
Thiago e seus amigos conhecem muito bem as conseqüências da mistura de álcool e direção. São jovens comuns, de boa educação e amplo acesso à informação. Mas, cada noite que se arriscam ao volante na tênue linha da sobriedade, cometem um crime - com pena prevista de seis meses a três anos de detenção - que segue tirando a vida de milhares de jovens de sua idade. Uma atitude tão condenável quanto comum, que faz dos acidentes de trânsito a segunda maior causa de morte entre os jovens brasileiros - só perde para os homicídios, de acordo com dados do Ministério da Saúde. Estima-se que entre 40% e 50% das mortes de jovens no trânsito estejam associadas ao uso de álcool. "Sei que é errado, mas não tem jeito. Todo mundo faz isso e, enquanto eu continuar a sair, vai ser assim", diz Thiago.
A sinceridade de Thiago chama atenção, mas não é raro encontrar outros jovens que pensam e agem da mesma maneira. Uma semana depois, a mesma cena repete-se em outro posto da Vila Olímpia, zona sul de São Paulo. Em um dos grupos está Helton, 21 anos, dono do Audi A3 estacionado em frente à loja de conveniência. Ele carrega uma garrafa de cerveja, mas logo trata de se justificar. "Sempre procuro beber dentro do meu limite. Hoje, na balada, pretendo beber só umas três doses de uísque", afirma. "Antes, quando tinha um Palio com câmbio manual, era difícil dirigir bêbado, por causa da rampa da garagem. Agora, com câmbio automático, é sossegado." Em outro grupo, Fernanda, de 19 anos, e Bruno, de 20, contam as histórias de acidentes da turma - que, a julgar pelas garrafas de bebida, não serviram como exemplo. "Há pouco tempo, dois amigos bateram feio ao voltar de uma festa e ficaram em coma", diz a estudante. Bruno por sua vez, já se envolveu em uma colisão por causa da embriaguez de um amigo ao volante. "Por sorte não aconteceu nada com a gente."
Do outro lado da rua, outra turma também faz o aquecimento para a balada, regado a vodca. "A gente vem direto para este posto, quase todo fim de semana. É mais barato já beber bastante antes e chegar à balada calibrado", diz Wilton, 19 anos. Daniel, 21 anos, afirma sempre ser muito cauteloso na volta para casa, mas admite já ter vivido seus deslizes. "Confesso que um dia desses bebi demais, e não sei como cheguei dirigindo em casa. Só sei que acordei no dia seguinte e o carro estava lá, mas não me lembro de nada", diz. Foi dele a dica de outro local onde encontrar gente de sua idade cometendo a mesma imprudência. "Na próxima semana tem uma micareta. Começa à tarde, mas é só chegar mais cedo para ver um monte de carros com o porta-malas aberto, cheio de bebidas. Pode apostar", diz Daniel.
A cena não poderia ter sido descrita com mais fidelidade. Por volta das 11 da manhã do domingo seguinte, o trânsito atípico na rodovia dos Imigrantes denuncia o que vem pela frente. O fluxo de veículos com destino ao carnaval temporão é tão grande que forma uma enorme fila. Cada carro leva quatro, cinco jovens, com ao menos uma lata de cerveja ou garrafa de vodca na mão - inclusive os motoristas, que não se intimidam com a presença da polícia nas proximidades. Ao volante, o estudante Allan, 19 anos, coloca meio corpo para fora do carro para trocar garrafas com um jovem em outro carro, também em movimento. Horas depois, ele já estava tão embriagado que mal parava no lugar, dançando ininterruptamente.
No estacionamento, o que se vê é uma multidão de jovens no auge da euforia, bebendo como se fosse aquele o último dia. Em meio à festa, Francisco, 21 anos, discorre sobre sua responsabilidade no trânsito. "Hoje, por exemplo, meu primo Leandro disse que queria beber muito, e eu assumi a direção. A gente sempre se reveza dessa maneira." Visivelmente alterado, com a fala arrastada, ele confessa que já havia bebido. "Esta aqui é a sexta latinha, e antes bebi mais uns três copos de vodca. Mas, a partir do momento que eu entrar no show, não bebo mais nada", afirma. Às 3 da tarde, quando os portões se abrem para o show, vários jovens ficam do lado de fora, no posto médico, devido ao consumo abusivo de álcool. "Normalmente, em um evento desse porte, a grande preocupação é com brigas. Mas, neste caso, praticamente só temos ocorrências de gente que bebe até cair e depois ainda quer voltar dirigindo", diz o soldado Wesley, um dos 77 bombeiros de prontidão no evento.





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