
Você comprou um carro zero básico. Descobre depois que gostaria de equipá-lo um pouco mais, com um sonzinho, vidros elétricos, quem sabe até um ar-condicionado. Surge então o dilema: instalá-lo na concessionária, onde a variedade é menor e os preços são maiores (de 15% até o triplo), ou optar por uma loja de acessórios, correndo o risco de perder a garantia de fábrica?
Embora na teoria todo item instalado fora da autorizada provoque a perda da garantia, na prática nem sempre é assim. “O problema acontece se virem que o instalador fez alguma alteração nas características originais, se deu algum problema elétrico porque foi necessário cortar fio. Agora, se ele colocou um alarme com conector original, não mexeu no chicote original, não caracteriza como alteração”, afirma Alan Fabiano dos Santos, encarregado de acessórios da concessionária Daitan, da Honda.
Aí volta o dilema: instalar uma central multimídia dentro da rede (onde custa 5 500 reais) ou pagar 3 000 reais e colocar um similar fora? As montadoras explicam a diferença argumentando que a formação de um funcionário da concessionária é mais criteriosa, portanto mais cara, e que os fornecedores são muitas vezes obrigados a desenvolver equipamentos especialmente para sua rede.
Foi para fugir desses preços maiores que a pedagoga Juliana Aprigio de Oliveira resolveu levar seu Peugeot 206 a uma loja de acessórios, há quatro anos. “Tudo na concessionária era muito caro. Então fui pesquisar fora e a diferença era grande, mais que o dobro. Os instaladores até confirmaram a história da perda de garantia, mas achei que valia a pena”, afirma. Pouco tempo depois de instalar som, alarme e vidros elétricos, a bateria descarregou totalmente. Ela voltou à concessionária, mas negaram o atendimento em garantia, alegando que o defeito havia sido provocado pelos equipamentos instalados fora. Teve de arcar com o prejuízo de uma bateria nova.
Pode-se dizer que Juliana se arrependeu? Que nada! Neste ano, ao comprar um Peugeot 207, ela fez tudo igualzinho. “Instalei fora, de novo, módulo de subida dos vidros, alarme, CD player, alto-falante atrás e Insulfilm. Tudo custou 400 reais. Na concessionária era 1 200 reais. Continuo achando que vale a pena, mesmo correndo o risco de perder a garantia.”
Vale a negociação
Ralou a pintura e quer levar a uma oficina conhecida? Vale a mesma recomendação para serviços mais leves desde que não tenha perfurado a carroceria, que comprometeria a proteção contra a corrosão que o carro traz de fábrica. Pequenos reparos podem ser realizados sem medo fora da autorizada, desde que não alterem a parte estrutural ou não mexam na fiação do veículo. O mesmo se aplica a rodas e pneus. Há lojas desse segmento que, mesmo altamente especializadas e com equipamentos mais modernos, cobram pelo alinhamento e balanceamento até um terço do valor da concessionária.
Uma prática que sempre vale experimentar é comprar o acessório fora e instalar na autorizada. Oficialmente, o discurso é que isso não é permitido, mas na hora o que conta é a negociação. Em nossos carros do teste de Longa Duração, já conseguimos fazer isso com aparelhos de som. Para esta reportagem, ligamos para cinco revendas: em três delas o responsável pela oficina aceitou que levássemos nosso rádio para verificar se a instalação é possível. “Venha até aqui que a gente conversa”, foi o que ouvimos.
Nem todos são definitivos ao afirmar que a garantia vai para o espaço nesses casos. “O lugar tem de fazer direito. Outro dia um cliente veio bravo porque instalou uma buzina marítima e depois viu que entrava água no habitáculo. Era um Clio com 300 km. Não tínhamos o que fazer. Não era defeito do carro e não tínhamos como atender em garantia”, diz Alexandro Cabral, da área de serviços da autorizada Da Vinci, da Renault. Ele conta que a rede não aconselha instalação de ar-condicionado e direção hidráulica fora nem fornece kits. Ou seja, se quiser, só original de fábrica.
No entanto outras marcas permitem a instalação de itens como direção hidráulica e ar-condicionado nas suas concessionárias. Mas cuidado. Josenildo Simplício da Silva, da loja Direauto, explica que presta serviços de instalação de direção hidráulica para uma autorizada Chevrolet, que depois cobra 2 900 reais no caso de um Classic. Na sua empresa ele cobra 1 400 reais. Segundo as montadoras, contudo, a instalação do equipamento na loja independente ocasiona perda da garantia.
Já um kit de ar-condicionado Fiat, que em concessionárias encontramos por 6 500 reais, na empresa especializada Arcon sai por 5 800. “Estamos falando de kits originais homologados pela fábrica. Mas também temos outros, mais em conta, a partir de 2800 reais”, diz o proprietário, Ernesto Miyazaki. Um instalador de uma loja de som de São Paulo, que não quis se identificar, confirma a prática das concessionárias: “O fato é que muitas vezes as autorizadas usam os nossos serviços e cobram até quatro vezes mais do que se o cliente instalasse com a gente”.
Por isso, é importante se certificar de que a instalação desses kits homologados será mesmo feita na concessionária e exigir o serviço especificado na nota fiscal, para não descobrir que o serviço ficou na mão de um terceirizado. “Nesses casos, se der algum problema depois, quem assume a garantia é só a concessionária”, afirma Alan Santos.




