
Ao levar seu Ford Ka 2008 para a concessionária, a psicóloga Camila Tonelli planejava pagar 636 reais pela revisão dos 40 000 km. "Antes de ir à autorizada, entrei no site e consultei o valor. Achei muito bom, pois pude programar minhas finanças e cheguei mais confiante à oficina", afirma. Mas, para sua surpresa, recebeu um orçamento de 850 reais. A resposta de Camila foi fácil: "Na hora perguntei sobre os preços fixos e, no fim, eles acabaram fazendo apenas o que estava descrito no site".
O final feliz dessa história só foi possível porque nos últimos anos montadoras e importadoras começaram a divulgar em seus sites institucionais tabelas com preços fixos das revisões básicas. De uma só vez, o consumidor ganhou em dobro. A primeira vantagem é a possibilidade de saber qual é o valor justo para uma revisão e sair em busca do melhor preço, como acontece na hora de comprar um carro. O outro ponto positivo é que o preço público virou munição no combate à prática da empurroterapia, a tendência que a autorizadas têm de turbinar seus preços com serviços desnecessários.
Os preços fixos das revisões são um fenômeno recente. A pioneira no Brasil foi a Ford, em 2008, mas boa parte das montadoras já aderiu à prática. "Começamos com esse trabalho para oferecer maior tranquilidade aos consumidores nas revisões. Fizemos um acordo com nossos distribuidores, e a orientação é que eles sigam a tabela fixa", diz o gerente de marketing de produto da Ford, Rodolfo Possuelo. A proposta deu tão certo que a marca resolveu criar algo semelhante para os produtos adicionais de manutenção. Além do Preço Fixo Ford, nome para a tabela de revisões programadas, há também o Kit Preço Fixo, que nada mais é que uma relação de valores para peças e serviços extras, em geral feitos em veículos fora da garantia.
Mas não pense que a simples divulgação de preços acabou com a dor de cabeça ao orçar uma revisão. Consultamos os sites das dez maiores marcas do mercado nacional para saber quem tem essa política de valores fixos e como ela funciona na prática. A Ford, por exemplo, disponibiliza logo em sua página inicial um link que direciona o consumidor para a tabela. Na Volkswagen, o processo é mais trabalhoso. O internauta tem de entrar no site, clicar em serviços e depois em um discreto link chamado "Planos de Manutenção", que pode passar despercebido à primeira vista. Lá dentro, em vez de indicar quilometragem ou tempo de uso, o site informa por ordem de serviços - primeiro serviço, segundo, terceiro...
Apagão da tabela
Hyundai, Renault e Chevrolet são mais práticas. Elas disponibilizam na seção de serviços as tabelas com todas as revisões, descrevendo o que será feito e os preços - basta selecionar o modelo e a versão. Já na Fiat a situação foi curiosa. Conseguimos acessar a tabela, mas alguns dias depois ela saiu do ar. Ligamos para a empresa, que alegou que a página estava em manutenção. Quatro dias depois o serviço voltou ao site. As demais montadoras, Nissan, Toyota e Honda, ainda não disponibilizam esse tipo de serviço.
Depois de vasculhar os sites, fomos para as ruas, ou melhor, para as concessionárias. E aqui a notícia é boa. Pelo menos 80% das autorizadas consultadas confirmaram os preços dos sites. Porém, mesmo com esse bom resultado, nota-se que ainda existe a cobrança de preços maiores e a tradicional empurroterapia. Entre as maiores diferenças nos valores apurados (veja tabela ao lado), o destaque ficou para a Fiat. Fizemos uma cotação para a primeira revisão do nosso Uno de Longa Duração. O primeiro orçamento foi de 887,47 reais. Mas, depois de ser confrontada com a tabela oficial, o serviço baixou para 156 reais - uma economia de 82% (leia mais sobre o caso na seção Longa Duração).
Quando encontramos o preço maior, o truque da autorizada era alegar que o serviço do site era uma versão mais básica da revisão (mas suficiente para manter a garantia de fábrica) ou o atendente desconversava, dizendo que também dependia do estado do veículo. "O preço é esse mesmo do site, porém o ideal é que você traga seu carro até aqui, para passarmos o orçamento de forma correta", disse um dos funcionários da Ford Sandrecar, de São Paulo (SP).




