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Barbeiragem coletiva

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Você é mais um daqueles que se sentiram traídos com a armação da Ferrari no GP da Alemanha? A revolta é um sintoma de que seu compromisso com o espírito que norteia o esporte está em perfeitas condições. Não foram poucas as reações de decepção. Alguns garantem não torcer mais por Felipe Massa. Apesar de genuína, a reação pode conter alguma precipitação. Acredite, a questão é mais complexa do que parece. Vamos aos pontos.

1 – Como piloto de testes da Ferrari de 2002 a 2004, posso afirmar: para os dirigentes, a Ferrari estará sempre em primeiro lugar. E eles deixam isso claro desde o início. Quando sentei com Jean Todt para assinar o contrato, ele fez questão de frisar que eu estava ingressando na equipe para ser o piloto de testes, ponto final. Queria que meu foco fosse o desenvolvimento do carro e não minha performance. E pode ter certeza de que todos os pilotos que passaram por lá ouviram o mesmo: “Você está sendo contratado para trabalhar para a Ferrari, não se esqueça disso”.

2 – Não há dúvida de que a vontade de Alonso de vencer um campeonato é grande – sua última conquista foi em 2006. De lá para cá, passou pela McLaren em 2007, onde aprendeu que brigar dentro da própria equipe pode ser um grande equívoco. Depois retornou para a Renault em 2008, onde não teve carro para brigar pelo campeonato. Agora na Ferrari, com um carro competitivo e o maior salário do grid, vencer o campeonato é quase uma obrigação.

3 – No caso de Felipe, sua experiência o leva crer no jogo de equipe. Em 2007, ele entregou a vitória no Brasil para Raikkonen, levando o finlandês ao título. E, em 2008, o retorno: Raikkonen deu de presente o segundo lugar na China a Felipe, ajudando-o a chegar à última etapa em Interlagos, onde quase foi campeão. Aí veio 2009, com o acidente na Hungria. Nesse momento, Massa teve um enorme apoio da equipe, foram muito fiéis em dar o tempo necessário para Massa retornar sem temer pela perda de sua posição.

Assim que Felipe deixou Alonso ultrapassá-lo, parte da torcida que vê Massa como o atual ídolo nacional do esporte, decepcionada, bateu forte: “Ele deveria ter desobedecido a ordem. Se fosse demitido, ele iria para outra equipe”. Será? E quais seriam suas opções? RBR, McLaren e Mercedes já têm seus pilotos para 2011, algumas até para 2012. Massa sabe que ficar na Ferrari é fundamental para ter chance de ganhar um título (seu contrato vai até 2012).

“O interesse dele está no dinheiro, só isso.” Digo que não. Felipe se encontra numa situação financeira em que não precisa colocar isso em primeiro lugar. “Ele deveria ter a postura forte de colocar o piloto à frente da equipe, como alguns já fizeram.” É verdade, isso seria uma grande atitude, mas posso dizer que não é fácil para o piloto impor tal força ainda sem uma faixa de campeão. Isso faz muita diferença.

Sendo assim, minha opinião é que houve uma grande trapalhada. A Ferrari errou ao colocar seus
interesses acima do esporte. Diferentemente do futebol, o automobilismo é um esporte individual em que a vitória de um piloto tem mais valor que a conquista da equipe. Alonso, com seu talento, tem qualidades de sobra para prescindir de “ajudas” desse tipo. Tem motivos para saber que, mais que vencer, importa como se vence. E Felipe perdeu a chance de de se posicionar perante a equipe, mostrando que uma vitória é fundamental para completar sua recuperação. E mais para a frente, se não tivesse condição matemática de brigar pelo título, poderia ajudar a equipe como fez no passado. Até aí, jogo jogado.

Bom, devemos dar outra chance para eles? Acho que sim, principalmente para o brasileiro. Não devemos esquecer seu grande mérito nas vitórias conquistadas para nosso país. Aliás, aí está o motivo que fará toda a diferença para reatar a relação com sua torcida. Precisamos de um fim de corrida com o Galvão narrando: “Felipe, Felipe, Felipe Massa, é do Brasil!”

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De volta aos melhores tempos

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Falar de aumento de competitividade em abertura de temporada tem sido tão original quanto conversar sobre compras em época de Natal. Mas o fato é que há muito tempo a F-1 não reunia tantas condições favoráveis para uma eletrizante disputa quanto em 2010.

Tenho certeza de que você vai concordar comigo: teremos a maioria dos pilotos fortes em carros que prometem ser competitivos. Schumacher na Mercedes, Alonso na Ferrari, Hamilton e Button na McLaren, mais dois pilotos já consagrados que ainda não têm a faixa de campeão, Vettel na RBR e Felipe de volta à Ferrari. E quem sabe uma surpresa proporcionada por aqueles que não estão entre os favoritos, mas com potencial de sobra, como Barrichello na Williams e os pilotos da Sauber, que mostraram velocidade na pré-temporada. Devemos lembrar que em 2009 a briga ficou entre Brawn e RBR, limitada a quatro pilotos.

Se você ainda não está convencido, saiba que a FIA também está fazendo sua parte. De 2008 para 2009 houve grandes mudanças no regulamento para reduzir a pressão aerodinâmica dos carros e a volta os pneus slick. Elas surtiram algum efeito, mas, na prática, só teremos um resultado real nesta temporada.

É comum, no primeiro ano de um regulamento, alguma equipe levar vantagem (caso da Brawn, por exemplo, com seu difusor duplo) e outros perderem o rumo de casa (a Ferrari e seu fracassado F60). Com o uso dos grandes tanques de combustível, devido ao fim do reabastecimento, o desafio das mudanças mecânicas no projeto, como distribuição de peso, controle do centro de gravidade e distância do entre-eixos, é de solução “menos difícil” que com as mudanças aerodinâmicas da última temporada.

Também a alteração no pneu dianteiro, que passa a ser 245/55 R13 em vez do 270/55 R13 anterior, deve fazer diferença. A diminuição de 25 mm na área de contato é para trazer maior equilíbrio para os carros. Em 2009 a Bridgestone manteve as medidas dos pneus com ranhuras de 2008 e a fábrica japonesa concluiu que os pneus dianteiros estavam muito largos em comparação aos traseiros. Esse equilíbrio tem como um dos objetivos tornar a asa dianteira móvel ainda mais eficiente na busca de ultrapassagens.

O desempenho com tanque cheio no início da corrida será muito diferente dos carros leves no fim da prova. Poderemos ver pilotos com dificuldades nas primeiras voltas que crescerão na metade final da corrida, aumentando as chances de disputa entre carros com reações diferentes devido ao nível de combustível. E, como os pit-stops serão muito rápidos para todos (calculam que farão as trocas de pneus em menos de 4 segundos), as disputas deverão acontecer na pista, nada mais daquele papo de “a parada vai demorar mais ou menos porque esse piloto tem ‘x’ de combustível”. Ah, até as calotas aerodinâmicas foram proibidas para tornar os pit-stops mais rápidos e com menos chances de erro dos mecânicos. Ou seja, as ultrapassagens terão que acontecer na pista.

Com condições tão favoráveis, acho difícil o objetivo de extrema competitividade não ser alcançado este ano. Se eu não estiver errado, teremos um espetáculo semelhante ao do início dos anos 80, com seis equipes vencendo na temporada (Williams, Brabham, Ferrari, Renault, McLaren e Ligier, em 1981). E quatro campões na pista me fazem lembrar as disputas entre Senna, Prost, Piquet e Mansell no fim da década de 80 (na verdade, este último seria campeão apenas em 1992). Será que estou querendo demais?

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Um ano após o outro

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A temporada de 2009 foi atípica, com o campeonato vencido pela Brawn GP, em seu ano de estreia. As grandes e sempre favoritas Ferrari e McLaren erraram feio em seus projetos. O que podemos esperar dessas equipes para 2010? Devemos lembrar que, na verdade, a Brawn GP não foi uma equipe estreante. Pessoal, estrutura e o próprio projeto do carro foram frutos colhidos da equipe Honda, que abandonou o Mundial no fim de 2008. E poucos lembram, mas foi a própria Honda quem bancou a temporada 2009 da Brawn GP, convencidos por Bernie Ecclestone a evitar ações trabalhistas e o desgaste de sua imagem perante a torcida.

O resultado foi um carro “bem nascido” e o dinheiro necessário para ter os motores Mercedes e também para o desenvolvimento do conjunto, além de poder contar com os pilotos de ponta Button e Barrichello. Com a recente aquisição da equipe pela Mercedes, que trará a estrutura e os recursos necessários, podemos esperar novamente uma forte temporada da ex-equipe Brawn GP.

Quem também surpreendeu em 2009 e deverá mostrar força em 2010 é a RBR. Ainda que se trate de uma equipe independente, eles dispõem de uma forte estrutura financeira por parte da Red Bull. Não é por acaso que contam com Adrian Newey, o melhor projetista da F-1 nos últimos anos, e também com o brilhante piloto Sebastian Vettel. Mas, pensando no campeonato, o ponto de interrogação é o motor. Em 2009 a equipe contou com os frágeis motores da Renault. Eles bem que tentaram os motores Mercedes para 2010, mas o acordo foi vetado pela McLaren ao exercer seus direitos contratuais (temendo a força da RBR com o mesmo motor…).

Agora, sem dúvida, a grande surpresa da temporada 2009 foi o fracasso de Ferrari e McLaren, principalmente no início da temporada. Essas equipes sempre foram a referência da F-1, mas o desempenho e os resultados iniciais tiraram qualquer chance de brigarem pelo título.

Como Hamilton e Felipe disputaram o título literalmente até a última volta de 2008, essas duas equipes focaram seus esforços no projeto do carro de 2009 somente após o término do campeonato. Foram surpreendidos pelo tal “difusor duplo” utilizado por Brawn, Toyota e Williams. Até desenvolverem um difusor semelhante e adaptá-lo a seus carros, já era tarde. E apenas venceram na segunda metade do campeonato, enquanto a Brawn administrava sua vantagem na pontuação.

Como errar uma vez é humano, Ferrari e McLaren iniciaram o desenvolvimento dos seus carros de 2010 com bastante antecedência. Para dar uma ideia, a Ferrari não fez nenhuma atualização no carro de 2009 a partir do GP de Monza.

Na próxima temporada, o reabastecimento durante a prova será proibido. Assim, os tanques de combustível, atualmente com cerca de 100 litros, terão o dobro dessa capacidade e ocuparão muito espaço no carro. A distribuição de peso, o centro de gravidade e o equilíbrio aerodinâmico serão afetados. Por causa disso, a Ferrari pretende ser mais conservadora, buscará uma base aerodinâmica de seus carros vencedores prezando mais a eficiência que um grande número de pressão aerodinâmica no túnel de vento (em 2005 erraram feio, por terem muita pressão com pouca eficiência).

Já a McLaren promete ser agressiva em explorar as brechas do novo regulamento. O cenário está pronto para mais um espetáculo. Eu apostaria que a temporada de 2010 promete ser ainda mais equilibrada. E mais emocionante, claro.

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Retrospectiva em escala

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Na última vez que visitei Rubinho, em sua casa de campo, uma de suas coleções me chamou a atenção em especial. São miniaturas de todos os Fórmula 1 que ele já pilotou, 17 no total. Ocorreu-me se ele se recordaria das características de cada um desses carros. Quer saber? Ele não só se lembra como compartilha com você os pontos altos e baixos de cada um.

Jordan-Hart 1993

“Com ele, conquistei meus primeiros pontos, no GP do Japão. Era um carro sem pontos fortes e com pouca potência.”

Jordan-Hart 1994

“Primeiro pódio com o terceiro lugar no GP do Pacífico e a primeira pole position, na Bélgica. Equilibrado, mas fraco.”

Jordan-Peugeot 1995

“Segundo lugar no Canadá. Faltava equilíbrio, mas tinha boa potência no motor.”

Jordan-Peugeot 1996

“Bom de reta e ruim de curvas. Classificava bem, mas corria mal.”

Stewart-Ford 1997

“Segundo lugar em Mônaco, mas quebrou em 14 das 17 provas. O destaque eram os pneus Bridgestone, principalmente os de chuva.”

Stewart-Ford 1998

“Um dos piores carros que já tive na F-1. O chassi tinha problema de torção. Marcamos apenas 4 pontos naquele ano.”

Stewart-Ford 1999

“Muito bom, considerando o orçamento da equipe. Compacto, bom de velocidade e eficiente nas freadas. Foram três pódios com ele.”

Ferrari 2000

“Meu primeiro carro de ponta, muito bom de tração. Com ele realizei um grande sonho, vencer meu primeiro GP, o da Alemanha.”

Ferrari 2001

“Terceiro lugar no Mundial de pilotos. O forte era a eficiência aerodinâmica.”

Ferrari 2002

“Um dos melhores, fácil de pilotar e equilibrado.”

Ferrari 2003

“O primeiro lugar do GP da Inglaterra foi uma das melhores corridas que já fiz na F-1 e a outra vitória foi no GP do Japão. Carro muito rápido, mas arisco.”

Ferrari 2004

“Mais uma vez vice-campeão mundial. Conquistei com esse carro quatro pole positions (Estados Unidos, Itália, China) e duas vitórias (Itália e China). Um carro muito equilibrado e ótimo nas curvas de alta velocidade.”

Ferrari 2005

“O pior carro nos seis anos em que estive junto à equipe italiana. Nenhuma pole position ou vitória e o oitavo lugar no campeonato de pilotos. Faltava eficiência aerodinâmica ao modelo.”

Honda 2006

Tive dificuldades de me adaptar aos pneus Michelin, pois só funcionavam quando estavam muito quentes. Mesmo assim marquei 30 pontos com esse carro na temporada, ficando em sétimo lugar no campeonato.”

Honda 2007

“O pior carro durante minha carreira de Fórmula 1, tinha um grande problema de equilíbrio aerodinâmico. Foi o único ano em que não marquei pontos no campeonato.”

Honda 2008

“O grande problema era a falta de equilíbrio entre a parte mecânica e a aerodinâmica. Mais tarde descobrimos também que o motor Honda era fraco. Mesmo assim, consegui um pódio como terceiro lugar no GP da Inglaterra.”

Brawn-Mercedes 2009

“Depois de quase ficarmos fora da temporada, nos vimos com o melhor carro. Equilibrado, com ótima dirigibilidade, bom nas freadas e com a potência do motor Mercedes.Que carro!”

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Cobrança de fim de semana

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Diz-se que eleitor tem memória curta: esquece episódios desabonadores dos candidatos, promessas não cumpridas e até mesmo quem levou seu voto na eleição anterior. Mas não é só nas urnas que essa amnésia se manifesta: na F-1, o torcedor quase sempre julga o piloto com base em um único critério – o último resultado.

Pergunte a Felipe Massa. No começo da temporada, ele foi criticado por não marcar pontos na Austrália e na Malásia. Diziam que ele “estava fragilizado” porque a Ferrari estava trabalhando mais para seu companheiro de equipe… Massa já era considerado o número 2. Para os mais alarmistas, já estaria sendo ejetado da Ferrari em favor de Sebastien Vettel…

Bastaram duas vitórias, no Barein e na Turquia, para que ele voltasse a ouvir elogios. O auge foi com o primeiro lugar na França, onde se tornou o primeiro brasileiro a liderar o Mundial desde Ayrton Senna.

Foi o suficiente para que o entusiasmo ufanista norteasse os comentários: “Este ano, com certeza, é do Felipe”, “Sabe como ninguém lidar com a pressão”, “A Ferrari trabalha para ele, é mais querido pelos italianos”… Daria para encher a página de tantos elogios, muitos deles vindos dos mesmos que batiam sem piedade no começo do ano.

O mais incrível é que no GP seguinte, com as várias rodadas de Massa em Silverstone, as críticas não só voltaram como também puseram até sua capacidade e talento em xeque, com direito a rótulos como “Felipe não sabe guiar na chuva”. O show do piloto sobre piso molhado, em Mônaco, neste ano, quando ele abria até 2 segundos por volta sobre seus adversários, foi simplesmente deletado da memória.

A corrida de Silverstone foi, de fato, um fim de semana daqueles para Felipe esquecer. Mas todos os esportistas têm esses dias. A chuva, aliada a uma Ferrari que não tinha o acerto ideal, produziu uma combinação que não se encaixa no estilo arrojado de pilotagem do Felipe. Faltou uma tocada mais cuidadosa? Acho que sim, mas é esse mesmo arrojo que faz dele um cara capaz de ganhar GPs como os de Barein, Turquia e França.

Esse arrojo é um dos pontos fortes de Felipe. O lado técnico não é natural nele, mas o brasileiro vem se desenvolvendo de forma impressionante desde que entrou na Ferrari, onde teve como referência ninguém menos que Michael Schumacher.

Não é só o torcedor brasileiro que tem memória curta, que o diga Lewis Hamilton. No ano passado, ainda estreante, ele era considerado um piloto frio, muito bom sob pressão, mas os erros no final da temporada e a má apresentação no Canadá e na França, neste ano, já colocaram o inglês na berlinda. Isso até vir Silverstone e… Lewis ser novamente coroado!

O mais acertado é analisar cada piloto. Uns são mais técnicos, outros mais arrojados, uns andam bem na chuva, outros nem tanto. E entender que às vezes ele passa por uma fase ruim, falta de sorte ou, mais provável, ausência de carro mais competitivo. Erra-se bem menos quando se tem um carro bom nas mãos, graças à maior aderência e melhor equilíbrio. Comprovei isso em 2001, com a Prost. Sofri várias saídas de pista porque o carro era muito difícil de pilotar, enquanto na Ferrari fiz três temporadas como piloto de testes, tendo percorrido mais de 30 000 km, e bati apenas uma vez por causa de um erro.

Erros todos cometem, mas é preciso primeiro entender o que ocorreu, levando em conta as características de pilotagem, ver se essa é uma tendência do piloto ou se aquilo foi um fato isolado, as circunstâncias em que o erro aconteceu e o carro que ele está pilotando para depois julgar sua capacidade. E aí, sim, eleger o seu piloto favorito. Como, aliás, um bom cidadão deveria fazer em relação ao seu candidato.

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A decisão está nos detalhes

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Quem dizia que Kimi Raikkonen era carta fora do baralho até alguns meses atrás teve que rever suas apostas com as duas vitórias seguidas na França e na Inglaterra. A própria Ferrari já era considerada ultrapassada em termos tecnológicos em relação à McLaren antes dessas vitórias. Assim como se poderia contar nos dedos aqueles que bancavam que Hamilton seguiria brilhante com seus nove pódios e ocupando a liderança do campeonato a esta altura.

Ou seja, quem se precipitou em utilizar um ou outro parâmetro neste Mundial se deu mal. Em um campeonato tão disputado entre dois times e com quatro pilotos de nível técnico equilibradíssimo (Alonso, Hamilton, Raikkonen e Massa), basta um pequeno desenvolvimento em determinada área do carro para obter um salto de performance que pode lançar o time da luta pela terceira posição para a briga pelo primeiro lugar. Um exemplo? A vantagem da McLaren no Canadá e nos EUA se manifestava no forte torque do motor na saída de curvas de baixa e na parte aerodinâmica de “medium downforce” (ou seja, nível médio de pressão aerodinâmica). Tudo indicava então que Hamilton e Alonso iriam para a França e a Inglaterra prontos para nova vitória. Mas eis que a Ferrari aparece com um novo pacote aerodinâmico que deu resultado. Os ferraristas sabiam que a maior pressão já vinha funcionando em algumas pistas, caso de Barcelona, onde Massa venceu. Até mesmo entre os pilotos, as decisões de provas estarão sujeitas a pequenos acontecimentos, como foi a definição na França, em que Felipe deu o azar de pegar mais tráfego que Kimi no segundo pit stop.

Por isso, não tenho dúvidas de que o campeonato deste ano será decidido nos pequenos detalhes, na evolução entre GPs, com o trabalho de desenvolvimento dos carros corrida a corrida. Mais do que nunca cresce a importância daqueles dois ou três dias de treino entre as provas – o que pode ser ótimo também para verificarmos o potencial de futuros talentos na pista, caso de Nelsinho Piquet na Renault. Também a confiabilidade dos carros (até agora a McLaren vem se mostrando mais resistente e Hamilton sequer errou em corridas) vai fazer diferença em cada pontinho.

Com a limitação dos testes, não é de estranhar que a espionagem seja mais uma ferramenta. Como o caso do ex-funcionário da Ferrari Nigel Stepney, que teria facilitado o acesso da McLaren a informações da arqui-rival. Apesar do esforço do regulamento para que os times, com seus orçamentos milionários, trabalhem no máximo de condições iguais, segredos continuam a existir, e não são poucos. Receber de mão beijada o projeto bem-sucedido de um assoalho ou de uma asa da concorrente pode economizar milhões de dólares em pesquisa. E, mais valiosos que o investimento, quatro ou cinco meses de trabalho em cima da prancheta.

Não é por acaso que pilotos assinam contratos de confidencialidade para não levar nada do desenvolvimento do time quanto trocam de escuderia. Foi assim comigo quando saí da Jaguar, da Prost e, principalmente, da Ferrari. Se com os pilotos já existe esse cuidado, imagine agora com qualquer funcionário da parte técnica desses times.

Luciano Burti é ex-piloto de F-1 e comentarista da TV Globo

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Fenômeno Hamilton?

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Antes da temporada me perguntavam: será que Felipe Massa vai brigar pelo título? Isso já uma certeza. Mas outra questão se tornou quase obrigatória nas conversas sobre F-1: e esse tal de Lewis Hamilton? Pois bem, existem dois times claramente definidos. A turma que acha o inglês um fenômeno e o pessoal que diz que o primeiro piloto negro da F-1 ainda não provou seu valor. Quer saber? Acho que as duas facções estão exagerando. Penso que a categoria nunca assistiu a uma estréia tão comentada quando a do piloto da McLaren. Talvez tenha ocorrido algo próximo apenas quando Jacques Villeneuve entrou na F-1 pela equipe que dominava a categoria naqueles tempos, a Williams. Vejo uma semelhança na forma com os dois estrearam na categoria. Enquanto Villeneuve brigou pelo título logo em 1996 (que acabou nas mãos de Damon Hill), posso ver a liderança do Mundial de Hamilton e também sua inédita seqüência de seis pódios com uma vitória (um recorde tanto pela precocidade como por ser estreante) como um campeonato bastante parecido com aquele de 11 anos atrás. Mas vale lembrar que, naquela época, a disputa ficou mesmo entre Hill e Villeneuve, enquanto neste ano Hamilton tem de enfrentar não apenas Fernando Alonso, o atual bicampeão da categoria, como também os prodígios da Ferrari, Kimi Raikkonen e, claro, Felipe Massa.

Esse concorrido cenário só faz crescer o mérito dos pódios de Hamilton. Tudo bem, ele foi sempre treinado para estar na F-1, pois está no programa de desenvolvimento da McLaren desde o kart. Não é à toa que gente como Jackie Stewart disse que nunca viu um piloto tão bem preparado para estrear na F-1. E não há mesmo: o próprio Villeuneve e até mesmo Montoya chegaram em equipe grande, mas vindos de outra escola, com conquistas na Fórmula Indy.

Pois bem, colocado tudo isso, vejo Hamilton como um excelente piloto, extremamente talentoso e que vem demonstrando grande potencial para lutar pelo título. Porém acredito que a McLaren, este ano, aposte mais em Alonso – algo natural, até porque o espanhol carrega no carro o número 1 e isso exige respeito. Hamilton parece saber disso, pelo menos em suas ponderadas entrevistas. A mídia inglesa, sedenta por uma polêmica, acha que ele foi prejudicado por ordem da equipe. Em minha opinião, não houve nada ilícito na visão da McLaren no GP de Mônaco. O que houve, como é comum na F-1, é um exagero em busca de reportagens sensacionalistas, o que a mídia inglesa adora, já que precisam de ídolos também. O Jenson Button, que correu comigo de F-3 Inglesa (fui vice no ano em que ele foi terceiro colocado), sempre teve esse apoio, além do lado bom de retorno de mídia e do lado negativo das cobranças exageradas. Mais ou menos como o Rubinho Barrichello enfrentou no Brasil quando o Ayrton Senna nos deixou.

Acho que Hamilton está provando seu valor, ainda que haja alguns exageros na expectativa. Sua vantagem é a extrema regularidade, premiada pelo atual sistema de classificação, com os oito primeiros pontuando e só 2 pontos separando os três primeiros (10, 8 e 6). Mas, para ganhar status de fenômeno, ele ainda precisa passar pelo teste da conquista de um título.

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Nada será como antes

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Depois de três corridas, falar sobre o favorito do Mundial de F-1 deste ano ficou ainda mais difícil. Ainda bem. Se antes do primeiro GP do ano, na Austrália, qualquer previsão seria mais especulação que análise – justamente pelas diferentes configurações usadas nos testes de pré-temporada -, agora o panorama permanece indefinido, mas por razões completamente distintas.

O forte favoritismo da Ferrari parecia líquido e certo, limitado a apenas uma disputa interna entre Kimi Raikkonen e Felipe Massa, com o brasileiro levando certa vantagem por já conhecer bem o ambiente da equipe e também ter dominado a maioria dos treinos.

A McLaren, apesar de apontada como potencial surpresa, não chegava a motivar apostas já a partir das primeiras etapas. E, por mais bem credenciado que Lewis Hamilton fosse (com aval de gente do naipe de Jackie Stewart, que afirmava nunca ter conhecido um estreante tão bem preparado para estar na F-1), era difícil imaginar que saísse do Barein empatado na liderança com Alonso e Raikkonen. Antes do começo do ano, eu diria que Hamilton teria chance de ganhar alguma corrida, mas jamais que lutaria pelo título. Vendo o que ele fez nessas três primeiras provas, já não dá mais para dizer que isso é impossível.

Tem gente que pode pensar: onde estava esse moleque até o ano passado. Será que só agora surgiu esse talento? Óbvio que não. O segredo da carreira de Hamilton é que, desde os 10 anos de idade, ele pôde se preocupar apenas com uma coisa: pilotar. O apoio da McLaren desde o kart foi fundamental e, claro, o talento dele também, já que sem ele não conseguiria progredir nesse programa de desenvolvimento de testes.

Surpresas como essas mostram que a F-1 está longe de ser um esporte previsível. E que o fator humano faz muita diferença, sim, por mais que a tecnologia envolvida ultrapasse as centenas de milhões de dólares.

Mas, se ninguém previu esse começo tão eletrizante de campeonato, isso significa que todas aquelas previsões de que o Massa era favorito foram por água abaixo? Eu não seria tão precipitado em dizer isso. Pelo contrário: acho que esse começo de campeonato deixou Felipe mais maduro. Isso ficou claro na comedida comemoração da vitória de Barein. Felipe sabia que precisava converter todo o favoritismo e a velocidade dos treinos em vitória.

Foi bacana ver que ele lidou bem com a ansiedade da torcida brasileira e com a responsabilidade de mostrar para a equipe que pode ser o número 1. Aliás, essas são questões com as quais ele deve continuar esgrimando por toda a temporada.

E é bom ter mesmo esse tipo de atitude. Porque, se antes estavam prevendo um campeonato vermelho, agora já dá para antever que o ano terá também a McLaren na jogada – e com um potencial muito grande de melhora, ainda mais porque Fernando Alonso é a estrela a ser batida atualmente.

Com o sucesso de Hamilton, apoiado desde os 10 anos, fica a lição para as empresas: investir no talento ainda é o melhor custo-benefício da F-1. Talvez a forma mais barata para fazer o carro baixar alguns décimos de segundo, algo que nenhum projetista, túnel de vento ou fábrica consegue produzir.

Luciano Burti é ex-piloto de F-1 e comentarista da TV Globo

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As chances de Massa

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O favorito para o título é Felipe Massa. Não, não sou eu quem está dizendo isso: a frase é de Bernie Ecclestone. Dizer que ele é o “todo-poderoso” da F-1 é clichê, mas posso dizer que não conheci ninguém que entendesse melhor o funcionamento do circo. Ele está bem informado sobre a Ferrari e o bom ambiente que o brasileiro tem lá. Felipe fala italiano, colabora fortemente no desenvolvimento do carro, foi piloto de testes e atuou como titular em 2006. De quebra, tem relacionamento ótimo com Schumacher, que segue influente em Maranello. Ecclestone não está sozinho nessa aposta.

Tão ou mais importante é a opinião do pessoal da “graxa”, técnicos, engenheiros e mecânicos. Boa parte deles também aponta Felipe como favorito, o que coincide com a idéia de pessoas do naipe do projetista inglês Gary Anderson e do ex-piloto Jackie Stewart. Ouvi de ambos estarem impressionados com o rendimento da Ferrari e de Massa em qualquer circunstância: chuva, pista seca, com calor, em temperaturas mais amenas…. Por isso, se você me perguntar qual o meu favorito, eu também diria que é Massa. E o que me deixa contente é que não está havendo aquele ufanismo exagerado de anos atrás – coisa que o Rubinho experimentou e cujos efeitos negativos sentiu.

Outro dia, durante um jantar, prestei atenção em algo positivo – e fundamental – nessa fase: Massa continua o mesmo de sempre, ou seja, um cara simples, brincalhão e com os pés no chão. E muito centrado em suas declarações. Até mesmo a mídia brasileira parece que aprendeu a lição e está passando isso ao torcedor. Como quem diz: “Ok, Massa foi o destaque na pré-temporada, mas o campeonato ainda nem começou”.

Corridas malucas

Mas, antes de soltar os rojões e comemorar um título que não vem desde 1991, ter cautela é fundamental. Por que Massa andou na frente? Ora, conhecer a Ferrari e usar pneus Bridgestone desde 2005 é um dos fatores. Kimi só testou a partir de janeiro, está se adaptando a um novo carro e a um novo pneu e por aí vai. Por isso, a chance de Massa é aproveitar as primeiras corridas, que acontecem em condições atípicas. Melbourne é um circuito de rua, Barein tem variação de aderência por causa da alta temperatura e da areia, Malásia tem clima muito quente e úmido, fora a chance de chuva. O histórico de “corridas malucas” nessas pistas é extenso.

Assim, se Massa aproveitar essa oportunidade, a sorte estará ao lado do Brasil. Quando Schumacher anunciou a aposentadoria e Kimi foi confirmado, todos apontavam o finlandês como sucessor do alemão. De fato, sua velocidade e talento o colocam nessa condição. Mas precisará superar um Felipe Massa cada vez mais confiante e se sentindo em casa.

Ambiente na Ferrari é tudo – eu vi isso de perto nos três anos que estive lá. Sem Schumacher e Ross Brawn e com os italianos andando atrás da Renault, a pressão será grande. Mas o próprio Massa já deu a melhor resposta: pressão ele tinha quando era moleque e corria nas fórmulas de acesso, quando só teria dinheiro para fazer a etapa seguinte se ganhasse a corrida!

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