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Reaproveitamento de peças

O painel do Gol Geração 4 era ruim e o do novo Gol (foto) é bom, certo? Sim. E não. Para a turma da parte elétrica, os dois são a mesma coisa. O "novo" quadro de instrumentos é aquele mesmo do Fox. Os ponteiros ganharam a companhia de uma tela de computador de bordo, mudaram de posição e ganharam uma máscara nova, mas o mecanismo continua sendo o mesmo. Esse quadro foi apresentado pela primeira vez no conceito SpaceFox Crossover, do último Salão do Automóvel -- e, claro, será adotado no Fox linha 2010. A Chevrolet faz coisa parecida: as linhas Classic, Celta, Vectra e S10 usam o quadro de instrumentos do Corsa. Muda a máscara.

O banco dianteiro do novo Gol também é novo apenas por fora. A estrutura metálica é a mesma do Geração 4. Assim como o quadro de instrumentos, o banco foi criticado nas clínicas de produto. Parecia estreito e pouco aconchegante, principalmente quando comparado ao do antigo Ka. Resolveram a questão mudando apenas a escultura da espuma. A Chevrolet faz coisa parecida: a estrutura do banco do esportivo americano Pontiac Solstice é a mesma do nosso Corsa.

Escrevi isso outro dia na Quatro Rodas e repito aqui: no dia em que um carro for "totalmente novo", como costumam dizer, mandam embora o responsável pelo projeto. A Ferrari Enzo reaproveita peças de outros carros. Maybach e Rolls-Royce Phanton, também. O cálculo que as montadoras fazem é o seguinte: quanto custa fazer uma nova peça? Quanto a nova peça será percebida e valorizada pelo consumidor (em outras palavras, quanto poderemos cobrar a mais pelo carro por causa dela)? E do outro lado: quanto vamos ter de mexer no novo carro para encaixar uma peça que não foi feita para ele? Na maioria das vezes, vence essa segunda alternativa. Afinal, a peça que já existe está pronta, aprovada e distribuída. Para uma peça nova, precisa desenhar, fazer protótipos, testar nas mais diversas condições, produzir moldes, fabricar numa linha nova (em vez dar mais escala à produção da antiga), distribuir para as prateleiras de todas as concessionárias... e talvez então descobrir um defeito, anunciar o recall e refazer o projeto.

Todo projeto tem, definida, uma meta de reaproveitamento. A Toyota construiu seu lucro e sua fama de confiabilidade mecânica no mundo inteiro justamente por não mexer no que já está funcionando. Sempre repetem uma alavanca de seta ou botão de retrovisor elétrico. Naturalmente, a meta de reaproveitamento é mais alta em carros de baixo custo, como os nossos. 85% das peças do novo Ka já estavam prontas. Algumas vieram de outros carros (como retrovisores, régua de placa traseira e brake-light, doados pelo Fiesta), outras (como volante, portas e pára-brisa) vieram do Ka antigo. Sem discutir aqui o resultado final: às vezes, criar um carro novo sem poder criar nada requer mais talento da engenharia do que fazer um projeto com orçamento mais folgado.

Por Marcelo Moura às 00:48 - 06/07/2008
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mostra os bastidores do mundo do carro.
Marcelo Moura é editor de Segredos da revista Quatro Rodas. Avalia carros e visita todas as etapas da produção, da fábrica de parafusos à linha de montagem.

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