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Como se faz o preço de um carro

No lançamento do 207 brasileiro, a Peugeot trouxe uma explicação polêmica para o fato de ter apenas reformado o antigo 206, em vez de partir para o 207 europeu (foto), maior e mais moderno que o nosso: fabricado no Brasil, ele custaria 65000 reais. É uma explicação difícil de engolir? Sem dúvida. Mas não é, necessariamente, conversa para jornalista dormir.

Meses atrás, se você quisesse um novo Gol, pagaria cerca de um milhão de reais. Sério. Foi o custo unitário dos primeiros protótipos, feitos com peças de plástico laminadas uma a uma e moldes semiartesanais. Esse gasto era mais ou menos fácil de determinar. Agora, os 28890 reais que estão pedindo pelo carro que está na loja são um mero chute. Um chute caprichado, mas ainda assim. Nem Thomas Schmall, presidente da Volkswagen Brasil, sabe exatamente se deveria cobrar mais ou menos que isso.

Se Schmall fosse padeiro, teria uma boa idéia do preço de seu produto. Cada pão usa, sei lá: 2 centavos de farinha de trigo, 0,5 de água, 2 de eletricidade, 1 de impostos, 1 de salários... Para saber o custo de dez pães, é praticamente uma questão de multiplicar tudo por dez. O preço de um carro depende de uma conta muito mais complicada. Desenvolvimento custa caríssimo, mão de obra e material nem custam tão caro. Então, quanto mais carros você fizer, mais você dilui o investimento inicial. Por isso, todo projeto nasce com uma quantidade prevista.

Num exemplo real: a Toyota vai lançar no Brasil, em 2010, um carro pequeno (é o projeto 65HZL). O carro não está pronto, mas eles já planejaram vender 10000 unidades por mês, até 2015 -- quando o modelo vai levar uma reestilização. Será que, em 2013, pelo menos 10000 brasileiros por mês vão mesmo querer comprar esse carro? Será que russos, indianos e chineses (esses países também vão fabricar o carro e rachar a despesa) vão mesmo querer comprar? Alguém calculou que sim e, se não acontecer, a Toyota leva prejuízo. Por isso que essa gente que sabe fazer contas ganha tão bem.

E, nem assim, a conta vai fechar. O custo não é todo transferido para o preço do carro. A montadora calcula também ganhar algum dinheiro com manutenção, venda de acessórios, financiamento e com o aumento do giro nas concesionárias. Por exemplo: sem nenhuma novidade, o Ka passou a vender mais quando lançaram o EcoSport. Ou seja: o aumento das vendas do Ka ajudou a pagar o investimento no Eco, e a criação do EcoSport ajudou a vender Ka. Uma bagunça.

Voltando ao Peugeot 207 europeu: se fosse fabricado aqui, ele custaria 65000 reais? De repente, sim. Devem ter feito uma conta bem pessimista. Coisa de quem abriu uma fábrica em 2001 pensando num mercado que crescia rápido rumo aos 3 milhões de unidades, mas errou a aposta porque o Brasil encolheu, vitimado por crises econômicas que começaram do outro lado do mundo. 

Por Marcelo Moura às 18:38 - 09/07/2008
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mostra os bastidores do mundo do carro.
Marcelo Moura é editor de Segredos da revista Quatro Rodas. Avalia carros e visita todas as etapas da produção, da fábrica de parafusos à linha de montagem.

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