Terceiro, cliente de segunda?
Em geral, seguradoras indicam suas oficinas, mas vale a pena bater o pé para levar o carro ao pessoal de sua confiança
POR LUÍZ PEREZ
Márcio Fernandes: bateram no seu Celta e fugiram
Há pouco mais de uma década, uma das alternativas para baratear o custo do seguro era suprimir a cobertura para terceiros. De olho em vender mais e orientar o segurado, alguns corretores não titubeavam em reagir: “Mas como? E se você bater em um Porsche, em um BMW?” Não deixava de ser um argumento de efeito, mas que não levava em conta ocorrências ainda piores: a possibilidade de machucar alguém e ter de arcar com as despesas médicas dessa pessoa. Isso, no entanto, faz parte do passado. Hoje em dia seguro para terceiros virou norma – praticamente todas as apólices trazem as coberturas de responsabilidade civil, que incluem reparo de danos ao veículo, além de danos corporais (despesas médicas e indenização por morte). Em alguns casos há até motoristas que, por falta de dinheiro, fazem apenas o seguro contra terceiros.
Mas é bom lembrar que, como o terceiro não é o cliente da seguradora, nem sempre ele terá o mesmo tratamento privilegiado que tem o segurado. Um exemplo: bateram em seu carro e a culpa foi do outro motorista. Ele aciona o seguro, que resolve indicar uma oficina qualquer para o conserto. E se você não gostar da oficina, tem como reclamar?
Na prática, você sempre pode bater o pé e exigir tratamento melhor. A jornalista Thais Villaça, 26 anos, encontrou seu Citroën C3 com 9 000 quilômetros e menos de um ano de uso com a traseira destruída após sair de um restaurante. Uma pessoa perdeu a direção de seu carro, bateu no C3 parado e simplesmente fugiu sem deixar contato. “O impacto foi tão forte que danificou até o radiador, pois bateu em um outro veículo parado à frente”, diz ela. Por sorte, testemunhas anotaram a placa e ela chegou à responsável pela batida, uma professora universitária dona de um VW CrossFox com quebra-mato – o que potencializou o estrago na traseira do C3. Contatada, a professora admitiu a culpa e acionou seu seguro, que recomendou que o conserto fosse feito em oficinas independentes, não em uma autorizada Citroën.
Burocracia maior
Começou então uma discussão: com um carro relativamente novo, ainda na garantia, será que era o caso de repará-lo em uma
oficina que não fosse uma concessionária? Ela então bateu o pé. Queria que seu veículo fosse reparado com ferramental adequado, homologado pela fábrica. Moral da história: ela conseguiu reparar seu veículo numa concessionária Citroën. “A briga foi menor do que eu pensava. Só enfrentei um pouco mais de burocracia.” Essa burocracia consiste em preencher um formulário e assinar um termo de compromisso isentando a seguradora de qualquer responsabilidade caso o conserto realizado fora de sua rede de credenciadas apresentasse algum problema depois.
Caso semelhante ocorreu com o executivo de negócios Márcio Luis Fernandes, 24 anos. O happy hour com os amigos ia muito bem até que, diante de seus olhos, uma garota bateu na lateral de seu Chevrolet Celta, que ele comprara havia apenas uma semana. Seu carro também estava estacionado na rua, e a motorista foi embora. “Era novinho, estava com 800 quilômetros rodados. Fiquei muito chateado. É de cortar o coração quando acontece uma coisa dessas”, afirma. Testemunhas anotaram a placa e foi assim que ele chegou à culpada, que tinha seguro. “Como o carro dela também estragou bem, ela precisou desembolsar o valor da franquia. Mas não resistiu em acionar o seguro”, diz Fernandes.
“O terceiro, não sendo culpado pelo acidente, tem o direito de cobrar os prejuízos que teve do causador do acidente. Essa cobrança normalmente é amigável quando existe o seguro. Se o terceiro for um táxi, também há reembolso, dentro do capital segurado, em relação à perda de renda pelos dias parados”, esclarece Paulo Umeki, diretor de seguros da Liberty. São duas histórias que ilustram bem que o seguro para terceiros funciona – e que terceiro nem sempre é cliente de segunda.
No entanto, sinistros com terceiros escondem uma vantagem que pouquíssimos segurados conhecem. Imagine, por exemplo, que você se distraiu no trânsito e bateu em alguém. No seu carro, o susto foi maior do que o estrago, e se limitou a um risquinho no párachoque – nada que justificasse desembolsar a franquia, que custa em média 1 500 reais e ainda provoca queda em uma classe de bônus em sua apólice. Em compensação, o outro carro ficou bem danificado. Como você é culpado, terá de pagar. Ou melhor, terá de acionar seu seguro. E aí sim terá de desembolsar o valor da franquia e ficar no prejuízo, certo? Nada disso. Você sabia que, para reparar o dano a um terceiro, não é preciso pagar franquia?
Franquia grátis
“É comum que muita gente não conheça alguns detalhes sobre o seguro. Pagamento ou não de franquia é algo que suscita muitas dúvidas. Nesse caso específico, o segurado só paga a franquia se for para atender o seu próprio veículo. Se for somente para o outro veículo, não”, explica Juliana Bortolassi, corretora de seguros da consultoria especializada Simplis. Segundo ela, a franquia atua para que haja uma participação do segurado no reparo do veículo. “Se ela não existisse, qualquer batidinha iria para a oficina.” Vale lembrar que, apesar de isento da franquia, o segurado que se responsabilizou pelo dano ao terceiro perde, sim, uma classe de bônus – ou seja, vai pagar mais pela renovação.
Outra questão que muitos esquecem é que há um valor máximo para o conserto do terceiro. Se você bater em um BMW, o seguro só cobre o que está na apólice. “Os capitais segurados em cada cobertura são de opção do segurado. O limite dos danos a serem cobertos são os efetivamente contratados. Por exemplo, se o valor for de 50 000 reais e os danos ultrapassarem esse valor, a seguradora reembolsa os 50 000 e o segurado deve arcar com o excedente”, diz Umeki. Portanto, se você tem um BMW e baterem no seu carro, torça para que o conserto não ultrapasse esse valor médio de mercado, senão provavelmente você vai ficar no prejuízo. Pois ou terá de convencer o culpado a pagar a diferença ou terá de acionar seu seguro. Ah, seu BMW não tem seguro? Que azar!