Câmbios automatizados

Equipamentos prometem vida longa sem manutenção, mas na vida real eles podem abrir um rombo no orçamento se quebrarem

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Você foi seduzido pela promessa de mais conforto a baixo custo da transmissão automatizada. Ou de um câmbio mais esportivo e de trocas mais rápidas no caso dos sistemas de dupla embreagem. Segundo as informações dos fabricantes, os modelos DSG ou S-Tronic (grupo Volkswagen) e o PowerShift (Ford) não precisam de manutenção até o fim de sua vida útil, estimada em mais de 200 000 km, enquanto um câmbio manual precisa de uma troca de embreagem em menos da metade desse tempo. Na prática, a teoria é outra, como mostrou o levantamento que fizemos em oficinas especializadas em transmissões.

Segundo o diretor do Sindirepa-SP (sindicato das oficinas independentes) Antônio Gaspar de Oliveira, especializado em transmissões, alguns sistemas de dupla embreagem estão durando menos que o previsto. Em geral, a culpa é do uso severo, como acelerações bruscas e o ato de segurar o carro na subida só no acelerador. “Os defeitos mais comuns ocorrem por desgaste do conjunto de embreagens e pela elevação da temperatura do óleo do câmbio.” Os sinais de defeito são marchas que não engatam ou patinam ou mesmo o travamento do câmbio.

A ironia é que essa transmissão em geral equipa carros de alto desempenho, o que pressupõe que ela será mais exigida que a média. “No caso do DSG, verificamos avarias na unidade mecatrônica, que é a união do corpo de válvulas e do módulo de controle em uma única peça”, explica Cesar Sanches, técnico da Automatik, oficina especializada em câmbio.

Talvez o grande problema que os câmbios de dupla embreagem enfrentem seja o fato de não terem um plano de manutenção programada, como ocorre com uma embreagem tradicional. Com isso, o fornecimento das peças de reposição se torna não regra, mas exceção. Os componentes de reposição são cativos, ou seja, são encontrados principalmente na rede de concessionários da marca. “É preciso ter ferramental específico, equipamentos eletrônicos dedicados para essa tecnologia e mão de obra especializada. Com tudo isso somado, podemos partir de R$ 10 000 no caso de um defeito”, diz Oliveira.

Durabilidade cara

O kit do DSG, só com as embreagens e outras peças de reposição, custa nas autorizadas R$ 5 132; o do PowerShift fica em R$ 4 800. Isso já ajuda a entender por que consertar essas transmissões é tão salgado. Há quem encontre os kits a preços mais baixos, como na oficina especializada Edermatic, mas o reparo não fica mais barato. “Vendemos o kit do DSG em média a R$ 3 500. O do PowerShift ainda não temos ideia, pois não fizemos manutenções neles, talvez por ainda estar em garantia. O conserto do câmbio de dupla embreagem pode variar de R$ 10 000 a R$ 16 000, dependendo de qual parte foi afetada”, diz Ederson Sá, técnico da Edermatic.

Nas outras oficinas especializadas consultadas, o valor de reparo é quase o mesmo. “O conserto do DSG custa R$ 3 000 pela mão de obra mais o valor das embreagens e 6 litros de óleo, que está em R$ 200 o litro. O custo final fica em R$ 9 300”, afirma Alexandre Rogério, da Auto Câmbio Faria.

Gastar R$ 10 000 no conserto de um automatizado de dupla embreagem pode indicar os automáticos convencionais como uma escolha mais segura, especialmente em relação ao preço de reparo. Isso é verdade em caso de defeitos, apesar de o reparo também não ser barato. “Para fazer uma previsão de custo de peças e mão de obra num câmbio automático, é preciso desmontar. Os custos podem partir de R$ 5 000”, diz Oliveira. Ainda assim, é metade do conserto médio numa dupla embreagem. A razão do custo mais baixo do automático comum, com conversor de torque, está no fato de ele ser uma tecnologia mais antiga e conhecida pelas oficinas.

Embreagem simples

E como fica o automatizado de embreagem única? Como ele é uma transmissão manual com trocas mecanizadas, sem necessidade do pedal de embreagem, a teoria diz que ela evitará as arranhadas e outras falhas humanas que reduzem sua durabilidade. “De fato, o auxílio eletrônico proporciona condições de maior durabilidade à embreagem”, diz Oliveira. Mas ele revela outro problema. “Automatizados como Dualogic, Easytronic e I-Motion têm o sistema de embreagem [disco, platô e atuador] mais frágil que o dos câmbios manuais comuns. Pela nossa experiência, a durabilidade média da embreagem dos automatizados é de 50 000 km, quando roda na cidade, a 100 000 km, quando se concentra em estradas. Os câmbios manuais convencionais, em média, duram 100 000 e 200 000 km”, diz Sá.

Além do risco de os sistemas automatizados apresentarem durabilidade menor, eles também são mais complexos. A parte eletrônica agregada ao câmbio é um complicador quando há defeito. Na troca da embreagem, a manutenção na parte mecânica é semelhante à do câmbio mecânico, mas é preciso fazer depois a reprogramação e adaptação das marchas. “O trabalho é mais demorado e encarece a mão de obra. Há o custo do aparelho usado na reprogramação e o do fluido do sistema. No total, custa 30% a mais do que uma troca comum”, diz Rogério.

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