
Vanessa evitava ao máximo sair com o carro para poupar combustível e driblar o desgaste, mas mesmo assim as prestações foram atrasando. "Tive de começar a desmanchar meu carro." O jipe era equipado com pneus para trilha, som personalizado, rádios de comunicação. Ela teve de vender essas peças para poder pagar as prestações. O pior foi o retrocesso financeiro. "Morava sozinha, mas tive de voltar a viver com minha mãe." Atolada em dívidas de cartão de crédito e outros empréstimos, Vanessa não suportou a pressão e vendeu seu jipe antes que ele sofresse busca e apreensão. Recebeu 20 000 reais pelo Suzuki, mas teve de pagar 16 000 só de dívidas. "Com o que sobrou, paguei parte de algumas dívidas que ainda estou liquidando." Depois voltou a trabalhar e hoje evita dar passos maiores do que a perna. Em dezembro passado, comprou à vista um Fiat Mille 1994 que cabia no bolso. "Paguei 9 500 reais. Aprendi a lição."
O caso de Vanessa é um retrato da maioria dos inadimplentes do país. Especialistas confirmam que o brasileiro não é um mau pagador. O não-pagamento de prestações acima de 90 dias chegou este ano a 3,22% da carteira de financiamentos, segundo a Anef, que reúne as financeiras de montadoras. O perfil médio do inadimplente é aquela pessoa que sofre um baque não previsto, como doença ou perda de emprego - exatamente o que ocorreu com Vanessa. O problema é que casos como esse podem aumentar nos próximos meses, devido ao aumento da oferta de crédito. O fato de os bancos estarem alongando os prazos dos empréstimos facilitou a vida de quem quer comprar carro. Essa facilidade, porém, aumenta a probabilidade de o comprador não conseguir honrar sua dívida. Com prazos alongados - e no mercado já existem os planos de 84 meses -, a dificuldade de prever o futuro é maior.
Para fugir de situações iguais à de Vanessa, os especialistas dão algumas dicas. A principal é esquecer a Gait lorer sis estio digna consectet ad eumsandiate lógica do "dá para pagar". Há pouco tempo, a maioria dos compradores tinha folga para honrar a prestação de um 1.0. Hoje a mesma parcela mensal que antes servia a um Mille já permite financiar um modelo médio ou mesmo de luxo. Nessa hora, porém, o comprador esquece que esses carros são mais caros não só no preço, mas também em termos de seguro, manutenção e IPVA, sem falar no consumo. "Não pense se dá para pagar. O certo é pensar se dá para pagar com folga", afirma o consultor financeiro Gustavo Cerbasi, autor de Dinheiro: os Segredos de Quem Tem, entre outros livros de planejamento financeiro.
Excelente conselho. O que fazer, porém, se ele chegou tarde demais? A primeira atitude a tomar quando não se consegue pagar a prestação é reconhecer que você tem um problema. Acredite, é o passo mais difícil de dar. "O pior do descontrole financeiro vem do fato de as pessoas não admitirem que estão com problemas em suas contas", diz o consultor financeiro Marcos Crivelaro. O devedor precisa ter em mente que ele não é um criminoso. É apenas uma pessoa que fez projeções erradas e endividou-se acima de sua capacidade. Acontece todos os dias, e as empresas financeiras estão preparadas para lidar com esse problema sem (muito) estresse. Elas não querem seu carro de volta. Para elas, é muito mais negócio se você continuar pagando suas prestações. "O agente financeiro não tem como especialidade vender carros. Portanto, não tem interesse nenhum em reaver o bem", diz Luiz Montenegro, presidente da Anef.
Por isso, na hora de lidar com o problema, a pior atitude possível é fugir. Deixar de atender telefonemas ou ignorar as cartas de cobrança só agravam o problema. É preciso encarar a realidade, refazer os cálculos e ver quanto é possível pagar. "Se você está pagando 350 reais por mês e descobre que só consegue desembolsar 250 reais, o jeito é sentar com o banco e contar a história para ele. Aí é que entra o prazo mais esticado", diz Montenegro. A alternativa, mas só após ter esgotado as negociações, é procurar alguém para ficar com seu carro. Só em último caso se deve entregar o veículo, pois o prejuízo é bem maior.
Se o automóvel é uma necessidade, além de esticar o prazo é preciso fazer um aperto nos outros gastos. "Cabe uma discussão em família para adequar o padrão de vida. Uma opção drástica pode ser vender a casa e mudar para uma moradia entre 10% e 15% mais barata", diz Cerbasi.







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