinha quando era moleque e corria nas fórmulas de acesso, quando só teria dinheiro para fazer a etapa seguinte se ganhasse a corrida!

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