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Quanto custa mudar de idéia
Novembro 2007

Quanto custa mudar de idéia

Passar para a frente um veículo financiado não costuma ser bom negócio. Mas há exceções

Por Luís Perez | Foto: Renato Pizzutto
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ALTERAR O TAMANHO DA LETRA  

Tudo parecia perfeito. O carro dos seus sonhos, modelo e cor ideais e, melhor ainda, entrada e prestações que cabiam perfeitamente no seu bolso. Fechado o negócio, o motorista dirige feliz por dias, semanas, meses, até o inesperado acontecer. Não estamos falando de um acidente na rua de uma cidade brasileira, mas de uma trombada financeira sem aviso. O imprevisto pode aparecer como uma redução no faturamento da empresa, ou o súbito desemprego de alguém muito próximo - ou mesmo o seu, por exemplo. Então, de uma hora para outra, o plano que parecia ajustar-se perfeitamente ao seu bolso torna-se impossível de pagar.

O que fazer? A solução é livrar-se da dívida - e por vezes a única saída é revender o automóvel financiado. Essa não é a melhor solução, uma vez que quase sempre passar o carro para a frente é sinônimo de perder dinheiro. Porém, se for necessário tomar essa decisão, saiba que não é nenhum bicho-de-sete-cabeças. Ninguém compra um carro financiado pensando que não vai conseguir arcar com as prestações. Mesmo assim, sempre é prudente saber o que fazer se a realidade teimar em não concordar com seus planos. Na melhor das hipóteses, o devedor tem de pagar uma simples taxa de administração. Na pior, desistir de um financiamento pode ser um transtorno.

O perigo da quitação

A origem dos problemas está no fato de que quem compra um carro financiado está pagando, na verdade, duas dívidas. Uma é o valor do carro em si. Outra é o custo do dinheiro que foi emprestado pelo banco, por uma financeira ou pela própria montadora. Pensando exatamente na possibilidade de o comprador mudar de idéia no futuro, quem oferece o crédito - no caso, o banco - cobra os juros adiantadamente. Assim, em caso de desistência, esse valor não volta mais para sua conta. "Nessas situações, a pessoa sempre perde", diz George Chahade, presidente da Associação de Revendedores de Veículos Automotores do Estado de São Paulo (Assovesp).

Chahade diz que é difícil fazer uma conta de quanto se perde que sirva para todos os casos. "Mesmo assim", afirma, "é possível dizer que, num caso em que foi financiado um carro de 20 000 reais e a pessoa só pagou seis meses, de um total de três anos, esse valor já foi perdido", diz Chahade. "Em financiamentos longos, os juros são pagos no começo e a amortização no final. Ou seja, nos primeiros meses, a maior parte do veículo está por ser paga. Quem desiste do financiamento e passa o carro adiante recebe muito pouco", diz o consultor financeiro Gustavo Cerbasi.

Uma das primeiras perguntas a serem feitas é: Passar para a frente um veículo financiado não costuma ser bom negócio. Mas há exceções quanto custa desistir? Algo que pode surpreender o comprador incauto é que resgatar o dinheiro do banco e quitar a dívida geralmente não é vantagem. Há financeiras que cobram uma taxa de quitação antecipada, embora essa prática seja condenada pelo Código de Defesa do Consumidor. "Algumas instituições cobram taxas de transferência altíssimas, por isso o consumidor deve estar atento", diz Luiz Montenegro, presidente da Associação Nacional das Empresas Financeiras das Montadoras (Anef). "É preciso verificar se existe essa tarifa antes de assinar o contrato."

Em outros casos, o banco concede um desconto muito pequeno para quem quiser pagar tudo antecipadamente. "Muitas vezes o desconto para quitação à vista também é muito pequeno e não vale a pena", diz Cerbasi. Isso ocorre porque, para o banco, não é interessante receber o dinheiro antes do previsto. O melhor é que o dinheiro fique rendendo juros, a serem pagos pelo devedor.

Na prática, o que o consumidor quer é se livrar da dívida, não do veículo. Por isso, a melhor recomendação é encontrar outra pessoa disposta a assumir a dívida e transferi-la. Muito cuidado aqui: nove entre dez negociantes de automóveis usados vão jurar que contratos informais - o famoso "contrato de gaveta" - não dão problemas. Não acredite. Mesmo que negociante e comprador sejam pessoas absolutamente idôneas e honestas, essas transações não têm valor legal. "O contrato de gaveta não vale nada, mesmo que os dois reconheçam firma em cartório. É preciso que haja o conhecimento e a aprovação da instituição financeira", diz Chahade.

Nem sempre é mico

Isso quer dizer que, além de achar alguém disposto a assumir a dívida, quem quer se livrar de um carro financiado precisa também encontrar um comprador que tenha o crédito aprovado pelo banco. E, como vender um veículo nessa condição sempre é mais difícil, a dica é anunciá- lo em todos os meios possíveis - classificados de jornais, de sites especializados, com os amigos, em uma loja, em feirões, enfim, em todos os lugares. Se estiver difícil de revendê-lo, o melhor é baixar o valor que você vai receber, para torná-lo mais atraente a quem vai assumir o financiamento.

Embora em quase 100% dos casos vender o automóvel financiado não seja grande vantagem para o proprietário, é preciso saber reconhecer quando se está diante de uma exceção. Foi o que aconteceu com o vendedor Cristiano Gonzalez Auad, de 32 anos, que tinha um Chevrolet Corsa Sedan 2002 financiado em 36 vezes, com 18 prestações já pagas, e resolveu trocá-lo por um Focus 2002 1.8. Como o preço do Focus era bom, ele encontrou comprador para o Corsa, quitou o veículo e, com o que sobrou, deu entrada no Focus. "O melhor que se tem a fazer é saber negociar caso a caso. Como eu fiz: pulei de um carro de 20 000 reais para um de 30 000 reais. Como minha entrada foi maior [ele usou todo o dinheiro que recebeu do Corsa], financiei de novo em 36 vezes pagando os mesmos 520 reais que desembolsava pelo Corsa", diz. O Focus de Auad foi quitado no fim de 2006. Só que, no início do ano, ele precisou de 10 000 reais para montar um negócio próprio. Resolveu então refinanciar esse valor no automóvel.



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