GRID - BLOG - Luciano Burti

O ronco e o sonho

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O GP do Brasil deste ano me traz uma lembrança especial. Em março de 1991, eu estava na arquibancada B, em frente aos boxes de Interlagos, acompanhando uma prova de F-1 ao vivo pela primeira vez. Até então, meu interesse em competições eram as motos. Foi sobre duas rodas que descobri a velocidade – apesar de acompanhar meu ídolo Senna desde 1988, eu não era um aficionado por F-1. Com um boné que era uma réplica do de Senna e armado de máquina fotográfica e binóculo, eu era um típico torcedor entre os milhares que lotavam a arquibancada. Entre coros de “Olê, olê, olê, olá… Senna, Senna…”, a massa se levantava em sincronia para formar a “ola”. Qualquer carro de serviço que entrava na pista era saudado com o mesmo entusiasmo com que Prost era vaiado quando sua imagem aparecia no telão.

Ao começar os treinos, aconteceu algo que me marcaria profundamente. Foi quando o primeiro carro entrou na pista: Jean Alesi e sua Ferrari. Ouvir o som do motor Ferrari de 12 cilindros, o mais belo que já ouvi, e ver o Alesi e a Ferrari na minha frente me deixou com lágrimas nos olhos e os braços arrepiados. Posso dizer que naquela hora caiu a ficha, e meu envolvimento com a F-1 foi imediato. Daí em diante, passei a prestar atenção em cada detalhe, diferenciando som de motores, o ponto de freada no S do Senna, o traçado dos pilotos no pouco que via do miolo e a movimentação das equipes nos boxes. E, se tudo isso já era o suficiente, não é que Senna venceu a corrida, sua primeira conquista no GP Brasil? Difícil descrever a emoção vivida nas arquibancadas.

Passados alguns meses, em outubro de 1991, juntei minha mesada e mais alguns pertences a fim de comprar o kart usado de um amigo para dar umas voltas no estilo piloto de F-1. Fui a Interlagos e me inscrevi na categoria Novatos para a última etapa do Campeonato Paulista, sem nenhum treino ou conhecimento sobre kart. O resultado não poderia ser diferente: levei um tremendo “pau”, fui sempre o último nos treinos, antepenúltimo na classificação e levei volta do líder na corrida. Esse fracasso tornou-se desafio, pois me dediquei nos treinos, estudei a parte técnica, iniciei o preparo físico, enfim, busquei o necessário para me tornar competitivo. Passados mais alguns meses, em maio de 1992, venci minha primeira corrida, sob muita chuva, em Interlagos.

Daí para a frente, não parei mais. Apesar do começo tardio da minha carreira – aos 16 anos, um garoto é considerado “velho” para iniciar em qualquer tipo de esporte –, o foco e a dedicação que adotei foram compensadores. Venci campeonatos de kart a partir de 1994, passei a competir no automobilismo inglês em 1996 e cheguei à F-1 em 2000, como piloto de testes da Jaguar. Mas o mais especial veio na sequência. Em 2001 fui contratado para ser piloto oficial da equipe Prost, e adivinhe quem era o meu companheiro de equipe? Ele mesmo, Jean Alesi. E no ano seguinte fui contratado como piloto de testes da Ferrari na F-1. Se o garoto da arquibancada, que estava emocionado só em ver um F-1 de perto, dissesse a alguém “quero correr de kart porque acredito que em dez anos serei piloto de F-1 e receberei salário para dirigir uma Ferrari”, certamente seria chamado de, no mínimo, lunático. Passados 20 anos, com os pés mais no chão do que nunca, posso dizer que a visão do carro de Alesi saindo dos boxes mudou minha vida. Para muito melhor.

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8 Comentários - Comente - Denunciar abuso

  1. Sua história é comovente. Vale, sempre a pena, acreditar nos sonhos, Burti. Parabéns! Além de tudo você é uma ótima pessoa, com quem encontro nas provas da Stock, sempre simpático e solícito para entrevistas, por sinal sempre muito boas!

  2. Fernando Seara disse:

    Que menssagem inspiradora hein Burti!!
    É uma grande pena que vc não pode ir a fundo na F1, pois vc é um grande conhecedor da categoria e tenho certeza que se tivesse uma boa oportunidade, chegaria no topo.

    Continue sempre com essa simplicidade!

  3. Vander disse:

    Muito show a estória …
    Parabéns pela carreira, vc que é o maior identificador de chiados dos rádios da F1! rsrsrsrs

  4. Vagner disse:

    Comovente e inspiradora a sua história. Parabéns e Feliz Natal.

  5. AS Adriano Souza disse:

    Sensacional a sua história!
    Senti a mesma coisa desde que fui a interlagos a primeira vez ver a fórmula Uno e muitos anos depois quando fui ver a F1.
    Isso realmente acendeu a chama da competiçao e velocidade em mim. Evidentemente por diferenças em nossos caminhos, você chegou lá enquanto eu suo a camisa para conseguir correr no paulista de marcas e pilotos. Fico contente de você ter conseguido e hoje poder postar algo que traduz o sentimento de quem é apaixonado pelo automobilismo.
    um abraço,

  6. Leandro Lefa disse:

    Luciano. As lágrimas e o arrepio foram justamente a minha reação esse ano, em Interlagos, no primeiro GP que tive o prazer de assistir (sou um feliz ganhadro do PitStop Santander). Te invejo por ter ouvido o 12 cilindros e te admiro muito por tudo que tu conquistou.
    Tenho 29 anos e não tenho mais chance de ser piloto, a não ser por umas brincadas no kart do Velopark…
    Parabéns, Burti. Abraço!

  7. Marco Marchese disse:

    Incrível ! Tambem tive uma história parecida (guardadas as devidas proporções), mas foi com musica. Acabei por subistituir meu professor na banda que me inspirou a aprender a tocar. Essas experiências simplificam muito as escolhas que teremos que fazer durante o resto de nossas vidas.

  8. José de abreu disse:

    Maravilha! tive a mesma experiencia também no setor G de interlagos, nada se compara à emoção de ver e ouvir o ronco de um F1 saindo dos boxes e tomando a reta oposta, é demais, parabens Luciano vc foi um abençoado.

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