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Auto-serviço | Reportagens
Correia ou corrente?
Janeiro 2010

Correia ou corrente?

Você sabe qual dos dois o seu motor usa? Essa dúvida pode custar caro depois

Por Gustavo Henrique Ruffo
Lista de matérias por data:

ALTERAR O TAMANHO DA LETRA  

Um dia o mecânico Pedro Scopino ouviu de uma cliente um pedido que parecia comum. “Dá uma olhada na correia dentada do meu Classe A? Me disseram que, se ela quebrar, vai me dar um grande prejuízo”, disse ela. “Só que o Mercedes-Benz A 160 dela não tinha correia dentada e sim corrente. E não foi só ela que me perguntou isso. Muita gente me pede para trocar correia dentada de Ford Ka e de Toyota Corolla, entre outros. Mas nenhum desses tem correia, tem corrente”, diz o mecânico, que é dono da Auto Mecânica Scopino e consultor técnico do Sindirepa, o sindicato dos mecânicos de São Paulo.

Como a tal cliente, muitos proprietários não sabem exatamente o que está sob o capô de seus automóveis. Sorte de essa cliente ter encontrado uma oficina honesta pela frente, mas esse desconhecimento pode ser a chance de cair no golpe da correia e pagar por uma troca que nunca foi feita, pois em geral as correntes do comando de válvulas duram 100 000 km ou mais.

Para começar, vale saber para que serve a correia dentada em um motor. Ela movimenta e sincroniza as válvulas em relação aos pistões. Se a correia se quebrar, as válvulas param, deixando de admitir o ar e o combustível e de eliminar os gases da combustão. Como elas param, os pistões se chocam com algumas delas, o que trava o motor. É daí que vem o alto custo do conserto de que todo mundo fala (e que teme). “Aconteceu de um cliente comentar com outro que teve um grande prejuízo ao deixar a correia dentada quebrar e esse comentário, de boca em boca, leva alguns usuários a vir aqui para trocar a correia, mas nem sempre seus carros têm correia. Podem ter corrente”, afirma Scopino. É para evitar essa fragilidade que alguns fabricantes optam pela corrente, que faz o mesmo serviço que a correia, porém, dura mais.

Prejuízo de 4 000 reais
O publicitário Henrique Almeida, 22 anos, sentiu no bolso o que acontece quando uma correia dentada quebra. “Fui deixando para depois a troca da correia da minha Marea Weekend 2.0 20V e ela acabou estourando. Isso entortou as 20 válvulas do motor, uma brincadeira de 4 000 reais”, diz o publicitário. “Depois disso, arrumei e acabei vendendo o carro, mas acabei comprando outro Marea, dessa vez sedã. A primeira coisa que fiz foi trocar a correia”.

Almeida rodou 30 000 km com o novo carro e talvez pudesse rodar bem mais com ele, mas prefere não arriscar, algo a que Scopino dá razão. “A correia dentada fica coberta por uma capa, o que dificulta sua visualização. É raro apresentar ruídos estranhos antes da quebra. A manutenção é em cima da quilometragem, mesmo, que deve ser respeitada em relação à recomendação do manual do fabricante. Ali muitas vezes se diz para reduzir a recomendação pela metade para utilização em serviço severo. Lembrando: utilização constante em trânsito é considerada uso severo”.

Não espere, portanto, ver a correia gasta ou ouvir algum chiado específico. Está na dúvida? Mande trocar a correia. Carros como o Fiat Palio, o Chevrolet Celta e o VW Gol têm recomendação de troca a cada 60 000 km. Com uso severo, essa recomendação cai para 40000 km. Já os Ford Escort 1.8 16V Zetec e o Fiesta 1.4 16V, que também usam correia, têm recomendação de troca em 120 000 km. Com uso severo, ela cai para 100 000 km. “A diferença na quilometragem de troca não é pela qualidade das peças, mas pelo próprio projeto do motor”, diz Eduardo de Oliveira Neves, proprietário da Nipo- Brasileiro Serviços Automotivos.

Apesar de serem resistentes, as correntes também precisam ser substituídas um dia, mas elas têm a vantagem de dar o aviso antes. A troca da correia dentada varia de 40 000 km a 100 000 km, enquanto a troca da corrente pode variar de 100 000 km até quando ela fizer ruído. “E é muito raro uma corrente quebrar, diferentemente do que ocorre com a correia dentada. Antes de quebrar, os elos de uma corrente fazem barulho durante um bom tempo. A durabilidade é maior porque, além de ela ser feita de aço, ela ainda recebe a lubrificação do óleo do motor”, afirma Scopino.

Como a complexidade na troca é mais alta, o valor da substituição da corrente também é significativamente maior. A troca da correia dentada em um carro popular parte de 400 reais. Já substituir a corrente de um Ford Ka, que tem motor Zetec Rocam, custa cerca de 1 000 reais.

 



AÇÃO COLETIVA

Mesmo motores que usam corrente podem utilizar correias, mas para outro objetivo. A função não é sincronizar as válvulas e sim dar vida a outros equipamentos, como compressor do ar-condicionado, bomba da direção hidráulica, bomba d’água, alternador e por aí afora. As correias mais comuns para isso são as V, que recebem esse nome por causa do formato de sua parte interna, em V, para se encaixar bem no sulco das polias. Além dessa, há também a poli-V, que traz diversas fileiras em V (de três a seis fileiras), uma ao lado da outra, e também se presta a movimentar os equipamentos auxiliares, com uma vantagem: uma correia poli-V pode tocar todos os equipamentos de uma vez (a V não se presta a isso). A desvantagem é que, se ela arrebentar, todos esses equipamentos param também. A vida útil dessas outras correias é significativamente menor: vai de 20 000 km a 40 000 km. Os preços variam de 15 reais a mais de 150 reais, dependendo do carro e da aplicação.

 

 



TROCAR OU NÃO TROCAR? EIS A QUESTÃO

 



Os carros que usam corrente no motor, entre os modelos nacionais, do Mercosul e do México
Chevrolet: Ecotec (Captiva) e o V6 3.6 (Omega e Captiva)
Ford: todos os motores atuais da marca
Honda: todos os motores da marca
Nissan: todos os motores da marca usam corrente, exceto o 1.6 da Livina, de origem Renault, que usa correia
Toyota: todos os motores da marca





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