
Porém, essa mecânica econômica deixou de funcionar há pelo menos 14 anos, quando o Brasil domou a inflação. Hoje, a situação brasileira é semelhante à de qualquer economia estável. Carros perdem valor ao longo do tempo. No entanto, mesmo sem ser investimento, o automóvel costuma ser o primeiro bem a ser vendido quando se precisa fazer dinheiro rápido.
Desvalorização acentuada
A solução de trocar o veículo por um mais simples ou mais usado para obter uma diferença em dinheiro já é prática antiga. A diferença, agora, é que o alongamento das alternativas de financiamento aumenta a possibilidade de que o carro que precisa ser vendido para fazer caixa ainda não esteja totalmente quitado. É aí que o proprietário começa a correr riscos, por dois motivos. O primeiro é que carros zero-quilômetro perdem uma fração de 5% a 10% de seu valor assim que cruzam os portões das concessionárias e continuam se depreciando com os quilômetros rodados. Modelos mais simples e baratos perdem algo como 8% do que valem a cada ano. Nos carros médios, essa desvalorização é mais acentuada, podendo chegar a 10% ou mesmo a 15% ao ano.
O segundo risco vem da estrutura financeira dos contratos de empréstimo. Os bancos emprestam dinheiro para ter lucro, de preferência muito. Para ganharem dinheiro, eles têm de estar seguros de que o devedor não apenas vai pagar suas contas em dia, como também não vai pagar antecipadamente e frustrar a expectativa de um lucro tido como garantido. "É normal que os bancos cobrem tarifas de quem quer quitar suas dívidas antecipadamente", diz o consultor financeiro Gustavo Cerbasi.
Além disso, os bancos não são obrigados a conceder qualquer abatimento nos juros para quem quer pagar antes do prazo. Portanto, se tiver de vender um carro financiado, o motorista pode encontrar-se em uma situação complicada e perceber que o total recebido na venda não é suficiente para cobrir a dívida.
Risco de longo prazo
Ou seja, em vez de vender o automóvel e conseguir algum dinheiro extra, o motorista pode ter de afundar ainda mais as mãos no bolso para pagar o que está devendo. Dois exemplos hipotéticos na tabela ao lado mostram que quem vender o carro nos primeiros anos vai ficar devendo dinheiro. Isso só deixa de ocorrer nos últimos anos do financiamento, quando a maior parte da dívida já foi paga.
Essa situação - e aqui está a terceira má notícia - envolve um risco adicional. Carros com mais tempo de uso são mais difíceis de vender. Seus modelos tendem a estar superados, mais desgastados e, principalmente, apresentam gastos maiores com manutenção. As despesas mecânicas costumam ser previsíveis nos três primeiros anos (para quem roda pouco) e nos primeiros 50 000 quilômetros, no caso de usuários que rodam mais.
O que fazer, então? A recomendação de ouro para quem quer financiar a aquisição de um carro é pensar nessa operação financeira como a compra de um bem de consumo durável - uma geladeira, televisão ou forno de microondas. O financiamento é uma forma de fazer a compra de um carro básico caber no bolso, ou a maneira de adquirir um modelo um pouco mais sofisticado sem raspar a totalidade das economias. Por isso, a recomendação dos especialistas é limitar os financiamentos a 36 meses, no máximo, para pagar menos juros e livrar-se mais rapidamente da dívida. Se for preciso vender o carro no meio do caminho, a parcela a ser paga já será menor e o comprador vai correr menos risco de ter de colocar mais dinheiro para quitar sua dívida.
FINANCIAMENTO A LONGUÍSSIMO PRAZO (VALORES EM REAIS FONTE: CONCESSIONÁRIAS)
ano da venda
a pagar
recebe se vender
nesse ano?
ano da venda
a pagar
recebe se vender
nesse ano?







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