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O que a vista não alcança
Novembro 2007

O que a vista não alcança

Financiar por mais de três anos expõe o comprador a um elevado risco financeiro

Por Cláudio Gradilone | Ilustração: Nelson Provazi
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ALTERAR O TAMANHO DA LETRA  

Pergunte a qualquer consultor financeiro e ele vai explicar pacientemente que carro não é um investimento. Investimento é a decisão de adiar o consumo e aplicar o dinheiro que seria gasto em um produto financeiro - ou mesmo em algo como um imóvel - para tentar obter um valor maior no futuro. No Brasil ainda há essa confusão, especialmente entre os proprietários que têm mais de 40 anos e cresceram nos tempos de inflação elevada. Naquela época, havia uma razoável probabilidade de o preço do carro usado subir mais que a inflação - até porque não havia tanta oferta de veículos como hoje.

Porém, essa mecânica econômica deixou de funcionar há pelo menos 14 anos, quando o Brasil domou a inflação. Hoje, a situação brasileira é semelhante à de qualquer economia estável. Carros perdem valor ao longo do tempo. No entanto, mesmo sem ser investimento, o automóvel costuma ser o primeiro bem a ser vendido quando se precisa fazer dinheiro rápido.

Desvalorização acentuada

A solução de trocar o veículo por um mais simples ou mais usado para obter uma diferença em dinheiro já é prática antiga. A diferença, agora, é que o alongamento das alternativas de financiamento aumenta a possibilidade de que o carro que precisa ser vendido para fazer caixa ainda não esteja totalmente quitado. É aí que o proprietário começa a correr riscos, por dois motivos. O primeiro é que carros zero-quilômetro perdem uma fração de 5% a 10% de seu valor assim que cruzam os portões das concessionárias e continuam se depreciando com os quilômetros rodados. Modelos mais simples e baratos perdem algo como 8% do que valem a cada ano. Nos carros médios, essa desvalorização é mais acentuada, podendo chegar a 10% ou mesmo a 15% ao ano.

O segundo risco vem da estrutura financeira dos contratos de empréstimo. Os bancos emprestam dinheiro para ter lucro, de preferência muito. Para ganharem dinheiro, eles têm de estar seguros de que o devedor não apenas vai pagar suas contas em dia, como também não vai pagar antecipadamente e frustrar a expectativa de um lucro tido como garantido. "É normal que os bancos cobrem tarifas de quem quer quitar suas dívidas antecipadamente", diz o consultor financeiro Gustavo Cerbasi.

Além disso, os bancos não são obrigados a conceder qualquer abatimento nos juros para quem quer pagar antes do prazo. Portanto, se tiver de vender um carro financiado, o motorista pode encontrar-se em uma situação complicada e perceber que o total recebido na venda não é suficiente para cobrir a dívida.

Risco de longo prazo

Ou seja, em vez de vender o automóvel e conseguir algum dinheiro extra, o motorista pode ter de afundar ainda mais as mãos no bolso para pagar o que está devendo. Dois exemplos hipotéticos na tabela ao lado mostram que quem vender o carro nos primeiros anos vai ficar devendo dinheiro. Isso só deixa de ocorrer nos últimos anos do financiamento, quando a maior parte da dívida já foi paga.

Essa situação - e aqui está a terceira má notícia - envolve um risco adicional. Carros com mais tempo de uso são mais difíceis de vender. Seus modelos tendem a estar superados, mais desgastados e, principalmente, apresentam gastos maiores com manutenção. As despesas mecânicas costumam ser previsíveis nos três primeiros anos (para quem roda pouco) e nos primeiros 50 000 quilômetros, no caso de usuários que rodam mais.

O que fazer, então? A recomendação de ouro para quem quer financiar a aquisição de um carro é pensar nessa operação financeira como a compra de um bem de consumo durável - uma geladeira, televisão ou forno de microondas. O financiamento é uma forma de fazer a compra de um carro básico caber no bolso, ou a maneira de adquirir um modelo um pouco mais sofisticado sem raspar a totalidade das economias. Por isso, a recomendação dos especialistas é limitar os financiamentos a 36 meses, no máximo, para pagar menos juros e livrar-se mais rapidamente da dívida. Se for preciso vender o carro no meio do caminho, a parcela a ser paga já será menor e o comprador vai correr menos risco de ter de colocar mais dinheiro para quitar sua dívida.


FINANCIAMENTO A LONGUÍSSIMO PRAZO (VALORES EM REAIS FONTE: CONCESSIONÁRIAS)
VW Gol 1.0 City 2p
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2013
Valor do carro no
ano da venda
24700
22984
22294
19747
18452
17373
16294
Valor do financiamento
a pagar
40965
34138
27310
20483
13655
6828
0
Quanto você paga ou
recebe se vender
-16265
-11153
-5016
-736
+4797
+10546
+16294
Compensa vender
nesse ano?
Não
Não
Não
Não
Sim
Sim
Sim

Toyota Corolla 1.8 XLi
2007
2008
2009
2010
2011
2012
2013
Valor do carro no
ano da venda
55900
50512
46471
45077
41665
39150
36487
Valor do financiamento
a pagar
86400
72000
57600
43200
28800
14400
0
Quanto você paga ou
recebe se vender
-30500
-21488
-11129
+1877
+12865
+24750
+36487
Compensa vender
nesse ano?
Não
Não
Não
Sim
Sim
Sim
Sim



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